sábado, 17 de fevereiro de 2018

Crónica 95 [Destino]

Há um funcionário medíocre, encafuado por detrás do balcão entre impressos a esvoaçar pela repartição, de olhos vesgos e beiças brutas; amiúde, lembra-se ele do aluno brilhante que tinha sido outrora.
Há um homem levado sempre ao colo – do hospital onde nasceu aos corredores do emprego e do partido –, escondido do seu próprio demérito, à força de cunhas metidas e palavras de patrocínio; esse homem acabou por ser diligente, bondoso, afável – uma fonte de serviço útil e benfazejo aos seus pares. 
Há uma mulher que sonhou com a maternidade – mas que só pode ser mãe para os sobrinhos, os amigos, os pais, os tios.
Há um aluno que partia pernas de cadeiras, que pintava mesas e paredes com “gamses” de cores desfalecidas, que batia nos mais moços, que fugia das professoras e da mãe, umas e outra de régua e cinto na mão – e que veio a ser um empresário de sucesso, benfeitor da comunidade, parlamentar de verbo torneado e aguerrido.
Há uma família modelo – filhos que obedeciam e respeitavam, mãe que dirigia e cuidava, pai que protegia e providenciava; anos mais tarde, as fundações da família caem em ruínas para dentro da casa – um filho racha a cabeça a outro filho, por causa de dinheiros a haver e partilhas quebradas; toda a prole tem por desporto verbal predilecto jogar as culpas da vida envenenada para cima dos pais velhos divorciados de fresco.
Há um pai que bebeu, gastou, roubou, insultou, maltratou, que desapareceu – e apareceu corroído de tumores nas entranhas podres; no hospital, a filha visita-o todos os dias – constante vigilante à cabeceira; a filha junta as suas lágrimas às do pai.
Há um amigo que é amigo, que diz que é amigo, que sempre soube o que era o melhor para os seus amigos, que por eles fazia e faz tudo – mas que não tem amigos.
Outro homem, desde o início, não se importa com amigos – calcula e dispõe, selecciona e desgasta, faz dos outros instrumentos; a este homem não faltam, porém, auxílio, dinheiro, favores, refúgios de portas abertas e caminhos atapetados de escarlate. [Quem uma vez disse que este rei ia nu – que todos viam, cegos, vestes de seda dourada onde só havia nudez e artifício – foi de pronto proscrito.]
Finalmente, há um homem que cresceu numa casa onde as bebidas alcoólicas corriam mais abundantes que o leite – que a água. Pensou, decidiu-se – disse-o até, um dia, em voz alta, sozinho: nunca. Hoje emborcava – sozinho, escondido, plácido, pacífico – quase uma garrafa de uísque por dia.
De um ponto a outro ponto estende-se uma linha – o mais direita possível para que se possa extrair um sentido desta geometria, desta vida. O ponto de partida tem já em si – iludimo-nos nós, eternas crianças – o gérmen da chegada. Mas a verdade é que não: não há conclusões tiradas inscritas previamente em premissas oferecidas; não há berços dados que correspondam a caixões determinados; não se sabe aonde se vai chegar – não se sabe, por vezes, de onde é que se partiu. Pontos / linhas / direituras / sentidos / partidas / chegadas / premissas / conclusões – meras ilusões. [Ilusões e filosofia de três tostões – como a que está nesta crónica feita de pressa e frivolidade.]
A verdade é que não temos destino.

[Crónica publicada no JM, 17-II-2018.]

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Crónica 94 [Subidas e Descidas]

A procissão fúnebre descia as escadas abicadas sobre a vila.
Levava à testa um homem, que ia dizendo dos cuidados a ter nos degraus frios e sem medidas certas. Depois, iam quatro crianças – três meninas, um menino –, vestidas de branco, que na lonjura lá em cima haviam-se ajudado a um pequeno, ainda que pesado, fardo. Sobre os seus ombros equilibrava-se um caixão, branco por fora, por dentro perfumado de flores, com um menino morto – um anjinho ido para o céu.
A tarefa não era fácil: suportar uma carga era uma coisa – suportá-la com gravidade, outra. As mães disseram aos infantes que haveriam de levar o esquife: “Juízo” / “Tento na língua” / “Não façam barulho” / “Vão com respeito” / “Livrem-se de rir” / “Cuidado para o caixão não virar e cair”. Na descida da calçada feita de calhaus, porém, os pés doíam, o peso mordia os ombros, o sol abrasava, o aborrecimento entrava franqueado nas jovens mentes.
Três meninas e um menino, pois. Ele, travesso e irrequieto, afinal o irmão mais velho do bebé falecido, levado de um impulso que desafiaria qualquer compreensão adulta, experimentou descer o ombro esquerdo e empurrar devagar, com a mão direita.
O caixão virou, caiu, abriu-se, descobriu o pequeno defunto. As crianças riram-se – nenhuma reação seria, ao princípio, mais natural e instintiva. O adulto – o pai – apressou-se a compor esta descompostura, mastigou em seco e, com transtorno, contraiu a cara enxuta de lágrimas inaugurais.
Aí terminavam as escadas. Mais adiante ficava o cemitério.
*
O menino que sobreviveu ao irmão cresceu.
Saiu como saíam os homens da sua família – da mesma amassadura, da mesma fornada. Era baixo, ensocado, rijo, de pele queimada – e de apetite por zaragatas e brigas. Trabalhava com um objectivo: avaliar as cifras de dinheiro que vencia pelos copos de aguardente que podia pagar na tasca do regedor. [Se ganhasse bebia – se não ganhasse não bebia. Não queria fiados – não admitia róis. A honra é assim: eleja-se a que mais convier; feita a escolha, não há avanços ou recuos – não há subidas ou descidas.]
Não se metia com ninguém – mas dava as boas vindas a quem o apoquentasse; uma vez enterrou uma curta navalha de que era inseparável – uns cinco centímetros de gume – na barriga de um abusador, que foi para casa de mãos tensas a estancar o sangue.
Levava, na freguesia, esta vida simples, sem remorsos ou arrependimentos. 
Um dia um trastalhão – quase dois metros de altura, cento e tal quilos – entendeu em pegar com ele, na tasca. O nosso anti-herói disse: “És grande, mas não és dois.” [Por poucos minutos houve tréguas silenciosas.] Depois de sair à porta da tasca, reparou que estava a ser seguido. Desta vez, escolheu controlar o apetite e ser cauteloso – caminhou para as escadas que, da vila, subiam até ao seu sítio, lá em cima. O perseguidor ia zombando: “‘Tás a fugir? Tens medo? Não fujas!”
Ele galgou os primeiros degraus e disse: “Agora podes vir. ‘Tou aqui. Não fujo mais.” Nestes segundos, neste local, o limbo da memória abriu-se e invocou a imagem de um caixão a cair. [Seria um primeiro remorso? – um remorso inaugural?] Ele sacudiu-se. Puxou da navalha e esperou para usar da vantagem de estar em terreno mais elevado. O gigante subiu, imprudente – e ele, desviando-se de um soco, vibrou a lâmina. O outro, golpeado na têmpora esquerda, ficou estonteado, perdeu o equilíbrio, caiu, e durante as horas seguintes cobriu de sangue este trilho de subidas e descidas. 

[Crónica publicada no JM, 03-II-2018.]

sábado, 20 de janeiro de 2018

Crónica 93 [Um Diálogo]

Filipe – O que fazer, então, quando a esterilidade nos entorpece?
Dinarte – Não sei.
F. – Mas percebes o que quero dizer?
D. – Penso que sim. Não sei.
F. – Esterilidade e torpor – uma redundância. Não é?
D. – Pode ser.
F. – Se calhar ‘tás a pensar – “Este acordou com os pés de fora do ano novo”. Não?
D. – …
F. – Projectos, ideias, sonhos – tantos. Como manter a cabeça à tona?
D. – À tona?
F. – De água. À tona de água.
D. – Não sei.
F. – Como realizar, entre milhares de ideias enxundiosas, pelo menos uma, enxuta, consequente?
D. – Enxundiosas?
F. – Sim.
D. – Pois. Não...
F. – … Tu, por exemplo, há quanto tempo não escreves um verso?
D. – Tem tempo, tem algum tempo. Exactamente quando, não sei dizer.
F. – E porquê?
D. – …
F. – Não sabes dizer.
D. – Não, não sei. Quando nada há para escrever, que posso eu escrever?
F. – Pois. Há horas assim.
D. – Como esta.
F. – Como esta?
D. – Sim. Quer dizer, não sei.
F. – Amaldiçoada esterilidade de tempos de paz.
D. – Amaldiçoada esterilidade de tempos frívolos – de tempos de guerra surda.
F. – Uma maior precisão nos conceitos – muito bem.
D. – Precisão dos… É possível. Não…
F. – … Não sabes. 
D. – Não.
F. – Há alguma coisa que saibas?
D. – Ninguém sabe nada de relevante quando as perguntas estão mal formuladas.
F. – É o meu caso. A questão da esterilidade.
D. – Talvez.
F. – Esta conversa ressuma penúria.
D. – Bom sinónimo.
F. – Sinónimo?
D. – Esterilidade; penúria; infertilidade; escassez.
F. – Torpor; inércia; langor; prostração.
D. – Isso é outra coisa.
F. – Este diálogo é um beco sem saída.
D. – Não sei. Parece-me, sim, uma estrada sem fim.
F. – E então?
D. – E então – continua.
F. – P’ra onde?
D. – Não sei.
F. – Mais uma linha – mais uma deixa – mais uma inutilidade.
D. – Menos uma leitura.
F. – Não tenho lido nada.
D. – Se não leres, não te é dado o direito de escreveres.
F. – Como assim? Direito dado por quem?
D. – Não sei.
F. – Penso que percebo o que queres dizer. É assim o mundo – cheio de escritores – vazio de leitores.
D. – Bem… Não sei.
F. – Mas é interessante essa ideia – uma relação matemática entre leitura e escrita. 20 000 palavras lidas dariam direito, sei lá, a 500 ou 600 palavras escritas. Seria uma contabilidade por partidas dobradas, lançada num livro – a um lado o débito, a outro o…
D. – … ‘Tavas bem lixado, nesse caso.
F. – ?
D. – Não é essa a medida, quase 600 palavras – 3000 e tal caracteres –, de cada uma das tuas crónicas? Partindo do princípio de que são crónicas.
F. – Não são?
D. – Não sei.
F. – Estávamos ambos lixados, na verdade.
D. – Não sei.
F. – Tu fazes afirmações inusitadas, cirurgicamente inusitadas, e depois desfias um rosário de indefinições.
D. – Não sei. Talvez.
F. – Assim como o pirómano que ateia um fogo e depois fica, em deleite, a contemplar o espectáculo, negando qualquer responsabilidade.
D. – Não sei. Em todo o caso, as cinzas sempre podem ajudar a fecundar a terra – ou o papel…
F. – … Em todo o caso, aprecio estes diálogos contigo, a sério que aprecio. Temos de combinar o próximo.
D. – OK. Quando?
F. – Não sei. Depois combinamos.

[Crónica publicada no JM, 20-I-2018.]

sábado, 6 de janeiro de 2018

Crónica 92 [Palavras]

São simples, não custam nada, estão aí prontas a usar – as palavras dos últimos dias correram, e correm algumas ainda, desemaranhadas e crédulas. [Feliz – Santo – Bom – Natal / Boas – Festas – Entradas – Saídas / Feliz – Bom – Excelente – Ano – Novo.]
Com elas, com elas apenas, vem locupletada a promessa de mudança – assim pensamos, numa época que não se quer melancólica, preocupada, prosaica; e assim ficam descansados e encantados corpos, bolsos, consciências e razões.
Mas palavras há que são engodo, engano, evasão e álibi.
Eu não quereria trazer à liça a impertinente – equivocada e ilusória – destrinça entre palavras, ditas e escritas, e acções. Mas para esse caminho vão, sem cessar, os meus passos mentais – porque nunca, até hoje, alcancei mais e melhor. [E o que alcanço digo-o agora – lá está – em palavras de crónica.]
Mas parece-me que a verdade é esta: dizemos e escrevemos [– e infectamos o silêncio]; controlamos e domamos as palavras; aligeiramos, deste modo, a imperiosidade e o controlo dos actos; esquecemo-nos de fazer, de agir, quando o ar é agitado por votos e pregões beatíficos e bem-querentes; pomos ditos e escritos a fazer as honras da casa, a fazerem a vez – a serem competentes simulacros; livramo-nos de fardos que haveriam de pesar uma vida inteira no prato menos polido da balança.
Ouve-se e lê-se – ou melhor, ouço e leio – e, Deus me perdoe, não consigo deixar de pensar: que quem somente tem palavras nada mais tem – e, com efeito, de nada mais necessita; que há homens e mulheres que desfraldam muitas palavras – e cuja conduta constitui a melhor refutação para as palavras desfraldadas.
Nesta Festa – porque já vou ditando esta crónica aos dedos como quem dá a mão a Sísifo, viro aqui o meu leme – vi coisas de que quero falar.
Vi um sacerdote idoso, numa igreja, a ensaiar crianças com cordofones sobre os colos. De dedo descaído solicitava atenção, pedia a afinação de uma corda dupla, ajuizava do acerto de uma melodia tocada a solo. Falava, mas falava pouco. De velhas mãos maestras, num lado, e de dedos novos a calcar cordas e braços de madeira, no outro, haveria de brotar música.
Vi uma criança a fazer festas na cabeça e na cara de um primo mais velho – bem mais velho, à beira da uma quarentena de anos. Não era costume – não tinha sido costume nos últimos anos – e o homem ficou perplexo, incomodado até, mas não se atreveu a dissuadir o infante.
Vi outra criança que não se importou de receber uma prenda poucochinha e utilitária – duas folhas de dinheiro, simples e coloridas na sua frieza. Vi a criança agradecer como se grande oferenda fosse – e agradecer usando palavras tão-só como acrescento, como reforço.
Vi um rapaz dar um bocado de bolo de chocolate – penso que era bolo; e seria de chocolate – a um cão abandonado que abocanhou a dádiva completamente.
Palavras há que são empecilhos.
E há palavras que trazem, na Festa, advertências e alertas – como muitos sentirão – inoportunos. Escutei uma mulher dizer que as pessoas são esquecidas; e que lhes fazia bem lembrar e conhecer as fomes e os abusos de algumas elites sebosas e abrutalhadas que havia antigamente. 
[Já me ia no esquecimento – no que toca ao direito e ao dever de desejar, para mim e sobretudo para vós, também sou gente, também sou filho de Deus. Portanto – um Bom Ano Novo.]

[Crónica publicada no JM, 06-I-2018, p. 15.]

domingo, 24 de dezembro de 2017

Crónica 91 [Tempos]

Sei que sou madeirense porque penso no tempo da Festa – ou, se mais vos aprouver, do Natal – o ano inteiro. [Talvez a minha espécie esteja em vias de extinção. Não sei.] E, agora que festejamos, dei por mim a pensar em outros tempos – dentro e fora da Festa.
Com efeito, volta e meia, é isto que acontece: a minha infância dá de caras com este eu bojudo, barbudo e careca. E não sei o que dizer. Quero falar, o menino que fui também quer falar, mas parece que não nos entendemos – porque não falamos já a mesma língua, porque fazemos as perguntas erradas, porque ficamos emaranhados num jogo de culpas dadas e arrancadas.
“O que andas fazendo, Mascarilha? Andas esquecido de mim?”
“O que estás a fazer, Fantasma? Deixa-me da mão!”
Na segunda metade da década de 80, um menino ficava horas – horas, sim, digo-o sem hipérbole – de olhos colados a uma montra no final da Rua Ivens. Via e estudava e comparava uns bonecos de acção, paradigmas de estilo e de bravura bélica – concentrados em pouco menos de 10 cm de altura e petrificados em invólucros de cartão e plástico transparente. Mais tarde, quando pôde, o rapaz foi usando a semanada completa para comprar um ou outro ‘G. I. Joe’. Depressa, porém, fugiu-lhe o entusiamo por entre os anos da idade que ia a galope. E a esta fuga juntou-se uma tristeza inexorável – que o rapaz tentou mitigar interrogando as caras mumificadas dos bonecos. Era uma tristeza de quem chega tarde.
A meados da década de 90, um adolescente regressava a casa, numa noite, após um dia de escola e de trabalho. Ia sentado, numa das cadeiras de plástico do fundo solitário do autocarro amarelo, moldando o corpo aos solavancos. Deu por si a pensar no dia, na noite, na vida. [O que pensou ficou-lhe sulcado na mente – como se de repente um prelo tivesse começado a imprimir ou uma chama tivesse lavrado uma queimadura; por isso, quando quer, quando não quer, este jovem é sugado de volta a essa noite.] Pensava que estava cansado, combalido, que estava sozinho – e que havia graça e bondade em estar cansado e em estar sozinho para desfrutá-lo. Pensou que era merecedor de um resto de noite de descanso, que havia contentamento apesar de descontentamento – e que, no futuro, voltaria às curvas cada vez mais difusas desta Estrada do Visconde Cacongo, a caminho do Jardim Botânico, a caminho de uma casa que hoje está soterrada.
Coloca-se a ficha na tomada e surgem as vestes luminosas do pinheiro de Natal. São as luzes de 2017 que olhamos – e são as luzes de 1987 que nos olham de volta. Os olhos piscam com as gambiarras e com a luz do filme na televisão – e rapidamente ficam cansados. [É uma maçada.] Desligamos o pinheiro até acabar o filme. Ligamos. Desligamos quando o sono desmerecido sobeja – há que poupar na conta da luz porque, na verdade, a vida está difícil. [Em 1987, em 1997, as luzes ficavam a fazer companhia ao Menino Jesus no presépio.]
Passam os anos, passam as Festas [ou os Natais]. Mudam os marcos do tempo, muda a substância do tempo – tiramo-lo de um lado para pôr noutro, subtraímo-lo além, acrescentamo-lo aqui. Mas o resultado deste cálculo parece ter um destino inexorável: diminuir, chegar a zero, desaparecer – assim como vi desaparecerem os entusiasmos, os contentamentos, de outrora.
“O que andas fazendo, Mascarilha? O que estás a fazer, Fantasma?”

[Crónica publicada no JM, 23-XII-2017, p. 17.]

sábado, 9 de dezembro de 2017

Crónica 90 [Reencontro]

A mulher jovem ouviu a chuva miudinha cair sobre o colmo – um reencontro após poucos dias. Ela foi até o umbral, viu o pó do terreiro afogar-se, lento, na água, aconchegou o abafo e voltou para dentro.
Saiu à porta logo depois, de cabeça descoberta, desimportada da chuva. Virou a esquina da casa, estremeceu os ombros de frio, e começou a subir a vereda lamacenta. Ia descalça.
No corpo o orvalho ia-lhe pousando – àquela luz da manhã peneirada por uma malha de névoa, parecia que lhe cresciam pérolas brilhantes no rosto e nos cabelos. A bebé que levava nos braços – uma pequenina larva, dir-se-ia, comprimida como um casulo no melhor pano de linho que havia – contraía as pálpebras e as bochechas tenras ao toque das gotículas que caíam.
Ela calcou a fofa terra de um poio, no alto, e parou. De olhos – e lábios – deitados a um fundo precipício, olhou a bebé e apertou-a contra si – corpinho contra peito, carinha contra cara e ombro. Ajoelhou-se e aconchegou o recém-nascido dentro de um rego entre camalhões. Levantou-se, foi até o poço que ficava próximo do bardo e olhou para o fundo. Naquele momento, a água enfeitada de auréolas irrequietas furtou-lhe um último reconhecimento. Não importava – sabia que era dormência, dor pasmada, cabeça vazia de cismar; fora isso, ela não era nada, não reconhecia consolo, não se reconhecia.
Deixou-se cair ao poço.
A bebé acabou por abrir os olhos de avelã – que se esquivavam, o melhor que podiam, à chuva. Depois, um pequeno cão – uma cadelinha velha –, de quadris escalvados de sarna e faro experimentado, achegou-se. Cheirou o tubinho amortalhado de carne humana quente que estava na terra, virou a cabeça e deitou-se ao seu lado. Quando a bebé começou a chorar, a cadela lambeu-lhe a testa e as fontes.
Um outro cão – um canzana imundo, faminto – rondou, de faro confundido pela chuva, e arreganhou todos os dentes. A cadela rosnou – e bastou pôr-se sobre as patas para que o outro cão escondesse os caninos e fosse embora com um ganido submergido.
Oitenta anos depois, uma avó falava à neta. Ainda que sabendo das histórias que sempre correram na família e na terra, falava-lhe da sua origem, da sua agrura primordial, da sua mãe desaparecida.
«É verdade, filha, foi assim. [A neta contraía as pálpebras para que as lágrimas não corressem.] Não tem mal, filha. A vida é como é. Eu fiz o que pude – crescendo sem mãe. As pessoas contavam – contaram-me de como foi. Sei que foi num poço – e depois as pessoas falaram de um cachorro que estava ao pé de mim quando o meu pai me encontrou. A minha mãe... – como é que se diz hoje? Deve ter tido uma depressão – uma depressão depois do parto. Ninguém deve ter compreendido. Sabes como é, naquele tempo, a minha mãe teve-me sozinha, agachada no palheiro, sem nada, sem ajuda, sem cuidados… Aquilo era uma miséria. E logo no dia a seguir era preciso fazer a vida, andar na fazenda. A dor tomou conta dela – e ela não sabia dizer, e ninguém ia saber ouvir. Coitada da minha mãe… Não importa, filha, não chores. Eu fui – eu penso – boa filha para o meu pai, boa mulher para o teu avô, boa mãe, boa avó. [A neta soluçou.] Eu criei uma família de gente boa. Eu estou orgulhosa. Agora, só peço a Nosso Senhor que me leve – eu estou cansada, filha, Nosso Senhor que me leve. Eu penso que fui uma pessoa recta. Acho que mereço o céu. Eu só quero, depois de morrer, dar um abraço e um beijinho à minha mãe.»

[Crónica publicada no JM, 09-XII-2017, p. 15.]

sábado, 25 de novembro de 2017

Crónica 89 [Salvação]

O homem estava sentado, de queixo pregado ao peito. Uma mulher, de gadelha cor de prata que brilhava no escuro, cingia completa, de corpo e sombra, este homem – sobre ele lançava fumos, rezas, cânticos e esgares. No fim desta liturgia semanal, disse a velha pagã com voz cava e prenhe de salvação: “Vai. Está tudo bem. Não vais voltar ao que estavas.”
O médico batia com o punho na testa, com arremessos crescentes. Naquela noite, assim como nas últimas noites, virava páginas, lia com sofreguidão, tirava outros livros das estantes, esventrava-os com furor. Mas nada encontrava. Disse: “Foda-se, que raio de doença é que aquele estupor tem?” No cume da fúria, varreu a mesa de trabalho com o braço direito, atirou-se aos dois armários de madeira e lançou-os ao chão. [A mulher encontrou-o, depois, encalhado entre manuais de anatomia e fisiologia.] Semanas e meses haviam rodado – mas nada sabia sobre aquela doença. Não tinha diagnóstico – e não tinha cura. Na manhã seguinte, saiu do gabinete para falar com a família do seu doente. Disse, subindo os braços como quem desiste, como quem tenta lançar um pássaro ferido ao voo: “Não sei. Nunca vi coisa igual. O melhor, de facto, o melhor será vocês levarem-no.” O doente foi levado a uma velha de cabelo cor de prata.
O homem doente deu entrada no hospital e logo ficou agrilhoado à cama. Na noite anterior, na primeira vez que sentiu as vísceras a arder, jogou-se para o chão e começou a esticar e a contrair o corpo como se fosse um peixe a quem roubaram o oceano. Os familiares ficaram horrorizados – rogaram a Deus e aos santos, agarraram-no, abraçaram-no, protegeram-lhe a testa, tentaram deitar-lhe pela garganta abaixo infusões e chás. Mas nada resultou. No hospital, o homem entrou num processo – incógnito, impenetrável – de consumpção centrípeta. Definhava, sumia, mingava, secava, mirrava – e a pele, cada vez mais pregada às dobras dos ossos, ia de trigueira a pálida, de amarelada a lívida. Tornou-se um cadáver que, por enquanto, respirava. O médico que ficou responsável – um dos melhores daquela terra – fez o melhor que pôde para estancar esta sorvedura de ânimo vital.
O homem olhou para o relógio e disse: “Bem, por hoje já dá.” [Um colega acrescentou: “É verdade – a gente vai-se embora deste mundo e ainda fica aí tanto trabalho p’ra fazer.”] Sacudiu à chapada o pó das calças e da camisa, pousou o capacete e saiu do estaleiro. Ao chegar ao pé do carro, encontrou uma antiga namorada. Ficou agastado – e desconfiado. [Tinha sido ele a terminar o namoro.] A rapariga cumprimentou-o, perguntou-lhe pelas andanças da vida, ajuntou mais umas palavras e disse que ia dali para casa. Ele – “boa pessoa, uma jóia de rapaz”, diziam os amigos –, dissipada a desconfiança, ofereceu-se para levá-la a casa. [Afinal, ficava a caminho.] Chegaram: ela saiu do carro; ele quis arrancar logo. Ela parou-o e ofereceu-lhe um refresco. Ele recusou. Ela insistiu. Ele hesitou. Ela disse que não havia nada de mal – que águas passadas não moviam moinhos. Ele entrou em casa dela, bebeu o refresco [uma aguadilha amarelada e xaroposa], agradeceu e foi-se embora. Quando descia, naquela hora parda em que os coelhos saem da toca, não pensava em nada de específico. Antes de chegar a casa lembrou-se, porém, do que dissera à rapariga no fim do namoro: “Não te quero nem p’ra minha salvação.”
No dia seguinte, a família levava o homem, a estrebuchar, para o hospital.

[Crónica publicada no JM, 25-XI-2017, p. 17.]

sábado, 11 de novembro de 2017

Crónica 88 [Memórias]

Dizia o pai: “Vou-te dar uma malha que eu vou-te lavar com vinagre.”
E o rapaz ficava arregalado e entontecido por um cheiro azedo que lhe subia pelas narinas até aos mistérios esconsos da massa aprendiz do cérebro. Imaginava também que ficava, numa picota armada no quintal da casa, de pulsos amarrados e enredados acima da cabeça, a sentir o corrimento do vinagre que o pai lhe esfregava, com diligência de cartógrafo, nas costas descobertas e coaguladas de vergões. [Anos mais tarde, alguém movido de piedade explicou-lhe o propósito: o vinagre serviria para aliviar e limpar a pele da dor e dos hematomas.]
Em abono da verdade, diga-se, nunca aconteceram – nem a malha; nem o posterior banho caridoso de vinagre.
Mas a ameaça, nos anos que se seguiram, rebentava-lhe nos ouvidos e trepava-lhe o nariz nas situações mais inesperadas: quando conduzia; quando passava a esfregona, torcida em água com lavanda, pela casa; quando olhava para uma criança irrequieta. Enrugava as pálpebras, passava a mão esquerda sobre a omoplata direita, abria depois os olhos e procurava, combalido, uma cadeira. Sentava-se; esperava; respondia com grunhidos a quem lhe falava do lado de lá da cortina de som; levantava-se; sacudia a cabeça; e ia à sua vida.
Era um sobressalto costumeiro – que foi, porém, esmorecendo, perdendo força como quaisquer memórias da juventude, escarificadas dos anos, cansadas de serem, afinal, assaltos nas horas mais inesperadas.
Ele, outrora jovem, agora adorava vinagre – comprava-o de sidra com extracto de rosas, por exemplo; tomava três ou quatro gotas diluídas num copo de água, em jejum, pela manhã; encharcava saladas e a carne de vinho e alhos.
*
O homem tinha uma bancada de fruta, no centro da cidade, e esperava, mastigando com enfado, clientes complacentes. À hora de ponta, algumas senhoras compraram pêssegos e uvas. Outra exigiu tabaibos bem descascados: o homem levou a mal, cortou a direito um dos frutos, separando mais carne que casca; a senhora irritou-se, despejou o que já estava no saco transparente e saiu dali.
O homem suspirou, concorrendo em entoação com os travões hidráulicos de um dos horários que passavam.
Pousou as mãos sobre as laranjas e esperou o próximo cliente. Outro homem aproximou-se e disse: “Olha, amigo, dás-me um pêro?” Ele olhou, filtrou os olhos, julgou o aspecto do ente que lhe havia surgido do outro lado da barricada – um boné dos ‘Chicago Bulls’ e nada mais de insólito –, tomou um pêro gordo e pesou-o. “É tanto.” O outro disse: “Não, amigo, dás-me? Não tenho dinheiro. Tenho fome.” Ele disse: “Tem paciência, pá. Não posso oferecer.”
O pedinte desfez-se em ameaças: que lhe rebentava com a barraca; que lhe dava uma malha; que lhe partia os ossos tão rapidamente que nem sequer iria ouvi-los estralar. Prometia – e, enquanto prometia, afastava-se, andava, fugia, corria. Quanto mais longe estava, maiores eram as desgraças prenunciadas – as quais contemplaram, inclusive, o término da vida do ameaçado.
O resto do dia passou. O vendedor, confuso, chegou a casa, sentou-se à mesa e esperou o jantar. A mulher serviu-lhe atum de escabeche. Ele olhou, cheirou, tocou com o garfo e disse: “Desculpa. Não tenho fome.”
Foi-se deitar. Uma noite inteira e não conseguiu dormir: os olhos arregalados de memórias iluminaram, sozinhos, o quarto de escuridão.

[Crónica publicada no JM, 11-XI-2017, p. 17.]

sábado, 28 de outubro de 2017

Crónica 87 [A Escrava]

Quando as labaredas saltaram, naquela casa de perdidos, do fogão gordurento para os lençóis da enxerga, nela estava deitado um menino. O fumo declarou-se através das grossas frinchas da porta sem tranca; alguns vizinhos entraram, levantaram a braços a criança – a quem o fumo não acordou –, saíram, encostaram a porta e deixaram aquelas paredes arder.
A mãe não estava ali – estava longe, na folgança, participando de uma vertigem danada de copos de vinho, a meio de vultos sedentos – quanto mais emborcavam, mais sede tinham para emborcar.
Interveio o Estado. O filho foi retirado à mãe. A mãe foi encerrada numa instituição para doentes mentais. [E o pai – na verdade, o pai não existia; era um qualquer, segundo a mãe que o dizia sem comoção.]
Na casa de saúde fizeram-lhe um diagnóstico – deram-lhe uma sentença como um estigma, gravado nela com um ferrete. Primeiro disseram: era incapaz, negligente, no cumprimento dos deveres parentais – em poucas palavras, má mãe. E depois acrescentaram: era promíscua, ninfomaníaca – e, nessa época, fora e dentro dos muros dessa prisão asséptica, ser ninfomaníaca equivalia a ser louca, privada de asserto, daninha, pecadora, endemoninhada. Portanto, ela era o diabo personificado – e de saias.
[Cá fora, antes e depois, os vizinhos diziam o mesmo, ainda que por palavras de lama e de lodo. Por vezes é isto que acontece: a ciência não acrescenta nada – e só confirma estereótipos e julgamentos e condenações sociais.]
Surgiu uma alternativa. Ou ficavam mãe e filho presos na máquina fria e concentracionária da assistência estatal – ele órfão; ela louca; ou ambos ficavam à guarda de uma família tutora – que, para manter sempre vivo o seu louvável espírito de caridade cristã, teria o prosaico incentivo de receber um subsídio. Optou-se pela segunda via.
A partir daí começou a escravatura.
Todos os dias ela começava pela cozinha, na madrugada fresca, e preparava a primeira refeição, depois de varrer e esfregar. Comia depois de todos os outros comerem. Passava aos quartos de dormir da família – pais e filhos, um magote de gente a ordenar e para servir – e limpava, arrumava, brunia. Assim ia, enfim, de quarto em quarto, compondo e lavando, antes do almoço. Fazia o almoço – e só comia, na cozinha, sozinha, depois de toda a gente comer. A tarde era gasta em outras tarefas, dentro e fora de casa. Por exemplo: era preciso acartar sacos de cimento para vestir paredes – e ela ajudava-se à carga; era preciso mudar a fralda e dar banho a uma idosa da família – também para isso estava ela ali. Não tinha tempo para se sentar, para uma apara de conversa, para alguns minutos de televisão. Não tinha tempo para o filho – a quem proibiram de a chamar de mãe; a quem ensinaram a olhar a mãe, agrilhoada na mesma casa, como uma estranha. No fim do dia, podia finalmente ver a telenovela com a família acolhedora – e via, sentada no chão da sala.
Os erros desta mulher justificaram tudo: o trabalho de escrava; o desrespeito e a zombaria – por adultos e jovens incitados por adultos; os maus tratos e a violência – por todos.
Um dia – entre outros dias –, o chefe de família, um madraço que vivia de engajar apostadores no jogo do bicho, acusou a escrava da falta de algumas moedas. Não esperou por palavras de defesa – acto contínuo, os canhotos eriçados dele arrancaram um baque surdo do osso maxilar dela, sob a pele lassa e enegrecida.
Há vidas que não têm – nunca terão – carta de alforria.

[Crónica publicada no JM, 28-X-2017, p. 19.]

sábado, 14 de outubro de 2017

Crónica 86 [Pela Madeira Adentro]

Numa esplanada um homem, de nariz atacado de rubor, tira um gole de uma garrafa de cerveja. Há muitos desta igualha, pela Ilha adentro, naufragados em terra – com um copo ou uma garrafa como âncoras. São homens desocupados, ou em intervalos de tempo, de pele carbonizada, de frases decepadas e berradas, de andrajos ao deus-dará. São homens perros oleando-se com álcool. [Esta frase, diga-se, é inspirada no poema “Homens que são como lugares mal situados”, de Daniel Faria.]
Reparamos em mulheres de outra estirpe – andarilhas nos caminhos, pressurosas nos trabalhos, risonhas e falastronas nos snack-bars, a contar o dinheiro para o café e para as compras, com outro sentido sobre as coisas e sobre os dias.
É uma Ilha em duas ilhas – uma Ilha dividida por sexos.
Num restaurante, um gato preto e branco aproxima-se das mesas. Vai lento, insinuante. Está doente – assim vemos os olhos remelosos e pesados. Quer estar entre os humanos, entre as suas pernas, sob o toque de talheres em pratos. As pessoas enxotam-no; ele esquiva-se; ele retorna. Ao lado de uma mesa, o gato senta-se e espirra; ouve-se uma pieira saída das narinas felinas.
As primeiras ondas, na maré baixa, de uma praia de calhaus e areia preta, estão sulcadas de aprendizes de desportos marítimos. A um homem estranho à aprendizagem – um intruso em águas ocupadas – um dos instrutores avisa: “Aí há corrente.” Ele ufana-se e diz, de si para si, que ali foi a banhos a sua ascendência – e que a ele ninguém diz ou avisa sobre os perigos dessas águas. A verdade, porém, é que suou para sair do mar – as ondas subiam para a areia; mas por debaixo das ondas a corrente arrastava-o para o oceano. Quando pisou basalto seco, acendeu um cigarro e pôs-se a pensar. [Lembrou-se que aquela praia já teve a fama, segundo os antigos, de ceifar incautos e aventurosos.]
A praia está suja – há tocos queimados e plásticos descolorados, farpas de canas e folhagens esventradas, beatas sobreviventes e pontas de ferro zarcãs de ferrugem. Assim está a praia – e assim estão também outras pequenas praias e falésias, baldios, adros de igrejas, bermas de estradas. Há mãos despreocupadas e aleivosas na forma como se tratam os apêndices – os despojos – da natureza e da civilização.
Pela Madeira adentro há ruínas: palheiros, solares, engenhos; casas de pedra aparelhada – com lintéis ajoujados e ocas de tecto a receber o sol, as lagartixas, os ratos, o lixo, o silvado. Por vezes, ao lado destas paredes onde homens outrora respiraram, levantam-se mastodontes angulosos de blocos e cimento com demãos garridas – já traídos pela humidade e pela passagem de um tempo rápido e sem memória.
Há vilas a viver, durante a semana útil, sob o ritmo cardíaco dos transportes e dos pés dos turistas. Há restaurantes onde se ouve o frigir do peixe-espada, de outro pescado, de carne vermelha para pregos. Os turistas chegam, fotografam, mergulham, comem, falam nas suas línguas, gesticulam, põem-se ao sol, pagam, vão-se embora.
Com olhos nómadas, motor rasante e pena descuidada na escolha das palavras, estas paisagens foram recolhidas em vilegiatura. Percorremos a Madeira rural no final da liturgia eleitoral, eivada de imagens de gente sorridente, e nos dias seguintes, quando a Ilha voltou, cansada, ao normal.
Por que caminhos vais, minha terra? Qual é o teu destino?

[Crónica publicada no JM, 14-X-2017, p. 15.]

sábado, 30 de setembro de 2017

Crónica 85 [A Velhota]

Numa das mesas da padaria, um velho falava, com alarve acentuação nas palavras. Estalava a língua nos dentes, como se tangesse as letras pela primeira vez, como se revivesse a primeira infância da comunicação. Ou tinha dentes novos, ou uma nova dentadura – fosse como fosse, a luta entre este homem e a sua cremalheira mostrava-se patética.
Noutra mesa estava um casal de velhos. Ele sondava as outras mesas com olhos de cinza e beiços descaídos; ela segurava a duas mãos um jornal e lia, mexendo os lábios inaudíveis, uma crónica de um rapaz de barba a puxar o grisalho, que escrevia sobre África, amores, perdas, desilusões, redenções, saudades.
Quem nestas coisas reparou foi uma velhota, sentada a um canto da padaria. Ela esperou que o jornal vagasse – também apreciava os escritos do cronista, os quais lia após fazer um varrimento pelas letras gordas –, mas a demora acabou por fazê-la desistir.
Levantou-se, pagou o garoto clarinho que tinha tomado, comprou também dois papo-secos e saiu. [Nunca esperava que os restos do café ficassem ressequidos na chávena.]
Dantes, ainda tinha – ou melhor, ainda tolerava – companhia neste ritual matinal na padaria. A ela se juntavam umas vizinhas, todas velhas, que encetavam um campeonato de exibições de fotografias nos telemóveis, de elogios aos caprichos dos netos [ausentes] e de queixumes em relação aos filhos, às filhas, aos genros e às noras [também ausentes]. Ela, sem filhos e sem netos, e negando a frivolidade de redes sociais e de gente que tentava enganar uma perfeita solidão, rapidamente se enfadou.
[Na verdade, trazia-lhe confusão este mundo de gente – novos e velhos; sobretudo velhos – agarrada a ecrãs luminosos. Confusão foi, com efeito, o que sentiu quando, pela primeira vez, viu uma outra senhora, em plena missa, atender o telemóvel. Depois, só alcançou sentir alguma piedade.]
E assim, nos últimos tempos, entrava no estabelecimento e recusava os convites para se juntar a outras mesas – dizia que não ia se demorar, que só queria tomar o café e ver o jornal, que tinha um bolo em casa no forno, que tinha de ir bordar uma toalha para parentes que a iriam visitar no domingo seguinte. [Havia verdade e mentira nestas declarações – era boa cozinheira, era uma doceira de lei, era uma bordadeira mestra; mas não bordava para ninguém; e nenhum familiar remoto a visitava.]
Nos fins de semana, que passava sozinha no asseio da casa – um santuário de ordem e de brilho – e no cuidado de orquídeas, antúrios, de uma miríade de flores feitas da vasta paleta de Deus, por vezes recebia uma visita.
Era uma vizinha, uma jovem mãe, que levava o seu menino. Com ela partilhava segredos de jardim, de cozinha, de agulha e linhas, de vida.
Nesse domingo à tarde, a velhota serviu fatias de um bolo de laranja húmido – cujo aroma beatífico se propagou do forno a toda a pequena moradia –, deitou dois copinhos de licor de nêspera e fez um sumo para a criança. Na sala, instruiu a aprendiz atenta no ponto de richelieu, deixou-a a bordar e sentou-se no sofá.
Fechou os olhos. O menino trepou-lhe para o colo. [A mãe da criança viu e sorriu.] A velhota teve um leve sobressalto, acomodou o menino sobre as pernas e abraçou-o. Ambos dormiram e sonharam um breve descanso.

[Crónica publicada no JM, 30-IX-2017, p. 17.]

domingo, 17 de setembro de 2017

Crónica 84 [Ensaio sobre o Medo]

“Filho… olha. Filho, olha p’ró pai.”
O rapaz, conquanto de coração oprimido na garganta, respondeu à segunda interpelação e levantou a cabeça para o pai. Pensou que ouviria uma frase imperativa e lapidar, em todos os sentidos ditos e entrelinhados, e assim, por breves momentos, arrostou o medo – como se caminhasse até à beira de uma falésia precipitada na escuridão. Sem este gesto – sem esta suspensão do medo, que fez crescer em coragem o pai –, a voz escassa que queria falar não teria cortado o silêncio – e não teria sido escutada.
“Meu filho… não tenhas medo.”
Três semanas passaram – três semanas apaziguadas – e o pai desceu os seus sete palmos de terra, num dia afogado de calor e de humidade colada nos corpos e nos cabelos.
Durante e após o luto, o rapaz teve muito em que pensar – e em que cismar –, no redemoinho dos seus quinze anos. [Quinze anos – e era já maciço como um arpoador de baleias.] Tão pouco ouviu o pai falar, na célere passagem dos anos, que não sabia o que fazer com o pouco que tinha escutado. [Por vezes é assim, a relação entre gerações. Agarremo-nos ao que temos.] Sobretudo, aquela sentença tinha ficado a pairar, dentro de casa, fora de casa, como um outro sentido a peneirar a percepção das coisas e a tecer a convivência com os homens.
A vida continuou, pois, na aparência pouco diferente, na verdade nada igual.
“Não tenhas medo”, pensava – ou ouvia – o rapaz, quando se aproximava, dia após dia, dos portões da escola. Nessa manhã, porém, foi com um sentido mais apurado que percebeu o farejar da matilha de “bullies” que o esperavam. Repetiu, entre dentes: “não tenhas medo” – e, agarrando nesse arpão, aprumou as costas e levantou a cabeça. Tornou-se a imagem do poder, da ausência de medo. Os agressores, como cães, fungavam de facto todos os movimentos do rapaz, à procura de eflúvios de temor que contagiassem o ar. Dia após dia, foram ficando mais mansos, quietos, desviando o olhar e desintumescendo os focinhos. Um deles, interpretando mal os seus próprios instintos de bicho, certa feita atreveu-se – e, abandonado pelos restantes, levou um pontapé no rabo e fugiu.
Sem o rapaz se aperceber, uma coisa que demandava resolução ficou, destarte, resolvida. Sobrava outra.
A sua casa, outrora com quatro viventes, agora compunha-se da mãe, da irmã mais nova e dele. [Uma mulher, uma criança, um adolescente; nenhum homem.] Portanto, ainda hoje – como se hoje, com efeito, fosse diferente de ontem –, esta casa tornou-se, aos olhos de outros, uma casa vazia de poder patriarcal – vazia de um poder a servir de marco, de fosso, de muralha, no teatro de guerra civil entre família e vizinhos. Em face disto, pouco tempo decorreu até que ele, com voz brava, expulsasse de casa tios e tias, primos e primas, que ali iam, sem respeito, dar livre curso a frustrações, vazando-as sobre quem parecia indefeso. [Encontrou coragem adicional para isso quando, cheia de aflição, a irmã pequenita gritou com um tio que tinha cingido, com a pata imunda, o braço da mãe.]
“Não tenhas medo”: nestes tempos – em todos os tempos –, o que de melhor pode dizer – e ensinar – um pai a um filho? Quantos filhos precisam de ouvir estas palavras? E quantos pais precisam de dizê-las?
[Poderá não vir ao caso, mas apetece-me acrescentar: escrevo estas linhas pelos dias em que completo os meus trinta e sete anos. Olhai: 37 – um número feito de arestas e vértices, de lâminas e pontas.]

[Crónica publicada no JM, 16-IX-2017.]

sábado, 2 de setembro de 2017

Crónica 83 [Pais e Filhos]

A mesa era pequena – e as bases dos copos de imperial molhavam o plástico encardido. A dois cigarros, tirados de um maço de ‘King Size’ [‘Rothmans’], deu-lhes a ignição o mesmo isqueiro. O meu pai, quando sentado, acabava sempre por ficar debruçado sobre a mesa – as costas num declive de vale escorregadio, o cotovelo pousado em ângulo fechado, a mão esquerda que desaparecia sob o cabelo preto, da testa à nuca. [Já me disseram que eu, por mais que tente endireitar as arcas, acabo por ficar na mesma posição – até a mão penteando o cabelo mais ralo.]
Contou o meu pai: «Uma vez, o pai tinha cinco anos, mais ou menos, ia mais teu avô [um homem enfezado, de alcunha o ‘Cachimbo’] numa vereda, lá dentro, no Porto da Cruz.
«Aparece um gajo na vereda e pede a teu avô um cigarro – “Oh Cachimbo velho, dá-me um cigarro!” Teu avô disse que não tinha, ‘tás a ver, era uma miséria, não havia dinheiro p’ra nada. Olha, o estupor não faz mais nada – larga uma bolachada em teu avô. Ele virou de cangalhas, caiu p’ra lá, ficou a sangrar.
«Eu era pequeno, comecei a chorar, mas fiquei ali, não larguei a mão de teu avô [e mostrou o punho em sinal de firmeza – uma mão tenra a amparar uma mão madura]. Olha, a gente sai dali, chega a casa, tua avó [uma mulher esguia, de apelido a ‘Cachimba’] arranja lá umas coisas quaisquer p’ra tratar de teu avô, umas ervas, p’ra parar o sangue.
«Bem, isto passou-se.
«Eu nunca me esqueci. Anos depois, venho de Angola, o sangue a ferver [apontou com o indicador da mão direita para a própria cabeça] daquela coisa toda, e um dia vou ao Porto da Cruz. Entro numa tasca da vila e quem é que eu vejo? – Ele. Eu disse p’ra mim – “Nem é tarde nem é cedo, é agora.” Cheguei ao pé dele e disse – “O senhor não se lembra há uns anos, assim assim, o que fez?” Ele olhou p’ra mim, começou a frisar os olhos e fez-se de desentendido. Eu não deixei ficar. Voltei a perguntar. Ele disse – “Ah, isso eram outros tempos.” E eu – “Ah, eram outros tempos?” Olha, vai dali, não fiz mais nada, puxei a mão atrás [falava com narinas e sílabas cheias – e levantou e fez recuar o punho direito, como se uma flecha fosse engatada num arco até ao limite da tensão da corda]. Larguei-lhe uma batata, duas, mais até. Foi uma zaragata e o diabo. Vieram os outros clientes, gente da vila, veio a família toda por aí abaixo – todos p’ra meter calma. Calma, o quê? Eu disse a eles – “Vocês não sabem o que ele fez.”
«O filho dele, que era da minha idade, veio logo falar comigo. Perguntou se eu achava certo. E eu disse – “E achas certo o que ele fez há uns anos? Mas olha, se quiseres continuar, por mim não há problema”. E ele ficou assim, não houve mais nada.»
A máquina da memória é insondável – tanto nos esquecemos, tanto nos lembramos, tanto queremos esquecer como queremos lembrar. Não estou seguro das palavras. Não estou seguro da cadência da confidência de um pai a um filho adulto. Mas devo dizer isto: esta história [a minha 50.ª crónica para o JM], porventura simples, de violência e de vingança, é afinal um elo, tenso como a corda de um arco, entre pai e filho – entre pais e filhos, entre idos e vivos.

[Crónica publicada no JM, 02-IX-2017.]

sábado, 19 de agosto de 2017

Crónica 82 [[palavras?]]

palavra de honra que não sei o que dizer
não sei se não seria melhor que esta minha crónica ficasse em branco – que ficasse a metade de uma página deste jornal a encher os dedos e a boca e os olhos de silêncio – que todo o ruído escrito ou falado fosse filtrado por uma rosácea muda – que houvesse apenas uma reverência e uma homenagem cabisbaixas – aos inocentes martirizados
palavra de honra que não sei – mas escrevo por revolta – por espanto – por estupefacção – por torpor fremente – perante o absurdo – e a estupidez desta morte – pelo que aconteceu na terça-feira – absurdo – absurdo – absurdo – devia encher este escrito da palavra absurdo – repetida – absurda – até sempre
o que escrever? – que este ano tem 365 dias – 8760 horas – 525600 minutos – 31536000 segundos – e que foi naqueles segundos – naqueles – naqueles – naqueles – segundos – que a morte veio derramada – pesada – cavernosa – no corpo secular de uma árvore
uma árvore – um símbolo de vida
a morte caiu como se leite materno fosse conspurcado
a morte caiu no dia da padroeira – da Mãe – da Ilha – consagrada protectora depois da aluvião de 1803 – consagrada na esperança nascida há mais de dois séculos – a morte caiu quando se vivia de mãos em concha sob o coração – num tempo de gratidão por graças concedidas – caiu quando se acreditava num outro dia – melhor – mais beatificado – mais lauto – de devoção limpa – de benquerença – de olhos confiantes sobre o porvir amado
uma árvore desabou sobre promessas feitas – sagradas – esperançosas – e é como se a puta da morte usasse a vida em lenho para esmagar a vida prometida
palavra que não se percebe – que não se consegue traçar uma linha de ordem – de sentido – de paz – de desígnio – sobre o mapa da dor impresso no chão do Largo da Fonte
não sei se algum dia uma criança acreditaria que uma árvore – de copa fresca – testemunha de brincadeiras – de risos – de folias – de palavras de carinho e de acerto – de juras – de folhas falando com o vento – não sei se a criança que eu fui acreditaria que uma árvore caísse e traísse quem protegeu – que traísse quem viu chegar – prometer – sair – subir para se ajoelhar e rezar a Nossa Senhora – crescer – amadurecer – envelhecer – uma árvore que abençoou crianças – casais prometidos – amigos gargalhados – famílias de braços enganchados – idosos cambaleantes – ébrios confusos – visitantes a ouvir a harmonia da água corrente – devotos a perscrutar o crepitar das chamas das velas e o escorrer inaudível da cera
uma árvore – e homens – porque os homens já levantam os dedos em riste – em acusação – em defesa – lançam mão de papéis – de argumentos – de testemunhos – de coisas recentes e vetustas – para que se saiba quem – quem – quem – quem foi – quem devia – quem há de ser culpado – e de ser ilibado – homens falíveis – todos – acabrunhados – arregalados – numa outra vertigem
palavra de honra que não sei o que mais escrever – uma dor perplexa desceu sobre o Monte – sobre a Ilha – como um manto nebuloso em pleno ardor de agosto – e o sufoco não deixa os sobreviventes – todos nós – respirarem como dantes
palavra que… – palavras – tão pequenas – que uso têm elas agora?

[Crónica publicada no JM, 19-VIII-2017.]

sábado, 5 de agosto de 2017

Crónica 81 [A Casa Vazia]

O velho abriu um livro – um policial, de Rex Stout – e preparou-se para passar as horas. Os últimos anos tinham sido deste feitio: acordar na casa vazia; televisão; almoço; passeio – agarrado à bengala, ou a bengala agarrada a ele –; um ou dois vinhos brancos; regresso; jantar; dois tostões de leitura; cama; alguns versos de Manuel António Pina – o único poeta que lia –; dormir.
Vários anos deste feitio. Nesse ano, porém, um vago parente – de uma ou duas gerações abaixo – ligou-lhe para casa e anunciou, com voz arrastada como a da lotaria na televisão, que havia um convívio familiar – e que, portanto, estava convidado. Ele ouviu, enfadado, pediu para repetir a informação e então decidiu: “‘Tá certo, meu filho. Obrigado. Venham-me buscar… Sim, pode ser a essa hora.”
Vestiu-se com aprumo, esperou na estrada, entrou no carro. Chegou à festa e conduziram-no a uma mesa, de onde não se levantou. Dali presenciou um desfile de vultos vagos, de aparições alvacentas, de gente indistinta que se debruçava para cumprimentá-lo. [A juventude – toda igual: pequenos e pequenas – passava-lhe ao largo, como se se desviassem da lepra.] À frente puseram-lhe água, um prato de arroz e frango assado, sobremesa, meia bola de digestivo. Uma mulher sentou-se ao lado e disse: “Tio, o que é que vai ser da sua casa depois de…” – e o velho, sorrindo, deixou os ouvidos ficarem surdos de ruído. Quando saiu, distinguiu apenas mais uma voz: “Aquele homem… deve ser cá uma solidão.” Ele deu por si a escavar dentro da palavra – solidão – e não encontrou nada. [Solidão; e memória – outra palavra que, para ele, também não tinha significado, também era uma casa vazia.]
No dia seguinte, o velho voltou à rotina. Com a lentidão que o tempo lhe ia dando de presente – e era um presente pesado, ainda que silencioso –, depois do almoço, aproximou-se da passadeira que ficava após a dobra do caminho. Se o semáforo dos peões mostrava – e apitava – vermelho ou verde, não se lembrava ele. [Não interessará agora ao caso, mas estava vermelho.] De modo que andou, pisou o asfalto que nesse momento lhe estava vedado, e um carro novinho em folha roçou o corpo escangalhado à altura da coxa. No chão, os olhos do velho apagaram.
Quando acenderam – confundidos pelo néon e pelas cores falecidas dos quadros aparafusados a granel nas paredes –, ele estava deitado numa cama. O acidente não tinha sido grave – disse-lhe uma enfermeira do hospital, que depois apertou os lábios. A verdadeira má notícia deu-a o médico: “Sim, não foi nada de mais. Mas quando fizemos exames descobrimos que o senhor tinha cancro.”
Cancro – disse ele para ele próprio, e suspirou de fastio, imaginando apenas que, desta vez sim, algum lugar lazarento das suas entranhas tinha dado de si. [Há algum tempo que vinha sentindo uma pressão no esterno; talvez tivesse começado aí].
Do hospital já não saiu. Dormente de analgésicos, sentiu chegar a última noite – e então lembrou-se de uma jovem mulher que lhe afastava a pura franja encaracolada da fronte. [A casa da memória encheu-se pela última vez]. E, antes de morrer, na casa perdida da solidão, pediu uma folha de papel e caneta e escreveu algumas palavras.
O parente que foi recolher os despojos do velho, no hospital, encontrou a folha. Olhou, apalermado, para as palavras, amarrotou o papel e deitou-o no balde do lixo.

[Crónica publicada no JM, 05-VIII-2017, p. 13.]

sábado, 22 de julho de 2017

Crónica 80 [A Escolha]

A estrada para casa estava fechada, ao princípio, numa única treva. A custo, os olhos das crianças, piscando por detrás dos estores da janela da sala, iam dissipando esta escuridão e destrinçando matizes. Ali viam o cinzento longínquo da iluminação pública; aqui o rasto efémero da sombra de um gato; naquele lado o fio de luz de um carro, que por pouco não usava o gato como calço; neste lado, ao pé do muro da casa, um vulto que crescia.
Crescia o vulto – primeiro via-se uma cabeça, depois os ombros angulares, neles os braços aparelhados e trôpegos a procurarem, porém, uma cadência certa; enfim, uma possante e lenta aparição. Vinha ele – e crescia o temor ofegante, na garganta embargada, das crianças.
A resfolegar como um porco, o vulto abriu a porta. Um odor peçonhento de álcool e suor inundou a casa como uma enxurrada. Ele olhou para a família com órbitas vazias e senis, mastigou duas ou três sílabas e foi para a cozinha. Algo que não estava de feição – o jantar frio, a despeito de estar num tupperware envolvido por uma toalha grossa; outro pretexto qualquer; não valerá, pois, a pena darmos mais corda à imaginação; o que tinha de acontecer haveria de acontecer –, algo, enfim, fez o homem saltar a barreira para o pântano da violência. A família, na sala, ouviu cerâmica a cortar o ar e a partir, metal a tinir, punhos contra madeira – um arraial de cacos, de berros, de colisões.
A seguir, caiu o silêncio. Para aquela noite, bastava.
Ele veio até à sala. A tristeza e o terror nos olhos da família fizeram-no estremecer. [Por momentos ficou paralisado como se uma faca lhe rasgasse as costas de um só golpe. Sentiu isto – mas ninguém se apercebeu. Sem cacos, berros, colisões, algo tinha desmoronado dentro dele – no lugar onde, nos últimos anos, ele só entrava se fosse guiado, de mão dada como uma criança confusa, pelo álcool.]
Decidiu que as noites assim bastavam. Trocou caminhos que desaguavam em tascas e patuscadas por trilhos que desembocavam em clínicas e na casa de um amigo. [Um amigo apenas, a quem disse que, do tempo anterior à dependência do álcool – antes do álcool lhe ter adormentado a realidade –, nada conseguia trazer à memória, nada parecia ter permanecido. O amigo respondeu-lhe que esse esquecimento poderia ser misericordioso – ou mortífero; e que ele teria de escolher.]
Passaram-se semanas. Um dia, louco do vício por aplacar, ele deitou uma garrafa de aguardente em peça numa taça branca, lançou com fúria as mãos em concha ao líquido e esfregou-o na cara. Algumas gotas encontraram um caminho livre entre as rugas precoces da pele e forçaram, na orla que separava os lábios, a entrada. Ele levantou a cabeça e cuspiu – cuspiu, o corpo todo sacudindo, como se quisesse expulsar um veneno que tivesse tomado o lugar da saliva, do sangue, de todos os fluidos corporais.
Depois, limpou as mãos e a cara com uma toalha branca – a toalha ficou encardida – e sentou-se pesadamente, no chão, com as costas demolidas de exaustão. Estava sozinho – não houve ali ninguém para servir de testemunha do que havia feito, mas ele agarrou na cara de jeito a que ninguém a visse, do jeito de quem queria desaparecer para sempre.
A filha mais pequena entrou, em silêncio [ele não se apercebeu], e pôs-lhe a mão na cabeça. Ele destapou a cara – e lembrou-se que não era a primeira vez que a menina o confortava desta maneira.

[Crónica publicada no JM, 22-VII-2017.]

sábado, 8 de julho de 2017

Crónica 79 [O Abismo]

No fim das escadas, ao alto, encostado à parede – o filho assim esperou. O pai apontou-lhe, cá de baixo, o cinto cingido pelo punho esquerdo, e subiu. [Um degrau mal medido fê-lo tropeçar, mas logo se pôs direito. Havia uma imagem e uma autoridade a preservar; naquela casa, porém, qualquer autoridade que alguma vez tivesse existido já se havia corroído.]
Nem sempre tinha sido assim. O começo – bem, não sabia o filho que começo tinha sido. Talvez fosse melhor falar em começos, pequenas desaprovações, silenciosas incompreensões, coisas que se insinuam e que não se medem. Coisas que – no reinado da família – se conhecem e medem apenas nos efeitos – não nas origens, não nas causas.
A entrada do rapaz na puberdade tinha trazido, pois, um rumor de sismo. Houve mudanças de humor e de palavras. O que antes era dito era, agora, ou silêncio, ou grunhido, ou berro. 
A casa começou a ser inundada de barulhos “do inferno”. Eram acordes de distorção, vozes guturais, vagas “dessa maldita música metálica”, como lhe chamava a mãe. O filho fechava a porta do quarto, mas isso não impedia que toda a casa tremesse. O pai foi-lhe dizendo: “Já me ‘tás a azedar.” Um dia entendeu o rapaz em comprar uma guitarra eléctrica e um amplificador de válvulas de 100 watts. O pai, saturado enfim, quis afogar de uma vez estes sons “do demónio”, fazendo o que lhe parecia certo, sensato, quase honrado – partiu o braço da guitarra. 
Os amigos da vizinhança pobre – “pequenos da ribeira”, como lhes chamava o pai – passaram a ter livre acesso a esta casa, onde a penúria nunca morava. Um dia, dois ou três foram expulsos pelo chefe de família, que depois se virou para o filho e cuspiu: “Para a próxima vais com eles.”
O filho vestia-se como um “pelintra” e tinha comportamentos que petrificavam a mãe e metiam raiva ao pai. “Quem ver isso vai parecer que nunca te demos educação!” O pai berrava estas palavras – e outras, como sabemos – e, a dado momento, julgou-as vãs e sem préstimo. Portanto, um dia tirou o cinto e segurou-o de maneira a poupar a fivela. 
No dia seguinte, o filho voltava pela vereda ao lado da casa. [Ali havia muitos eucaliptos; por causa do cheiro que exalavam, com frequência o rapaz se recordava que a mãe lhe punha, à cabeceira, folhas destas árvores para apaziguar a tosse e a respiração. Recordava e desejava que estes gestos nunca tivessem cessado. Não tinha maleita física – mas nesta idade às vezes custava-lhe respirar.] Bem: a mãe, que observava sorrateira, viu-o esconder algo num buraco na terra. Deixou-o entrar, ignorou-o – como já era costume – e foi apanhar o que era suposto ficar oculto. Quando o pai chegou, ela mostrou-lhe uma revista, suja e enrolada, e disse: “Vê as poucas vergonhas que esse estupor anda a ver.” O pai tirou o cinto – e dessa vez decidiu não poupar a fivela.
[Voltemos ao início.]
No fim das escadas, ao alto, encostado à parede: o filho esperou, tremendo, como em face de um perigo mortal – ou, pior, de uma profanação. O pai subiu. O filho empurrou-o pelas escadas abaixo.
O corpo caiu, arrastado, colidindo como se fosse regido pelo ritmo de uma marcha militar. Nesta eternidade, ao filho, que não conseguiu pestanejar nem virar a cabeça, cresceu-lhe uma náusea que lhe ensurdeceu os ouvidos. A claustrofobia negra e sôfrega alojada neste coração era agora completa. O abismo viu, finalmente, o seu fundo.

[Crónica publicada no JM, 08-VII-2017, p. 2.]

sábado, 24 de junho de 2017

Crónica 78 [Inferno]

Uma mulher grita porque, entre o fumo e a densa copa das árvores, vê a primeira língua do fogo que subia a encosta. [No topo estava a sua casa.] Perto dali, um casal lança mão de uma mangueira e de um balde com uma alça que rompia as mãos. Têm – e sabem-no – apenas água e força e exaustão para dar.
Entre a névoa fulva, sobre as telhas de uma casa, um homem vigia de braços cruzados o caminhar do fogo – que se aproxima vindo de este, de oeste, de cima, de baixo. Protege os olhos com óculos escuros – nada mais tinha à mão – e sobre o nariz e a boca apertou um tecido humedecido. Os vizinhos vislumbravam esta figura bíblica, que ficava imóvel durante horas, e dela colhiam um módico de alento e de coragem.
As labaredas chegam e há homens e mulheres e crianças que correm, que gritam, que digitam números nos telemóveis, que tossem, que matam o lume com água, com ramos, com panos, com os pés, com as mãos, que destrancam carros esquecidos para não arderem, que põem a salvo garrafas de gás para não explodirem, que soltam os animais, que esquecem os animais, que não conseguem respirar, que tapam a boca, que tapam os olhos, que cobrem as bocas e os olhos e os corpos dos filhos, que fecham bem as casas, que não conseguem respirar porque o ar é negro de fumo e saturado de faúlhas e de cinzas, que entram em casa para poder respirar, que não abandonam os seus lares, que correm para os vizinhos, que recusam fugir após ordens das autoridades, que pedem a familiares para levarem as crianças para que eles possam ficar para trás, aflitos porém mais descansados, que caem e se levantam, que choram, que se esquecem de instintos de sobrevivência, que só têm instintos de sobrevivência, que não desistem, que acabam por desistir, que se lembram de tempos doces e de horas de trabalho e de dias de descanso e de eternidades de aflições – aflições que não estas –, que não sabem se são lutadores ou heróis, se são resistentes ou sobreviventes.
No cabeço que amanhece negro, com a terra ainda quente sob as botas, entre as árvores decapitadas e esventradas pelas labaredas vê-se a raiz de um eucalipto que ainda tem no seu seio a gestação de carvão. Não há fumo, não há lume – há apenas um crepitar que brota com manha, zombador, como se quisesse crescer despercebido. Um homem vê isto e atira muitas pazadas de terra. O crepitar é sufocado.
Longe, para lá de uma vedação de ferro retorcido, de plástico liquefeito e caído ao chão, há os cotos calcinados de uma vegetação raquítica, que durante a noite ardeu longe dos olhos dos homens. Entre a vegetação um eucalipto permanecia alto, incólume – como se se vangloriasse da sorte, do desvio do vento que o subtraiu ao infortúnio.
Um homem desce a um dos seus poios. Na ameixieira, ele vê os frutos cozidos, tintos e enegrecidos, pendentes dos ramos que sobreviveram. O fogo, pensou o homem, matou-lhe a ameixieira como se ela tivesse sido lançada para dentro de um forno. [Morreram-lhe muitas árvores, mas aquela não.] Com fuligem na cara e dois dias e duas noites de vigília, o homem pega num machado e numa foice de mato. “Tenho de limpar isto. O que foi – foi. Se voltar, vai ser pior.”
[A tragédia de Pedrógão Grande, nos últimos dias, trouxe-me memórias vistas e contadas dos incêndios neste rincão madeirense – em 2012, 2013, 2016. Quando é que o nosso Portugal se livra deste inferno estuporado?]

[Crónica publicada no JM, 24-VI-2017, p. 2.]

sábado, 10 de junho de 2017

Crónica 77 [Vizinhos]

A mulher entrou no quarto e farejou o ar peganhento de medo – as narinas do filho eram verdadeiros foles, insuflados pelo que vinha a caminho. A mãe apanhou o vime de cima da mesa, onde este instrumento descansava nas horas desempregadas, e cerrou-o bem na mão. Este maestro, com esta batuta – frenética –, iria dar começo ao concerto e ao bailado do dia. 
“Qu’eu – já – t’disse – [a cada berro, a cada sílaba rugida, descia ou subia o vime] p’ra – nun – ca – mais – t’a – tre – veres [o filho, de voz a tremer: “ai mãe, pel’amor de Deus”] – qu’eu – rach’-te – os – ossos – seu – estu – por [e assim continuava].”
O pai era mais austero – não apreciava tragédias longas, dramaturgia elaborada, tempos calmos enchidos com lágrimas e correrias de evasão. O pai era mais seco. Uma mão, aberta ou fechada, de uma só vez, era o suficiente para acometer o filho, que certa feita passou por cima do sofá, à conta da força empregue.
Uma comunhão estranha, a desta família. Os pais irmanavam-se nos castigos ao filho – e o filho transgredia e recebia castigos como quem aceitava uma dádiva e estabelecia um elo. [Não havendo carinhos de mãe e de pai, um vime ou uma chapada já eram alguma coisa – já eram um veículo de comunhão.]
Neste bairro ruidoso, os vizinhos iam sendo espectadores destas coisas quotidianas. Alguns viam com escândalo; outros não – enfim, não sendo hipócritas, não se podiam indignar com o que se passava em casa alheia quando na sua própria casa rareava a dignidade.
O casal do número ao lado, a quem o filho dos vizinhos tinha partido uma vez três ou quatro cântaros de sapatinhos, era quem mais se afligia com os gritos e os uivos. Este casal não tinha filhos e, por isso, suportavam-se, marido e mulher, da forma mais correcta que encontraram. A mulher, doméstica e boa costureira, envergava uma compleição melancólica de que o marido, um bom pedreiro, tentava, com trabalho incessante e pesado, evitar o contágio. [Tentar, tentava. Não conseguia.]
Uma vez disse ele à mulher que estava a precisar de um ajudante para os biscates do fim-de-semana. Ela ouviu mas não soube o que responder. O marido dirigiu-se aos vizinhos da casa ao lado, avistou-os, disse boa tarde e pediu para falar com eles. Para dar suporte às palavras, levantou a mão hesitante, sem ameaça, e disse que precisava de um servente: tinha reparado que o filho dos vizinhos já tinha idade e tamanho, pensou que certamente teria força, que talvez fosse bom para ele, que se calhar dava-lhe jeito dinheiro para a escola, que estava disposto a levá-lo e a pagar-lhe, que…
O pai, desconfiado – não disse, não diria, palavra nenhuma –, encolheu os ombros. A mãe atalhou logo: “Leve, leve. Leve ele. Se quiser pode ser durante a semana. Ele também nunca deu nada p’rá escola. Nem p’rá escola nem p’ra nada.”
Destarte, o vizinho pedreiro tomou a seu cargo o vizinho rapaz e encetou, com ele, um trabalho incessante e pesado – um trabalho de construção de dignidade. Ensinou-lhe a manejar materiais e ferramentas toscas e precisas – e a ser educado; ensinou-lhe a levantar casas – e a respeitar e ser respeitado. O rapaz aprendeu uma arte – e aprendeu, afinal, a ser homem.
Anos volvidos, o rapaz desta história, já adulto, falava com um amigo dos idos da adolescência, que nunca tinha saído do bairro. Recordavam as malhas que levaram e o amigo, jocoso, disse: “Então tu… eras um triste”. Ele devolveu: “Eu… eu tive sorte.”

[Crónica publicada no JM, 10-VI-2017, p. 2.]

sábado, 27 de maio de 2017

Crónica 76 [O Carvoeiro]

Ele levantou o copo e segurou-o entre os olhos e a luz difusa do tecto: “Olha, vê como ‘tá clarinho. Isto tem parte de americano e parte de canim.” Disse isto e engoliu de uma vez, de boca e garganta abertas, o quarto de litro. Depois bateu com a base do copo na mesa, baça de sebo. “Pega mais”: e, do garrafão de plástico, deitou num copo pequeno – já não de quarto de litro – do mesmo vinho. Tentei impedir – ele não fez caso. Tentei alvitrar uma escusa – mas subiram-lhe os cantos da boca, contraídos de desaprovação. “Vai, bebe.” Eu bebi – e ele narrou. 
“Contaram-me, quando era pequeno, que o meu bisavô, parece-me, naqueles tempos dos antigos…”
O bisavô, ou outro ascendente para ele remoto, subia sozinho às serras, sem dizer a ninguém o destino concreto. Levava semilhas e inhame – sempre coisa pouca para uma jornada de tempo e desfecho incertos. Procurava um lugar de boa e alta vegetação – o mais encoberto possível. Ali trabalhava e dormia os dias precisos. Cortava uma ou duas árvores; abria um buraco na terra; deitava nele as árvores defuntas e ferrava-lhes lume. Logo que as labaredas levassem bom avanço, jogava-lhes terra em cima – de jeito a fazer uma fornalha subterrânea, vagarosa e fumarenta. Era um alquimista desesperado, esfomeado. Da madeira ele queria fazer carvão.
E carvão haveria de ter – para vender, na cidade –, contra a lei e os outros homens: os fiscais; os pastores com o gado e os camponeses que vinham recolher lenha. Contra, afinal, todos os estupores malditos – diria ele com certeza –, que deviam se meter na vida deles e não impedir um homem de matar a fome. [E também a sede – parte do dinheiro ganho seria deixado em tabernas de vinho e aguardente.]
Este homem tentava passar despercebido nas serras – como se fosse uma versão obscura de um fauno. Mas era difícil: do lugar onde exercia o seu múnus subia fumo; até, por vezes, um qualquer descuido tornava a floresta em redor num viveiro de labaredas; e, no fim da tarefa, recolhido o carvão, ele virava costas a uma cavidade vazia e enegrecida na terra, que assim ficava como o vestígio de um qualquer ritual pagão.
Por isso, na verdade, acabava-se por saber que havia um carvoeiro na serra. E, da mesma forma que ele entrava, tentava sair – rapidamente e sem estardalhaço. Trocavam-lhe, todavia, numa ou noutra ocasião, as voltas. Num dos primeiros regressos sofreu uma emboscada por camponeses – um magote deles. Não alcançou a sair ileso – duas foices, em mãos diferentes, abriram-lhe um talho no braço e traçaram-lhe, na testa, uma linha que se tornou cicatriz contínua, profunda, roxa, como uma segunda fileira de sobrancelhas. A realidade é que, ou por fome, ou por vingança, este homem – ou outro como ele, também de mãos negras – deitava por vezes a mão a um cabrito transviado.
O meu interlocutor parou a narração e deitou mais vinho nos copos. Eu estranhei a abundância de pormenores relativos a um passado que ele não tinha presenciado. Ele disse que sempre gostou de ouvir histórias e que esta, em particular, era-lhe cara. E assim acrescentou: “Parece-me que até podia ser eu, não é? E quem é que ia se pôr a julgar?”
E rematou, usando palavras que eu não esperava e que não recordo com exactidão – talvez por causa do vinho. Mas a mensagem era esta: havia, nas entranhas esconsas desta terra, um ódio feito de disputa, transgressão, vigilância, sangue e lume. Havia – e há, nas entranhas e na superfície.

[Crónica publicada no JM, 27-V-2017, p. 2.]

sábado, 13 de maio de 2017

Crónica 75 [Cães]

Ponho no papel alguns fragmentos rasgados de histórias.
Um homem confessou que, quando jovem, poucos momentos lhe eram tão gratos como aqueles em que se refugiava no quarto – a virar fólios de poesia – acompanhado do seu cão, que ficava deitado na cama. Eram audíveis apenas as respirações sintonizadas de ambos, homem e animal, em comunhão silenciosa.
Uma avó avisou os dois netos – o cão já não tinha direito a um lugar entre a família. A roupa no estendal havia sido passada pela máquina trituradora dos caninos do bicho. Portanto, o cão teria de ir embora – e que eles, os meninos, ficassem cientes disso. Eles arregalaram os olhos de medo; porém, minutos depois, estavam ocupados com brincadeiras, com outros pensamentos. Um dia deram pela falta do cachorro mas concordaram, sem preocupação, que andaria nas vizinhanças a deambular – e que voltaria, como todos os dias voltava, para casa. Desceram à cidade. De dentro de uma carrinha – o veículo do canil para transporte de animais –, um cão, que reconheceu as suas vozes, largou a ladrar com desespero. Foi a vez de os meninos reconhecerem, com comoção: era o seu cão que ladrava, que ali estava em prisão, que de casa tinha sido expulso, para sempre.
Um rapaz a entrar na puberdade era alvo de zombaria pelos rapazes mais velhos da casa ao lado. A zombaria tornou-se violência – davam-lhe um carrolaço furtivo quando passava na vereda de terra batida. O rapaz foi aguentando, calado, durante meses. Na volta de um dia de escola, encontrou na vereda o cão dos vizinhos – uma bola inerme de pêlo que mexeu a cauda quando o viu. Aos olhos dele, o animal pareceu patético. Pensou o rapaz, furibundo, que não era tarde nem era cedo. Seria aquela a sua vingança. Puxou a culatra do pé atrás e deu um pontapé – como se quisesse chutar uma bola de futebol pelos ares – na mandíbula do cão. Ouviu-se um som único, metálico, de osso contra osso, de dentes a bater em dentes.
O adolescente tinha exames nos dias seguintes e estudava os manuais, como peripatético solitário, no quintal da casa. Solitário, não – o cão da família estava deitado à sombra e virava o focinho para o deambular do estudante, o qual, por sua vez, para fazer a revisão da matéria, olhava para o cachorro e explicava em voz alta. O bicho abanava a cauda e fazia subir e descair as orelhas. Anos depois, a mãe ligou ao jovem adulto, que já estava na universidade. O cão tinha-se arrastado até à porta de casa e aí havia tombado, a espumar. Tinha sido envenenado.
[Como acontece amiúde nestas crónicas – nestas histórias –, começo por querer narrar coisas suportáveis, contentadas. Mas os dedos sobre o teclado acabam por dedilhar palavras outras. Neste caso, e em substância: digo o que vi – e o que vejo; falo do que me contaram – e do que me contam. Há cães soltos e desguardados; cães assustadiços e de olhos aflitos no meio do asfalto após as chuvas; cães abandonados longe do lar, para que não encontrem o caminho de volta – que perseguem, nos primeiros quilómetros, o carro que o dono, de olhos no retrovisor, faz acelerar; cães acorrentados; cães presos por correntes curtas e apertadas como garrotes; cães com correntes que lhes corta a carne; cães atolados em imundícies; cães de pêlo a cair, de peles despregadas dos ossos. Cães – que, na sua desgraça, são vítimas e testemunhas do atraso civilizacional dos homens.]

[Crónica publicada no JM, 13-V-2017, p. 2.]

sábado, 29 de abril de 2017

Crónica 74 [O Regresso]

Ele encontrou um velho camarada de armas e disse-lhe, com entoação nas primeiras vogais: “Ah homem, ainda não morreste?” Ambos riram. Cada qual falou as poucas palavras típicas deste tipo de avistamento – na rua partilhada por peões e carros, à porta da tasca. [Ele ia a entrar. O outro ia a sair.] Ninguém convidou ninguém para um copo – ou para mais um copo. Tinham coisas a fazer, coisas em que pensar – pouco dinheiro; e pouca saúde. Despediram-se – e as caras vestiram-se de um ricto de embaraço, amarelado, cúmplice.
Ele entrou depois, cumprimentou a funcionária e sentou-se – como costumava fazer, uma vez ao dia, a meia tarde. Para ele, reformado, era este o marco do dia – a fronteira a partir da qual desenhava um antes e um depois. A mulher ainda trabalhava. O neto raramente estava com ele. A casa estava vazia. [A tasca também – mas não havia problema.]
A bica chegava-lhe à mesa, sem precisar de pedir. Durante alguns minutos – os necessários, os suficientes – ficava a olhar para a porta. Os carros, rápidos, temerários e de vários matizes, que por vezes pareciam fazer tremer o umbral do estabelecimento, não lhe enxotavam o olhar fixo.
Nesse dia lembrou-se de um outro camarada de armas, que com ele esteve em Angola. Vários anos depois de voltarem, encontrou-o no Funchal, na Rua Fernão de Ornelas, descalço e de grenha empastada de sujidade. Estava sem casa e sem família. A partir daí, quando o via dava-lhe um cigarro e uma moeda, de cem escudos – inflacionados, no novo milénio, para um euro. Era certo e fatal – tal como era fatal ele acompanhar estas dádivas de uma resonda breve e mastigada. [O amigo sorria e começava uma conversa alheada, como quem tentava dissipar a reprimenda.] Dizia-lhe, mesmo passadas três décadas do regresso do mato em África, com ênfase no primeiro erre: “Ah rapaz, o que tu eras e o que tu és!”
Pensava ele nisto – no amigo; nas vítimas perenes da guerra – quando a funcionária do bar lhe perguntou se ele iria à serra, no 1.º de Maio. Ele levantou a cabeça. Ela repetiu e acrescentou: o 1.º de Maio; feriado; Dia do Trabalhador. Ele riu como quem tosse, como quem não se importava com isso.
Baixou a cabeça, bebeu de um trago a bica sem açúcar e regressou ao novelo de memórias por desemaranhar. Uma memória, tão macerada de tão convocada, começou com parte da Companhia a seguir o jipe. Os homens sabiam o que tinham de fazer: os pés tinham de pisar os exactos lugares desenhados pelo rodado da viatura – nem mais à esquerda, nem mais à direita. Até ver, pelo menos aquele trilho duplo estava livre de minas. Um amigo, que adiante dele caminhava, com a G3 ao lombo e os braços sobre a arma – o direito caído da coronha, o esquerdo pendente do cano –, distraiu-se. O pé direito pousou meia dúzia de centímetros fora das marcas dos pneus e uma mina deflagrou.
A funcionária interrompeu este fluxo de sangue e estilhaços: perguntou-lhe se tinha feito alguma coisa especial dias antes, no 25 de Abril. Ele ficou imóvel. Ela repetiu e ajuntou: 25 de Abril; feriado; Dia da Liberdade; cravos vermelhos. Ele olhou-a e sorriu, com cansaço e bondade.
A medida do dia estava completa. Levantou-se, pagou e saiu. Na rua acendeu um cigarro, que o fez tossir com o pescoço e com o peito.
O homem que foi para a guerra em África não foi o mesmo que veio – assim pensou. E logo simplificou: talvez não tivesse regressado – talvez o regresso nunca tivesse sido possível.

[Crónica publicada no JM, 29-IV-2017, p. 2.]

sábado, 15 de abril de 2017

Crónica 73 [A Carga]

Ele orgulhava-se – sem bazófia, sem fazer gala disso – da força que tinha. No mercado, enchiam-lhe os maiores cestos de vime com bananas. Ajudava-se ao peso – de setenta, oitenta quilos – e, com a base do cesto como uma cunha a lhe trincar o lombo esquerdo, subia, correndo, os degraus até o andar superior. O patrão ficava contente: um dia elogiou-o dizendo – com um jeito trôpego – que era um bom burro de carga. O homem, de pequena estatura – pouco mais de metro e meio –, aceitou como pôde o elogio e viu-se dilatado nos seus brios.
Trabalhou no sector da banana – carregando, outrossim regando, cavando e mondando de joelhos a terra até as unhas começarem a sangrar. Andou depois nas obras, e o encarregado, que lhe apreciava a afoiteza, a desenvoltura e a força, nomeou-o responsável pela condução dos trabalhos nas suas ausências. O homem tanto vestia um pano de parede em tempo inédito como, para dar o exemplo aos serventes – apesar de a isso não estar obrigado –, carregava três sacos de cimento de uma só vez: um às costas, os outros à laia de braçados, cada saco cingido por cada braço.
De maneira que era assim a vida, desde a adolescência – trabalho, trabalho, trabalho. Nada havia de excepcional nisto. O homem, em menino, cresceu vendo pai, tios, irmãos e primos mais velhos – todos baixos, troncos secos; todos bois de força – acorrerem na maré baixa à praia e encherem sacas de areia molhada, que transportavam, à centena de quilos de cada vez, até aos sítios altos da freguesia. Viu isto – e outro tanto. E o que foi vendo, no que ao trabalho concerne, haveria de ser o seu destino – sem drama, sem fatalismo, sem consciência até.
[É bom de ver que estes homens são de molde a envelhecer cedo – de trabalho e de álcool. Amiúde são acometidos de uma trombose. Cedo entrevados e embrutecidos, com os ossos torcidos das cargas, tornam-se, naufragados a um canto da casa, trastes ébrios dedicados a massacrar e a condenar as almas dos familiares. Estes comportamentos também os foi observando o homem da nossa história – agora, todavia, com um certo pressentimento de desgraça.]
Com vinte e picos anos de idade, o homem juntou-se com uma mulher, após um namoro sumário e alegre. O neófito casal foi viver com a família dele. Foi dada autorização para levantar um piso sobre a casa paterna, que era um completo ninho onde coabitavam três gerações e inclusive parentes colaterais. O homem assentou blocos, armou cofragem e deitou, com familiares e amigos, a laje final. Esta tarefa, como se costuma dizer, deu vela – às quatro horas da manhã ainda um verdadeiro cordão humano passava, de braço em braço, baldes de massa.
Mas depressa a convivência se tornou um inferno. Entre pais, sogros, irmãos, cunhados começou um fluxo peçonhento de bilhardices e invejas, de rancores e ressentimentos. Rumores tépidos subiram a gritos. O patriarca, falho de discernimento, optou por culpar o casal recém-chegado – que entretanto tinha tido um bebé. Demente à força de aguardente e por falta de paciência e compreensão, numa noite o pai chamou o homem, o seu filho. Disse-lhe que, se no dia seguinte ele ainda ali estivesse, o mataria, assim como à mulher e ao filho, e cavaria um buraco na fazenda para os enterrar.
No dia seguinte já não estavam. Para o homem, esta carga foi a mais pesada que alguma vez teve de carregar. Uma carga que nunca poderia ser aliviada. Uma cruz.

[Crónica publicada no JM, 15-IV-2017, p. 2.]

sábado, 18 de março de 2017

Crónica 72 [O Rapaz]

No campo batido de chuteiras rotas e ajoujadas – um dos jogadores calçava-as assim, e eram as duas de diferentes qualidades –, o rapaz bolinava contra uma corrente agressiva com a bola, que rolava entre cá e lá, fazendo tabela entre os seus dois pés. Driblou este; confundiu aquele, que ficou para trás; e deixou sentado no chão aqueloutro – o qual, despeitado, desembestou em perseguição e, aproveitando o ressalto da bola até ao nível das cabeças, levantou a pata calçada aos queixos do rapaz. Efeito: sangue a cair de um furo na pele – dor a cair de uma ferida no orgulho.
Era um molho de ossos, o rapaz, e afligia-se por tal razão a mãe, as tias, a avó. Não havia maneira de criar corpo este púbere, a quem a mãe levantava a t-shirt – de nada valiam protestos envergonhados – para mostrar à vizinhança uma pele esticada e cava sobre uma rede de ossos que mais pareciam arame farpado ou espinhas que cortariam como facas de talho. Portanto: um trinca-espinhas – ou chupa-espinhas, como lhe chamava o pai, trocista –, das órbitas oculares até aos pés – que eram os instrumentos únicos que tinha para se afirmar, na escola, depois da escola, no clube, fosse onde fosse. Onde havia uma bola – onde havia quatro linhas e duas balizas, ainda que imaginárias – ele não era magro, não era fraco: era eficiente, admirado e odiado.
De pronto, porque a inveja e o ressentimento nunca dormem, e os métodos de meter alçapões e armadilhas no coração de outrem são infindáveis, os rivais, para além da violência, descobriram o ferrete do ridículo. Por isso passaram a chamá-lo “bailarina” – quando lhe chegava a bola aos pés e ele arrancava contra a baliza contrária, ou em qualquer outra ocasião, dentro ou fora de campo. Quando ouviu este apelido pela primeira vez, atrapalhou-se com a bola de catechu, levou uma canelada – o treinador não viu nada – e foi com a testa à terra. Virou-se, sentou-se e, com os olhos ensopados de raiva, mordeu os canhotos da mão direita. As gargalhadas duplas – pela alcunha; pela queda – ficaram, alarves, a lhe zunir nos ouvidos tapados.
Não havia forma de criar corpo – nem, com efeito, pêlos, na cara e no corpo. E por isso também era gozado, principalmente no balneário do clube. O rapaz explicou à mãe que tinha vergonha, que os outros, da mesma idade – na verdade, alguns mais velhos –, zombavam dele porque era um rato seco, um esqueleto bailarino, e agora uma galinha sem penas. De facto, começaram a multiplicar-lhe os apodos. A mãe, sempre aflita, afagou-lhe o cabelo sobre a testa e rogou-lhe que não desse troco. O pai, que soube pela mãe – não pelo rapaz, porque não havia, ainda não havia, essa relação entre pai e filho –, disse-lhe, categórico, que deixasse de ser um medricas e que começasse a dar uso aos punhos. Nada disto fazia sentido ao rapaz – porque sabia, perspicaz, que nada disto resolveria o problema.
No fim de um treino, no duche, os outros rapazes gargalharam, rotineiros, das características do rapaz – e ajuntaram comentários relativos à falta de pêlos púbicos e ao tamanho dos genitais. O chefe da turba atreveu-se, ademais, a pronunciar calúnias sobre a família do rapaz. Ele reagiu – com todo o seu corpo franzino. Efeito: levou uma malha; caindo no chão de tábuas molhadas do balneário, pontapearam-lhe as pernas – sobretudo as pernas.

[Crónica publicada no JM, 18-III-2017, p. 2.]

sábado, 4 de março de 2017

Crónica 71 [Aranhas]

Existem os animais domésticos que adoramos, que convidamos ao nosso convívio, a que chamamos família. E depois existem os outros – como, por exemplo, as aranhas. 
Nada sei sobre estes invertebrados, mas, numa noite de insónia, imperativa e indomável como uma aranha que nos invade a casa e o pensamento – como um abraço de oito patas –, sou levado a lavrar alguns farrapos de histórias – a acrescentar o meu pouco ao registo transitório do mundo.
Havia um menino que, em momentos de raiva e frustração, saía de casa e, no quintal, olhava para o alto e desfazia-se em brados e exclamações. Numa dessas acometidas, visou e culpou Jesus dos seus males – o mesmo Jesus que, diziam os adultos, chorava quando ele se portava mal. [Afinal, pensava e perguntava o menino: se o Jesus era tão bom e amigo das crianças, por que razão se sentia tão miserável?] Numa dessas acometidas, falava com o Messias e viu, reparando até que o silêncio lhe engoliu a garganta, uma aranha, suspensa numa névoa branca de fios. Era bicho hediondo e severo, do qual sentiu um abrupto medo. E foi um medo que se traduziu – como acontece com muitos medos – num certo fascínio, ou em magnetismo ou perplexidade. [A aranha seria, com grande probabilidade, uma aranha-maria, de seu nome comum.]
Uma menina estava a brincar no chão da sala-de-estar. Levantou-se, pequena, para abrir as duas janelas – era precisa luz para ver melhor os carrinhos. [Sim, esta menina brincava com carros – não havia ali bonecas carecas.] De uma das janelas brotou um aranhiço – talvez, de seu nome comum, uma aranha-das-patas-longas. [Nada de preocupante, nada que oferecesse ameaça, diria um adulto – afinal, não era nenhuma tarântula das Desertas.] A mãe, apressada e prestimosa, limpou a janela do intruso, e tentou sossegar a menina. A verdade, porém, é que nunca mais voltou a criança – rodaram os anos; a menina tornou-se mulher – a se aproximar. E ficava, por vezes, a fitar a janela – esta e outras janelas, nesta e noutras casas.
Um homem tinha, à janela do quarto de dormir, uma agave, de pouco menos de dois metros. Na planta, esticada de folha a folha a folha, estava a casa fiada de uma aranha. [Seria talvez uma aranha-das-tabaibeiras; enfim, não era uma tabaibeira o que se via, era uma agave – mas ao redor era o que se arranjava.] Ao fim do dia, o homem, antes de entrar à porta de casa, fumava mais um cigarro e deitava as cinzas na teia da aranha. Divertia-se, nesta brincadeira sem caução da idade, em ver a aranha, eficaz, saltar de pronto sobre a gota de cinzas e emaranhá-la como se fosse uma mosca ou outro insecto alado. Ao início a aranha fazia isto; depois, foi levando o seu tempo a agir e acabou por ficar imóvel, ignorando assim este logro servido pelo bípede galhardo. [Da parte do homem, não era só feita de folia esta interacção. Por vezes fixava, esgazeado, a aranha – e o pensamento fugia-lhe para outros lugares. Deve ser notado que este homem escreveu, sobre este episódio que estamos a narrar, um torpe poema desalinhavado.] Um outro dia, voltando do trabalho, reparou que jardineiros – uma horda de jardineiros, desordeiros e facínoras como hunos – haviam mondado o jardim à sua janela e cortado as folhas carnudas da agave, demolindo a casa da aranha. Pensou, melancólico, que não esteve ali para guardar e salvar o aracnídeo.

[Crónica publicada no JM, 04-III-2017, p. 2.]

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Crónica 70 [A Gata]

A gata apareceu um dia e ali ficou.
No início, estranhou-se a aparição felina. Sem demora, contudo, arranjaram-se recipientes para água e para os restos da mesa, que foram postos à porta da casa. A gata foi governando assim a sua vida – aparecendo; desaparecendo. Os mais novos da família passaram a dedicar-lhe afagos, o que valia repreensões da mãe, pensativa dos lugares onde o bicho andava quando não era visto. Mas até os adultos se renderam. Nesta convivência, foi transposto o umbral – e ao bicho acabou por ser consentida a entrada, tentada e insinuada, na habitação cálida e ruidosa de gente.
A gata veio a se mostrar agradecida e a oferecer tributos aos beneméritos. Era, íamos esquecendo de dizer, preta, com algumas malhas brancas – nada fora do usual, portanto. Mas intrigava os humanos o facto de este padrão cromático ser perturbado por umas manchas tintas que o felino por vezes apresentava no focinho. Uma cor tinta – ou um vermelho desfalecido. Com efeito. A resposta para este enigma trouxe clamores de nojo e de medo à casa. Um dia, no tapete que ficava fora da porta de entrada, a gata tinha deitado o seu primeiro produto de homenagem, ao lado do qual se sentou, orgulhosa, à espera do reconhecimento. Era uma ratazana, morta, esventrada – um bicho de dois palmos de mão adulta, fora a cauda. Um dos filhos viu, deu o alarme, a mãe gritou, a filha gritou, os filhos ficaram maravilhados pelas aptidões guerreiras do felino. Face aos ruídos, a gata, confusa, desconfiada, balançou várias vezes a cabeça. Depois fugiu, perante o clamor crescente.
Em todo o caso, não desistiu – e voltou a tentar, mas de um jeito mais incisivo. Na ocasião que se seguiu, outro rato, do mesmo tamanho, foi depositado dentro de casa – e a gata voltou a postar-se, altiva, expectante. Neste ensejo, teve de fugir de imediato – a acompanhar as exclamações de horror, um sapato quase a atingiu. Mal-agradecida família – diria com certeza a gata, se falasse.
Esta família, nos dias defesos de trabalho, dividia-se entre o sofá e os cadeirões coçados e ficava assim aninhada. Na pequena sala-de-estar estendia-se um cobertor que conseguia alcançar, aéreo, todas as pernas e todos os braços friorentos. Um dia a gata – sem os bigodes tingidos de escarlate – subiu para o cobertor. Foi enxotada. Voltou a saltar. À terceira ou quarta vez deixaram-na ficar.
Tendo sido permitida esta convivência mais estreita – e já perdoada pelas oferendas hediondas que trouxera –, a gata deitou-se, num domingo frio de Fevereiro, sobre o cobertor. Estava a família com a atenção presa num filme qualquer. O bicho começou a lamber-se de um modo vigoroso que um dos filhos, inocente, achou estranho. Ninguém mais notou, imersos que estavam na televisão. De repente, da sua goela saiu um grito pungente. A mãe, que já tinha notado que a gata andava mais gorda – estaria prenhe –, disse: “Ela vai ter os gatinhos agora!”
A família tirou o felino da sala e trouxe-o até à entrada. Ali puseram um trapo velho. Viram, com compaixão e assombro, surgir uns gatinhos – cinco tostões de felino, a tremer de vida – que a gata-mãe ia lambendo, entre sofrimento e cuidados.
Um ou dois anos depois, a gata deixou de aparecer. A família nunca lhe deu um nome – nunca sentiu essa necessidade.
[Esta história, que aqui fica a despropósito, veio-me à ideia quando alguém me disse algo que tange mais ou menos assim: orgulhosos, altivos, nómadas, caprichosos – há pessoas que se julgam como gatos; mas quando caem, não caem de pé.]

[Crónica publicada no JM, 18-II-2017, p. 2.]