sábado, 8 de julho de 2017

Crónica 79 [O Abismo]

No fim das escadas, ao alto, encostado à parede – o filho assim esperou. O pai apontou-lhe, cá de baixo, o cinto cingido pelo punho esquerdo, e subiu. [Um degrau mal medido fê-lo tropeçar, mas logo se pôs direito. Havia uma imagem e uma autoridade a preservar; naquela casa, porém, qualquer autoridade que alguma vez tivesse existido já se havia corroído.]
Nem sempre tinha sido assim. O começo – bem, não sabia o filho que começo tinha sido. Talvez fosse melhor falar em começos, pequenas desaprovações, silenciosas incompreensões, coisas que se insinuam e que não se medem. Coisas que – no reinado da família – se conhecem e medem apenas nos efeitos – não nas origens, não nas causas.
A entrada do rapaz na puberdade tinha trazido, pois, um rumor de sismo. Houve mudanças de humor e de palavras. O que antes era dito era, agora, ou silêncio, ou grunhido, ou berro. 
A casa começou a ser inundada de barulhos “do inferno”. Eram acordes de distorção, vozes guturais, vagas “dessa maldita música metálica”, como lhe chamava a mãe. O filho fechava a porta do quarto, mas isso não impedia que toda a casa tremesse. O pai foi-lhe dizendo: “Já me ‘tás a azedar.” Um dia entendeu o rapaz em comprar uma guitarra eléctrica e um amplificador de válvulas de 100 watts. O pai, saturado enfim, quis afogar de uma vez estes sons “do demónio”, fazendo o que lhe parecia certo, sensato, quase honrado – partiu o braço da guitarra. 
Os amigos da vizinhança pobre – “pequenos da ribeira”, como lhes chamava o pai – passaram a ter livre acesso a esta casa, onde a penúria nunca morava. Um dia, dois ou três foram expulsos pelo chefe de família, que depois se virou para o filho e cuspiu: “Para a próxima vais com eles.”
O filho vestia-se como um “pelintra” e tinha comportamentos que petrificavam a mãe e metiam raiva ao pai. “Quem ver isso vai parecer que nunca te demos educação!” O pai berrava estas palavras – e outras, como sabemos – e, a dado momento, julgou-as vãs e sem préstimo. Portanto, um dia tirou o cinto e segurou-o de maneira a poupar a fivela. 
No dia seguinte, o filho voltava pela vereda ao lado da casa. [Ali havia muitos eucaliptos; por causa do cheiro que exalavam, com frequência o rapaz se recordava que a mãe lhe punha, à cabeceira, folhas destas árvores para apaziguar a tosse e a respiração. Recordava e desejava que estes gestos nunca tivessem cessado. Não tinha maleita física – mas nesta idade às vezes custava-lhe respirar.] Bem: a mãe, que observava sorrateira, viu-o esconder algo num buraco na terra. Deixou-o entrar, ignorou-o – como já era costume – e foi apanhar o que era suposto ficar oculto. Quando o pai chegou, ela mostrou-lhe uma revista, suja e enrolada, e disse: “Vê as poucas vergonhas que esse estupor anda a ver.” O pai tirou o cinto – e dessa vez decidiu não poupar a fivela.
[Voltemos ao início.]
No fim das escadas, ao alto, encostado à parede: o filho esperou, tremendo, como em face de um perigo mortal – ou, pior, de uma profanação. O pai subiu. O filho empurrou-o pelas escadas abaixo.
O corpo caiu, arrastado, colidindo como se fosse regido pelo ritmo de uma marcha militar. Nesta eternidade, ao filho, que não conseguiu pestanejar nem virar a cabeça, cresceu-lhe uma náusea que lhe ensurdeceu os ouvidos. A claustrofobia negra e sôfrega alojada neste coração era agora completa. O abismo viu, finalmente, o seu fundo.

[Crónica publicada no JM, 08-VII-2017, p. 2.]

sábado, 24 de junho de 2017

Crónica 78 [Inferno]

Uma mulher grita porque, entre o fumo e a densa copa das árvores, vê a primeira língua do fogo que subia a encosta. [No topo estava a sua casa.] Perto dali, um casal lança mão de uma mangueira e de um balde com uma alça que rompia as mãos. Têm – e sabem-no – apenas água e força e exaustão para dar.
Entre a névoa fulva, sobre as telhas de uma casa, um homem vigia de braços cruzados o caminhar do fogo – que se aproxima vindo de este, de oeste, de cima, de baixo. Protege os olhos com óculos escuros – nada mais tinha à mão – e sobre o nariz e a boca apertou um tecido humedecido. Os vizinhos vislumbravam esta figura bíblica, que ficava imóvel durante horas, e dela colhiam um módico de alento e de coragem.
As labaredas chegam e há homens e mulheres e crianças que correm, que gritam, que digitam números nos telemóveis, que tossem, que matam o lume com água, com ramos, com panos, com os pés, com as mãos, que destrancam carros esquecidos para não arderem, que põem a salvo garrafas de gás para não explodirem, que soltam os animais, que esquecem os animais, que não conseguem respirar, que tapam a boca, que tapam os olhos, que cobrem as bocas e os olhos e os corpos dos filhos, que fecham bem as casas, que não conseguem respirar porque o ar é negro de fumo e saturado de faúlhas e de cinzas, que entram em casa para poder respirar, que não abandonam os seus lares, que correm para os vizinhos, que recusam fugir após ordens das autoridades, que pedem a familiares para levarem as crianças para que eles possam ficar para trás, aflitos porém mais descansados, que caem e se levantam, que choram, que se esquecem de instintos de sobrevivência, que só têm instintos de sobrevivência, que não desistem, que acabam por desistir, que se lembram de tempos doces e de horas de trabalho e de dias de descanso e de eternidades de aflições – aflições que não estas –, que não sabem se são lutadores ou heróis, se são resistentes ou sobreviventes.
No cabeço que amanhece negro, com a terra ainda quente sob as botas, entre as árvores decapitadas e esventradas pelas labaredas vê-se a raiz de um eucalipto que ainda tem no seu seio a gestação de carvão. Não há fumo, não há lume – há apenas um crepitar que brota com manha, zombador, como se quisesse crescer despercebido. Um homem vê isto e atira muitas pazadas de terra. O crepitar é sufocado.
Longe, para lá de uma vedação de ferro retorcido, de plástico liquefeito e caído ao chão, há os cotos calcinados de uma vegetação raquítica, que durante a noite ardeu longe dos olhos dos homens. Entre a vegetação um eucalipto permanecia alto, incólume – como se se vangloriasse da sorte, do desvio do vento que o subtraiu ao infortúnio.
Um homem desce a um dos seus poios. Na ameixieira, ele vê os frutos cozidos, tintos e enegrecidos, pendentes dos ramos que sobreviveram. O fogo, pensou o homem, matou-lhe a ameixieira como se ela tivesse sido lançada para dentro de um forno. [Morreram-lhe muitas árvores, mas aquela não.] Com fuligem na cara e dois dias e duas noites de vigília, o homem pega num machado e numa foice de mato. “Tenho de limpar isto. O que foi – foi. Se voltar, vai ser pior.”
[A tragédia de Pedrógão Grande, nos últimos dias, trouxe-me memórias vistas e contadas dos incêndios neste rincão madeirense – em 2012, 2013, 2016. Quando é que o nosso Portugal se livra deste inferno estuporado?]

[Crónica publicada no JM, 24-VI-2017, p. 2.]

sábado, 10 de junho de 2017

Crónica 77 [Vizinhos]

A mulher entrou no quarto e farejou o ar peganhento de medo – as narinas do filho eram verdadeiros foles, insuflados pelo que vinha a caminho. A mãe apanhou o vime de cima da mesa, onde este instrumento descansava nas horas desempregadas, e cerrou-o bem na mão. Este maestro, com esta batuta – frenética –, iria dar começo ao concerto e ao bailado do dia. 
“Qu’eu – já – t’disse – [a cada berro, a cada sílaba rugida, descia ou subia o vime] p’ra – nun – ca – mais – t’a – tre – veres [o filho, de voz a tremer: “ai mãe, pel’amor de Deus”] – qu’eu – rach’-te – os – ossos – seu – estu – por [e assim continuava].”
O pai era mais austero – não apreciava tragédias longas, dramaturgia elaborada, tempos calmos enchidos com lágrimas e correrias de evasão. O pai era mais seco. Uma mão, aberta ou fechada, de uma só vez, era o suficiente para acometer o filho, que certa feita passou por cima do sofá, à conta da força empregue.
Uma comunhão estranha, a desta família. Os pais irmanavam-se nos castigos ao filho – e o filho transgredia e recebia castigos como quem aceitava uma dádiva e estabelecia um elo. [Não havendo carinhos de mãe e de pai, um vime ou uma chapada já eram alguma coisa – já eram um veículo de comunhão.]
Neste bairro ruidoso, os vizinhos iam sendo espectadores destas coisas quotidianas. Alguns viam com escândalo; outros não – enfim, não sendo hipócritas, não se podiam indignar com o que se passava em casa alheia quando na sua própria casa rareava a dignidade.
O casal do número ao lado, a quem o filho dos vizinhos tinha partido uma vez três ou quatro cântaros de sapatinhos, era quem mais se afligia com os gritos e os uivos. Este casal não tinha filhos e, por isso, suportavam-se, marido e mulher, da forma mais correcta que encontraram. A mulher, doméstica e boa costureira, envergava uma compleição melancólica de que o marido, um bom pedreiro, tentava, com trabalho incessante e pesado, evitar o contágio. [Tentar, tentava. Não conseguia.]
Uma vez disse ele à mulher que estava a precisar de um ajudante para os biscates do fim-de-semana. Ela ouviu mas não soube o que responder. O marido dirigiu-se aos vizinhos da casa ao lado, avistou-os, disse boa tarde e pediu para falar com eles. Para dar suporte às palavras, levantou a mão hesitante, sem ameaça, e disse que precisava de um servente: tinha reparado que o filho dos vizinhos já tinha idade e tamanho, pensou que certamente teria força, que talvez fosse bom para ele, que se calhar dava-lhe jeito dinheiro para a escola, que estava disposto a levá-lo e a pagar-lhe, que…
O pai, desconfiado – não disse, não diria, palavra nenhuma –, encolheu os ombros. A mãe atalhou logo: “Leve, leve. Leve ele. Se quiser pode ser durante a semana. Ele também nunca deu nada p’rá escola. Nem p’rá escola nem p’ra nada.”
Destarte, o vizinho pedreiro tomou a seu cargo o vizinho rapaz e encetou, com ele, um trabalho incessante e pesado – um trabalho de construção de dignidade. Ensinou-lhe a manejar materiais e ferramentas toscas e precisas – e a ser educado; ensinou-lhe a levantar casas – e a respeitar e ser respeitado. O rapaz aprendeu uma arte – e aprendeu, afinal, a ser homem.
Anos volvidos, o rapaz desta história, já adulto, falava com um amigo dos idos da adolescência, que nunca tinha saído do bairro. Recordavam as malhas que levaram e o amigo, jocoso, disse: “Então tu… eras um triste”. Ele devolveu: “Eu… eu tive sorte.”

[Crónica publicada no JM, 10-VI-2017, p. 2.]

sábado, 27 de maio de 2017

Crónica 76 [O Carvoeiro]

Ele levantou o copo e segurou-o entre os olhos e a luz difusa do tecto: “Olha, vê como ‘tá clarinho. Isto tem parte de americano e parte de canim.” Disse isto e engoliu de uma vez, de boca e garganta abertas, o quarto de litro. Depois bateu com a base do copo na mesa, baça de sebo. “Pega mais”: e, do garrafão de plástico, deitou num copo pequeno – já não de quarto de litro – do mesmo vinho. Tentei impedir – ele não fez caso. Tentei alvitrar uma escusa – mas subiram-lhe os cantos da boca, contraídos de desaprovação. “Vai, bebe.” Eu bebi – e ele narrou. 
“Contaram-me, quando era pequeno, que o meu bisavô, parece-me, naqueles tempos dos antigos…”
O bisavô, ou outro ascendente para ele remoto, subia sozinho às serras, sem dizer a ninguém o destino concreto. Levava semilhas e inhame – sempre coisa pouca para uma jornada de tempo e desfecho incertos. Procurava um lugar de boa e alta vegetação – o mais encoberto possível. Ali trabalhava e dormia os dias precisos. Cortava uma ou duas árvores; abria um buraco na terra; deitava nele as árvores defuntas e ferrava-lhes lume. Logo que as labaredas levassem bom avanço, jogava-lhes terra em cima – de jeito a fazer uma fornalha subterrânea, vagarosa e fumarenta. Era um alquimista desesperado, esfomeado. Da madeira ele queria fazer carvão.
E carvão haveria de ter – para vender, na cidade –, contra a lei e os outros homens: os fiscais; os pastores com o gado e os camponeses que vinham recolher lenha. Contra, afinal, todos os estupores malditos – diria ele com certeza –, que deviam se meter na vida deles e não impedir um homem de matar a fome. [E também a sede – parte do dinheiro ganho seria deixado em tabernas de vinho e aguardente.]
Este homem tentava passar despercebido nas serras – como se fosse uma versão obscura de um fauno. Mas era difícil: do lugar onde exercia o seu múnus subia fumo; até, por vezes, um qualquer descuido tornava a floresta em redor num viveiro de labaredas; e, no fim da tarefa, recolhido o carvão, ele virava costas a uma cavidade vazia e enegrecida na terra, que assim ficava como o vestígio de um qualquer ritual pagão.
Por isso, na verdade, acabava-se por saber que havia um carvoeiro na serra. E, da mesma forma que ele entrava, tentava sair – rapidamente e sem estardalhaço. Trocavam-lhe, todavia, numa ou noutra ocasião, as voltas. Num dos primeiros regressos sofreu uma emboscada por camponeses – um magote deles. Não alcançou a sair ileso – duas foices, em mãos diferentes, abriram-lhe um talho no braço e traçaram-lhe, na testa, uma linha que se tornou cicatriz contínua, profunda, roxa, como uma segunda fileira de sobrancelhas. A realidade é que, ou por fome, ou por vingança, este homem – ou outro como ele, também de mãos negras – deitava por vezes a mão a um cabrito transviado.
O meu interlocutor parou a narração e deitou mais vinho nos copos. Eu estranhei a abundância de pormenores relativos a um passado que ele não tinha presenciado. Ele disse que sempre gostou de ouvir histórias e que esta, em particular, era-lhe cara. E assim acrescentou: “Parece-me que até podia ser eu, não é? E quem é que ia se pôr a julgar?”
E rematou, usando palavras que eu não esperava e que não recordo com exactidão – talvez por causa do vinho. Mas a mensagem era esta: havia, nas entranhas esconsas desta terra, um ódio feito de disputa, transgressão, vigilância, sangue e lume. Havia – e há, nas entranhas e na superfície.

[Crónica publicada no JM, 27-V-2017, p. 2.]

sábado, 13 de maio de 2017

Crónica 75 [Cães]

Ponho no papel alguns fragmentos rasgados de histórias.
Um homem confessou que, quando jovem, poucos momentos lhe eram tão gratos como aqueles em que se refugiava no quarto – a virar fólios de poesia – acompanhado do seu cão, que ficava deitado na cama. Eram audíveis apenas as respirações sintonizadas de ambos, homem e animal, em comunhão silenciosa.
Uma avó avisou os dois netos – o cão já não tinha direito a um lugar entre a família. A roupa no estendal havia sido passada pela máquina trituradora dos caninos do bicho. Portanto, o cão teria de ir embora – e que eles, os meninos, ficassem cientes disso. Eles arregalaram os olhos de medo; porém, minutos depois, estavam ocupados com brincadeiras, com outros pensamentos. Um dia deram pela falta do cachorro mas concordaram, sem preocupação, que andaria nas vizinhanças a deambular – e que voltaria, como todos os dias voltava, para casa. Desceram à cidade. De dentro de uma carrinha – o veículo do canil para transporte de animais –, um cão, que reconheceu as suas vozes, largou a ladrar com desespero. Foi a vez de os meninos reconhecerem, com comoção: era o seu cão que ladrava, que ali estava em prisão, que de casa tinha sido expulso, para sempre.
Um rapaz a entrar na puberdade era alvo de zombaria pelos rapazes mais velhos da casa ao lado. A zombaria tornou-se violência – davam-lhe um carrolaço furtivo quando passava na vereda de terra batida. O rapaz foi aguentando, calado, durante meses. Na volta de um dia de escola, encontrou na vereda o cão dos vizinhos – uma bola inerme de pêlo que mexeu a cauda quando o viu. Aos olhos dele, o animal pareceu patético. Pensou o rapaz, furibundo, que não era tarde nem era cedo. Seria aquela a sua vingança. Puxou a culatra do pé atrás e deu um pontapé – como se quisesse chutar uma bola de futebol pelos ares – na mandíbula do cão. Ouviu-se um som único, metálico, de osso contra osso, de dentes a bater em dentes.
O adolescente tinha exames nos dias seguintes e estudava os manuais, como peripatético solitário, no quintal da casa. Solitário, não – o cão da família estava deitado à sombra e virava o focinho para o deambular do estudante, o qual, por sua vez, para fazer a revisão da matéria, olhava para o cachorro e explicava em voz alta. O bicho abanava a cauda e fazia subir e descair as orelhas. Anos depois, a mãe ligou ao jovem adulto, que já estava na universidade. O cão tinha-se arrastado até à porta de casa e aí havia tombado, a espumar. Tinha sido envenenado.
[Como acontece amiúde nestas crónicas – nestas histórias –, começo por querer narrar coisas suportáveis, contentadas. Mas os dedos sobre o teclado acabam por dedilhar palavras outras. Neste caso, e em substância: digo o que vi – e o que vejo; falo do que me contaram – e do que me contam. Há cães soltos e desguardados; cães assustadiços e de olhos aflitos no meio do asfalto após as chuvas; cães abandonados longe do lar, para que não encontrem o caminho de volta – que perseguem, nos primeiros quilómetros, o carro que o dono, de olhos no retrovisor, faz acelerar; cães acorrentados; cães presos por correntes curtas e apertadas como garrotes; cães com correntes que lhes corta a carne; cães atolados em imundícies; cães de pêlo a cair, de peles despregadas dos ossos. Cães – que, na sua desgraça, são vítimas e testemunhas do atraso civilizacional dos homens.]

[Crónica publicada no JM, 13-V-2017, p. 2.]

sábado, 29 de abril de 2017

Crónica 74 [O Regresso]

Ele encontrou um velho camarada de armas e disse-lhe, com entoação nas primeiras vogais: “Ah homem, ainda não morreste?” Ambos riram. Cada qual falou as poucas palavras típicas deste tipo de avistamento – na rua partilhada por peões e carros, à porta da tasca. [Ele ia a entrar. O outro ia a sair.] Ninguém convidou ninguém para um copo – ou para mais um copo. Tinham coisas a fazer, coisas em que pensar – pouco dinheiro; e pouca saúde. Despediram-se – e as caras vestiram-se de um ricto de embaraço, amarelado, cúmplice.
Ele entrou depois, cumprimentou a funcionária e sentou-se – como costumava fazer, uma vez ao dia, a meia tarde. Para ele, reformado, era este o marco do dia – a fronteira a partir da qual desenhava um antes e um depois. A mulher ainda trabalhava. O neto raramente estava com ele. A casa estava vazia. [A tasca também – mas não havia problema.]
A bica chegava-lhe à mesa, sem precisar de pedir. Durante alguns minutos – os necessários, os suficientes – ficava a olhar para a porta. Os carros, rápidos, temerários e de vários matizes, que por vezes pareciam fazer tremer o umbral do estabelecimento, não lhe enxotavam o olhar fixo.
Nesse dia lembrou-se de um outro camarada de armas, que com ele esteve em Angola. Vários anos depois de voltarem, encontrou-o no Funchal, na Rua Fernão de Ornelas, descalço e de grenha empastada de sujidade. Estava sem casa e sem família. A partir daí, quando o via dava-lhe um cigarro e uma moeda, de cem escudos – inflacionados, no novo milénio, para um euro. Era certo e fatal – tal como era fatal ele acompanhar estas dádivas de uma resonda breve e mastigada. [O amigo sorria e começava uma conversa alheada, como quem tentava dissipar a reprimenda.] Dizia-lhe, mesmo passadas três décadas do regresso do mato em África, com ênfase no primeiro erre: “Ah rapaz, o que tu eras e o que tu és!”
Pensava ele nisto – no amigo; nas vítimas perenes da guerra – quando a funcionária do bar lhe perguntou se ele iria à serra, no 1.º de Maio. Ele levantou a cabeça. Ela repetiu e acrescentou: o 1.º de Maio; feriado; Dia do Trabalhador. Ele riu como quem tosse, como quem não se importava com isso.
Baixou a cabeça, bebeu de um trago a bica sem açúcar e regressou ao novelo de memórias por desemaranhar. Uma memória, tão macerada de tão convocada, começou com parte da Companhia a seguir o jipe. Os homens sabiam o que tinham de fazer: os pés tinham de pisar os exactos lugares desenhados pelo rodado da viatura – nem mais à esquerda, nem mais à direita. Até ver, pelo menos aquele trilho duplo estava livre de minas. Um amigo, que adiante dele caminhava, com a G3 ao lombo e os braços sobre a arma – o direito caído da coronha, o esquerdo pendente do cano –, distraiu-se. O pé direito pousou meia dúzia de centímetros fora das marcas dos pneus e uma mina deflagrou.
A funcionária interrompeu este fluxo de sangue e estilhaços: perguntou-lhe se tinha feito alguma coisa especial dias antes, no 25 de Abril. Ele ficou imóvel. Ela repetiu e ajuntou: 25 de Abril; feriado; Dia da Liberdade; cravos vermelhos. Ele olhou-a e sorriu, com cansaço e bondade.
A medida do dia estava completa. Levantou-se, pagou e saiu. Na rua acendeu um cigarro, que o fez tossir com o pescoço e com o peito.
O homem que foi para a guerra em África não foi o mesmo que veio – assim pensou. E logo simplificou: talvez não tivesse regressado – talvez o regresso nunca tivesse sido possível.

[Crónica publicada no JM, 29-IV-2017, p. 2.]

sábado, 15 de abril de 2017

Crónica 73 [A Carga]

Ele orgulhava-se – sem bazófia, sem fazer gala disso – da força que tinha. No mercado, enchiam-lhe os maiores cestos de vime com bananas. Ajudava-se ao peso – de setenta, oitenta quilos – e, com a base do cesto como uma cunha a lhe trincar o lombo esquerdo, subia, correndo, os degraus até o andar superior. O patrão ficava contente: um dia elogiou-o dizendo – com um jeito trôpego – que era um bom burro de carga. O homem, de pequena estatura – pouco mais de metro e meio –, aceitou como pôde o elogio e viu-se dilatado nos seus brios.
Trabalhou no sector da banana – carregando, outrossim regando, cavando e mondando de joelhos a terra até as unhas começarem a sangrar. Andou depois nas obras, e o encarregado, que lhe apreciava a afoiteza, a desenvoltura e a força, nomeou-o responsável pela condução dos trabalhos nas suas ausências. O homem tanto vestia um pano de parede em tempo inédito como, para dar o exemplo aos serventes – apesar de a isso não estar obrigado –, carregava três sacos de cimento de uma só vez: um às costas, os outros à laia de braçados, cada saco cingido por cada braço.
De maneira que era assim a vida, desde a adolescência – trabalho, trabalho, trabalho. Nada havia de excepcional nisto. O homem, em menino, cresceu vendo pai, tios, irmãos e primos mais velhos – todos baixos, troncos secos; todos bois de força – acorrerem na maré baixa à praia e encherem sacas de areia molhada, que transportavam, à centena de quilos de cada vez, até aos sítios altos da freguesia. Viu isto – e outro tanto. E o que foi vendo, no que ao trabalho concerne, haveria de ser o seu destino – sem drama, sem fatalismo, sem consciência até.
[É bom de ver que estes homens são de molde a envelhecer cedo – de trabalho e de álcool. Amiúde são acometidos de uma trombose. Cedo entrevados e embrutecidos, com os ossos torcidos das cargas, tornam-se, naufragados a um canto da casa, trastes ébrios dedicados a massacrar e a condenar as almas dos familiares. Estes comportamentos também os foi observando o homem da nossa história – agora, todavia, com um certo pressentimento de desgraça.]
Com vinte e picos anos de idade, o homem juntou-se com uma mulher, após um namoro sumário e alegre. O neófito casal foi viver com a família dele. Foi dada autorização para levantar um piso sobre a casa paterna, que era um completo ninho onde coabitavam três gerações e inclusive parentes colaterais. O homem assentou blocos, armou cofragem e deitou, com familiares e amigos, a laje final. Esta tarefa, como se costuma dizer, deu vela – às quatro horas da manhã ainda um verdadeiro cordão humano passava, de braço em braço, baldes de massa.
Mas depressa a convivência se tornou um inferno. Entre pais, sogros, irmãos, cunhados começou um fluxo peçonhento de bilhardices e invejas, de rancores e ressentimentos. Rumores tépidos subiram a gritos. O patriarca, falho de discernimento, optou por culpar o casal recém-chegado – que entretanto tinha tido um bebé. Demente à força de aguardente e por falta de paciência e compreensão, numa noite o pai chamou o homem, o seu filho. Disse-lhe que, se no dia seguinte ele ainda ali estivesse, o mataria, assim como à mulher e ao filho, e cavaria um buraco na fazenda para os enterrar.
No dia seguinte já não estavam. Para o homem, esta carga foi a mais pesada que alguma vez teve de carregar. Uma carga que nunca poderia ser aliviada. Uma cruz.

[Crónica publicada no JM, 15-IV-2017, p. 2.]

sábado, 18 de março de 2017

Crónica 72 [O Rapaz]

No campo batido de chuteiras rotas e ajoujadas – um dos jogadores calçava-as assim, e eram as duas de diferentes qualidades –, o rapaz bolinava contra uma corrente agressiva com a bola, que rolava entre cá e lá, fazendo tabela entre os seus dois pés. Driblou este; confundiu aquele, que ficou para trás; e deixou sentado no chão aqueloutro – o qual, despeitado, desembestou em perseguição e, aproveitando o ressalto da bola até ao nível das cabeças, levantou a pata calçada aos queixos do rapaz. Efeito: sangue a cair de um furo na pele – dor a cair de uma ferida no orgulho.
Era um molho de ossos, o rapaz, e afligia-se por tal razão a mãe, as tias, a avó. Não havia maneira de criar corpo este púbere, a quem a mãe levantava a t-shirt – de nada valiam protestos envergonhados – para mostrar à vizinhança uma pele esticada e cava sobre uma rede de ossos que mais pareciam arame farpado ou espinhas que cortariam como facas de talho. Portanto: um trinca-espinhas – ou chupa-espinhas, como lhe chamava o pai, trocista –, das órbitas oculares até aos pés – que eram os instrumentos únicos que tinha para se afirmar, na escola, depois da escola, no clube, fosse onde fosse. Onde havia uma bola – onde havia quatro linhas e duas balizas, ainda que imaginárias – ele não era magro, não era fraco: era eficiente, admirado e odiado.
De pronto, porque a inveja e o ressentimento nunca dormem, e os métodos de meter alçapões e armadilhas no coração de outrem são infindáveis, os rivais, para além da violência, descobriram o ferrete do ridículo. Por isso passaram a chamá-lo “bailarina” – quando lhe chegava a bola aos pés e ele arrancava contra a baliza contrária, ou em qualquer outra ocasião, dentro ou fora de campo. Quando ouviu este apelido pela primeira vez, atrapalhou-se com a bola de catechu, levou uma canelada – o treinador não viu nada – e foi com a testa à terra. Virou-se, sentou-se e, com os olhos ensopados de raiva, mordeu os canhotos da mão direita. As gargalhadas duplas – pela alcunha; pela queda – ficaram, alarves, a lhe zunir nos ouvidos tapados.
Não havia forma de criar corpo – nem, com efeito, pêlos, na cara e no corpo. E por isso também era gozado, principalmente no balneário do clube. O rapaz explicou à mãe que tinha vergonha, que os outros, da mesma idade – na verdade, alguns mais velhos –, zombavam dele porque era um rato seco, um esqueleto bailarino, e agora uma galinha sem penas. De facto, começaram a multiplicar-lhe os apodos. A mãe, sempre aflita, afagou-lhe o cabelo sobre a testa e rogou-lhe que não desse troco. O pai, que soube pela mãe – não pelo rapaz, porque não havia, ainda não havia, essa relação entre pai e filho –, disse-lhe, categórico, que deixasse de ser um medricas e que começasse a dar uso aos punhos. Nada disto fazia sentido ao rapaz – porque sabia, perspicaz, que nada disto resolveria o problema.
No fim de um treino, no duche, os outros rapazes gargalharam, rotineiros, das características do rapaz – e ajuntaram comentários relativos à falta de pêlos púbicos e ao tamanho dos genitais. O chefe da turba atreveu-se, ademais, a pronunciar calúnias sobre a família do rapaz. Ele reagiu – com todo o seu corpo franzino. Efeito: levou uma malha; caindo no chão de tábuas molhadas do balneário, pontapearam-lhe as pernas – sobretudo as pernas.

[Crónica publicada no JM, 18-III-2017, p. 2.]

sábado, 4 de março de 2017

Crónica 71 [Aranhas]

Existem os animais domésticos que adoramos, que convidamos ao nosso convívio, a que chamamos família. E depois existem os outros – como, por exemplo, as aranhas. 
Nada sei sobre estes invertebrados, mas, numa noite de insónia, imperativa e indomável como uma aranha que nos invade a casa e o pensamento – como um abraço de oito patas –, sou levado a lavrar alguns farrapos de histórias – a acrescentar o meu pouco ao registo transitório do mundo.
Havia um menino que, em momentos de raiva e frustração, saía de casa e, no quintal, olhava para o alto e desfazia-se em brados e exclamações. Numa dessas acometidas, visou e culpou Jesus dos seus males – o mesmo Jesus que, diziam os adultos, chorava quando ele se portava mal. [Afinal, pensava e perguntava o menino: se o Jesus era tão bom e amigo das crianças, por que razão se sentia tão miserável?] Numa dessas acometidas, falava com o Messias e viu, reparando até que o silêncio lhe engoliu a garganta, uma aranha, suspensa numa névoa branca de fios. Era bicho hediondo e severo, do qual sentiu um abrupto medo. E foi um medo que se traduziu – como acontece com muitos medos – num certo fascínio, ou em magnetismo ou perplexidade. [A aranha seria, com grande probabilidade, uma aranha-maria, de seu nome comum.]
Uma menina estava a brincar no chão da sala-de-estar. Levantou-se, pequena, para abrir as duas janelas – era precisa luz para ver melhor os carrinhos. [Sim, esta menina brincava com carros – não havia ali bonecas carecas.] De uma das janelas brotou um aranhiço – talvez, de seu nome comum, uma aranha-das-patas-longas. [Nada de preocupante, nada que oferecesse ameaça, diria um adulto – afinal, não era nenhuma tarântula das Desertas.] A mãe, apressada e prestimosa, limpou a janela do intruso, e tentou sossegar a menina. A verdade, porém, é que nunca mais voltou a criança – rodaram os anos; a menina tornou-se mulher – a se aproximar. E ficava, por vezes, a fitar a janela – esta e outras janelas, nesta e noutras casas.
Um homem tinha, à janela do quarto de dormir, uma agave, de pouco menos de dois metros. Na planta, esticada de folha a folha a folha, estava a casa fiada de uma aranha. [Seria talvez uma aranha-das-tabaibeiras; enfim, não era uma tabaibeira o que se via, era uma agave – mas ao redor era o que se arranjava.] Ao fim do dia, o homem, antes de entrar à porta de casa, fumava mais um cigarro e deitava as cinzas na teia da aranha. Divertia-se, nesta brincadeira sem caução da idade, em ver a aranha, eficaz, saltar de pronto sobre a gota de cinzas e emaranhá-la como se fosse uma mosca ou outro insecto alado. Ao início a aranha fazia isto; depois, foi levando o seu tempo a agir e acabou por ficar imóvel, ignorando assim este logro servido pelo bípede galhardo. [Da parte do homem, não era só feita de folia esta interacção. Por vezes fixava, esgazeado, a aranha – e o pensamento fugia-lhe para outros lugares. Deve ser notado que este homem escreveu, sobre este episódio que estamos a narrar, um torpe poema desalinhavado.] Um outro dia, voltando do trabalho, reparou que jardineiros – uma horda de jardineiros, desordeiros e facínoras como hunos – haviam mondado o jardim à sua janela e cortado as folhas carnudas da agave, demolindo a casa da aranha. Pensou, melancólico, que não esteve ali para guardar e salvar o aracnídeo.

[Crónica publicada no JM, 04-III-2017, p. 2.]

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Crónica 70 [A Gata]

A gata apareceu um dia e ali ficou.
No início, estranhou-se a aparição felina. Sem demora, contudo, arranjaram-se recipientes para água e para os restos da mesa, que foram postos à porta da casa. A gata foi governando assim a sua vida – aparecendo; desaparecendo. Os mais novos da família passaram a dedicar-lhe afagos, o que valia repreensões da mãe, pensativa dos lugares onde o bicho andava quando não era visto. Mas até os adultos se renderam. Nesta convivência, foi transposto o umbral – e ao bicho acabou por ser consentida a entrada, tentada e insinuada, na habitação cálida e ruidosa de gente.
A gata veio a se mostrar agradecida e a oferecer tributos aos beneméritos. Era, íamos esquecendo de dizer, preta, com algumas malhas brancas – nada fora do usual, portanto. Mas intrigava os humanos o facto de este padrão cromático ser perturbado por umas manchas tintas que o felino por vezes apresentava no focinho. Uma cor tinta – ou um vermelho desfalecido. Com efeito. A resposta para este enigma trouxe clamores de nojo e de medo à casa. Um dia, no tapete que ficava fora da porta de entrada, a gata tinha deitado o seu primeiro produto de homenagem, ao lado do qual se sentou, orgulhosa, à espera do reconhecimento. Era uma ratazana, morta, esventrada – um bicho de dois palmos de mão adulta, fora a cauda. Um dos filhos viu, deu o alarme, a mãe gritou, a filha gritou, os filhos ficaram maravilhados pelas aptidões guerreiras do felino. Face aos ruídos, a gata, confusa, desconfiada, balançou várias vezes a cabeça. Depois fugiu, perante o clamor crescente.
Em todo o caso, não desistiu – e voltou a tentar, mas de um jeito mais incisivo. Na ocasião que se seguiu, outro rato, do mesmo tamanho, foi depositado dentro de casa – e a gata voltou a postar-se, altiva, expectante. Neste ensejo, teve de fugir de imediato – a acompanhar as exclamações de horror, um sapato quase a atingiu. Mal-agradecida família – diria com certeza a gata, se falasse.
Esta família, nos dias defesos de trabalho, dividia-se entre o sofá e os cadeirões coçados e ficava assim aninhada. Na pequena sala-de-estar estendia-se um cobertor que conseguia alcançar, aéreo, todas as pernas e todos os braços friorentos. Um dia a gata – sem os bigodes tingidos de escarlate – subiu para o cobertor. Foi enxotada. Voltou a saltar. À terceira ou quarta vez deixaram-na ficar.
Tendo sido permitida esta convivência mais estreita – e já perdoada pelas oferendas hediondas que trouxera –, a gata deitou-se, num domingo frio de Fevereiro, sobre o cobertor. Estava a família com a atenção presa num filme qualquer. O bicho começou a lamber-se de um modo vigoroso que um dos filhos, inocente, achou estranho. Ninguém mais notou, imersos que estavam na televisão. De repente, da sua goela saiu um grito pungente. A mãe, que já tinha notado que a gata andava mais gorda – estaria prenhe –, disse: “Ela vai ter os gatinhos agora!”
A família tirou o felino da sala e trouxe-o até à entrada. Ali puseram um trapo velho. Viram, com compaixão e assombro, surgir uns gatinhos – cinco tostões de felino, a tremer de vida – que a gata-mãe ia lambendo, entre sofrimento e cuidados.
Um ou dois anos depois, a gata deixou de aparecer. A família nunca lhe deu um nome – nunca sentiu essa necessidade.
[Esta história, que aqui fica a despropósito, veio-me à ideia quando alguém me disse algo que tange mais ou menos assim: orgulhosos, altivos, nómadas, caprichosos – há pessoas que se julgam como gatos; mas quando caem, não caem de pé.]

[Crónica publicada no JM, 18-II-2017, p. 2.]

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Crónica 69 [O Sangue]

Era um dia ofegante – de uma luminosidade baça e coada por um céu forrado. Era a escola primária, de portões franqueados, ou arrombados, ao fim-de-semana. Estava ele, e outros miúdos, a correr no espaço do recreio e no campo de futebol, na escola enfastiada durante a semana de aulas, e apetecida nos dias de descanso e férias. Por alguma razão inaudita, nesse dia estavam ali dois homens – os pais de dois dos companheiros de brincadeira.
A brincadeira era a apilhagem: uma prova de atletismo de escassos metros variáveis com barreiras – muros, pilares, vedações –, sem descanso ou preparação, num cenário de guerra furtiva. Eram todos contra todos, e todos presumíveis – e súbitos – inimigos, quando tocados por um braço alongado como um florete.
Também ele, a certa altura, sofreu uma estocada e se tornou perseguidor. Conseguiu roçar a camisa do amigo distraído que estava por perto, e irrompeu triunfante e orgulhoso em correria, olhando para trás. Quando virou a cabeça já era tarde – chocou contra uma aresta de um pilar de betão. O embate abriu-lhe a testa, que ficou assim dividida em duas partes iguais por uma fronteira cirúrgica e funda.
Não houve muito sangue – somente algum, no início. Rapidamente o sangue secou quase por completo, como se a lâmina da aresta tivesse, no mesmo golpe, cortado e cauterizado. Ele ficou atordoado, lacrimoso, e os primeiros sons que os ouvidos receberam, após o acidente, chegaram abafados.
Os dois adultos aproximaram-se e a ajuda que deram foi como segue: riram-se; disseram-lhe que fosse para casa – que ficava a uma distância de mais de três quilómetros; e ainda sugeriram que, para que o sangue não desse em escorrer pela cara, caminhasse de testa para o ar.
A mãe, quando o viu, quase enlouqueceu de espanto e dor. Chamou de imediato um táxi e levou-o ao hospital, maldizendo sempre os homens que, na escola, não tiveram a dignidade de levar uma criança ferida aos cuidados médicos.
[No hospital fizeram um bom trabalho de costura. Mal lhe ficou um farrapo de cicatriz.]
Anos depois – sete ou oito –, ele estava na mesma escola, no mesmo lugar, com alguns dos mesmos camaradas. [Olhava, furtivo, a espaços, para o pilar – quase sempre o fazia, estando ali.] Era uma noite de vento e ornada a luar. A competição – não uma brincadeira – que os ocupava era... uma qualquer, acompanhada da violência da idade. Um dos que por ali andava ofendia-o com apartes triturados entre dentes.
Justiceiro e farto – farto de dias e de semanas –, ele derrubou o ofensor, que foi sentir a frieza do chão de cimento. Ambos se alinharam para o duelo. Formou-se logo em círculo uma matilha sedenta que, nos poucos uivos perceptíveis que emitiu, previu uma vitória dele. O outro, que se sentiu despeitado e despejado de padrinhos, chegou também à conclusão que não tinha corpo para dar cobertura às dívidas que, em forma de insultos, lhe saíram da boca. Com cobardia, colocou uma chave na mão fechada, e só precisou de um golpe, entre as taponas que ia levando... Rasgou-lhe a palma da mão esquerda. Ele, golpeado e a sangrar, fez uma coisa singular naquela idade: esfregou o sangue na cara do oponente. Depois, foi-se embora, sem triunfo mas com orgulho, a gotejar um sangue que demorou a estancar. Em casa, a mãe ajudou-o a tratar da ferida – que deixou uma lembrança de cicatriz.
Por acidente, por distracção, por ataque, por defesa, por automutilação – quando sangramos, quem cuida de nós?
[E quem nos acode quando sangramos sem se ver – e sem o saber?]

[Crónica publicada no JM, 04-II-2017, p. 2.]

sábado, 21 de janeiro de 2017

Crónica 68 [Opções]

Homens e mulheres há que me falam; e, ainda que raros, tenho os meus momentos de bom – ou sofrível – ouvinte. [Faço o que posso.] Resolvi-me a registar algumas das vozes que tenho ouvido.
«É assim esta tristeza pasmada – a de quem encontra no chão uma borboleta morta. Percebes? Ou nos curvamos e, com dois dedos em pinça, tomamos a borboleta para a palma da mão – ou acometemos uma das asas com o bico do sapato.» Disse-me ela.
«Lembro-me, tinha eu sete ou oito anos, estava só em casa – e o telefone tocou. Era – claro – um telefone fixo, preto, pesado, com um disco que girava como uma matraca. Tocou e atendi. Ninguém respondeu. Voltou a tocar – atendi. Do outro lado, um homem de voz etilizada e envenenada disse que ia matar o meu pai. Ainda hoje, salto quando um telefone – fixo ou móvel – toca. Na verdade, ou esqueço-me disto – ou lembro-me. Ou deixo ficar – ou vigio o telemóvel.» Disse-me ele.
«Sei que ninguém... Sei que pouca gente percebe, mas gosto da sensação de leve torpor que o álcool me dá – após três ou quatro ou cinco copos engolidos. É isso que me faz chegar ao fim do dia. Por vezes o entorpecimento, sem eu dar conta, caminha veloz – de leve a pesado. Cada dia – em cada fim de dia que passa – fica mais pesado. Ou paro – ou continuo a tentar chegar, deste jeito, ao fim do dia. Ou paro – ou então, diz-me o médico, vou chegar mais depressa ao fim da vida.» Disse-me ela – e riu-se.
«E passou-se isto. Ele subiu as escadas e, de testa franzida e voz rouca, pediu, do lado de lá do portão, para falar comigo. Não respondi – abri o portão. Ele murmurou duas ou três palavras. Acho que ouvi: “Eu peço desculpa.” Dei-lhe um empurrão – bateu com as arcas na parede e ficou sentado no chão. Ele, o meu irmão, levantou-se e, com altivez forçada – ele que nunca teve nenhuma, eu sei disso, a mim não me engana –, disse-me mais três ou quatro palavras antes de se ir embora. Julguei ouvir algo como: “Um abraço. Bom Ano.” Parecia impossível. Das duas uma: ou eu perdoava – ou… Mas perdoar é que nunca.» Disse-me ele – com uma altivez que me pareceu ser postiça.
«A coisa está deste jeito – sempre esteve, aliás. Abro o caderno, olho para ele, fecho o caderno, volto a abrir. Também poderia ser uma página Word, imensa, pálida, a pulsar nos milhares de pixels do monitor. Abro a página – fecho a página. Vou a tropeçar até à cozinha. Nem a lista das tarefas do dia seguinte – e o dia seguinte chega sempre demasiado cedo – consigo pôr no papel. Não consigo escrever – eu, que sonho escrever. Sempre sonhei, aliás. Ou faço o que devia fazer – ou tenho medo de falhar. É uma tristeza.» Disse ela. Perguntei-lhe se essa tristeza poderia ser, como alguém me havia descrito antes, a de quem encontra no chão uma borboleta morta. Ela disse que não percebia – que isso não fazia sentido.
«Deixemo-nos de lamúrias – ou, o que parece diferente mas é o mesmo, de moralismos.» Disse-me ele – e continuou a lamentar-se.
Estarrecidas, estas pessoas falam assim comigo. Não tomam opções – deixam, ao contrário, que as opções as tomem a elas, como um assalto ou uma agressão inevitáveis. [Digo eu, que não pretendo ser de diferente igualha.] O ano ainda agora começou e parece ser afinal a mesma coisa. Ano novo – ano velho. 

[Crónica publicada no JM, 21-I-2017, p. 2.]

sábado, 7 de janeiro de 2017

Crónica 67 [Os Perigos]

O homem queimou a língua – não esperou que o milho cozido, a fumegar no prato fundo, amornasse. A mulher riu-se e disse que, com esta comida, era sempre a mesma coisa. [É a época da Festa; este prato não é típico da quadra, mas é predilecto.] O homem encolheu os ombros, com a boca – e as orelhas – a arder, e provou a espada com cebolada, também a fumegar. Queimou outra vez a língua.
Concluído o almoço – acompanhado de uma garrafa de vinho, não menos –, disse o homem: “Vou ali – já venho.” Abriu o portão e saltou os degraus até à estrada. Encostou-se a uma parede – acto que nele era inusitado –, levou à boca o último cigarro do maço e passou o polegar sobre a roda de pedra do isqueiro. Olhou durante dois ou três segundos para a chama. Abrigou a pequena labareda com a mão livre e incendiou o cigarro. O fumo da primeira baforada – assim como das seguintes – saiu-lhe pelas narinas. [A pequenada da família, maravilhada, dizia-lhe que ele parecia um dragão.]
Na estrada vinha um adolescente de bicicleta. Ao passar em frente da nossa personagem principal, a cremalheira da bicicleta saltou – como uma espoleta com vida própria, e caprichosa. O homem que fumava levantou a cabeça e ficou a olhar aquele mecanismo, que pareceu ficar interrompido no ar. Quando baixou os olhos, ainda viu o corpo do adolescente ser atirado – como uma massa de braços e pernas desengonçados e emaranhados – para uns arbustos que já há muito tempo não mereciam a atenção de um jardineiro. [Tudo ficou novamente em suspenso.] Depois, quando estava pronto a ir em auxílio – com certeza que o rapaz tinha partido a púcara –, o homem viu sair o projéctil humano descuidado que a vegetação tinha recebido. O rapaz deu alguns passos; não parecia ter ficado magoado; não aconchegava ou massajava qualquer parte do corpo; veio à estrada, tomou a bicicleta; mais adiante, levantou do chão a roda dentada avariada; sentou-se no tratuário. O homem mexeu o queixo quando os olhos de ambos se cruzaram; no fundo, perguntava: “Tudo OK?” O rapaz levantou o polegar da mão direita; logo ergueu-se e escoltou, pela estrada fora, a bicicleta magoada.
Um Toyota de cor rubra aproximava-se da encruzilhada desta história. A condutora, uma jovem mulher, vinha sozinha, risonha e falastrona com o telemóvel colado ao ouvido. [A mão livre tinha de dar conta do volante e das mudanças.] Um pombo desembestado e confuso passou em voo baixo e foi de encontro ao chuvento da janela da condutora. [Por pouco o bicho não fazia companhia à jovem, no interior do carro.] Este choque obrigou a suspensão da marcha. A mulher, agora abalada, levou algum tempo a tomar sentido de si. Reiniciou a jornada apenas para voltar a travar, alguns metros adiante, com estrépito: uma adolescente que fitava o telemóvel – Pokémons? Facebook? – havia se atirado sem cuidado do passeio para o caminho. [De novo, um tempo suspenso caiu sobre esta estrada.] A condutora e a adolescente – só lhes lembrou sorrir, a primeira com nervosismo, a segunda sem isso.
Passadas estas cenas, e acabando-se o cigarro – tudo o que fica narrado passou-se durante um cigarro, sorvido com sofreguidão –, o homem resolveu voltar a casa. [Tinha a boca seca.] Atirou o cigarro ainda aceso ao chão e subiu as escadas. Não tinha reparado que na parede onde se tinha encostado estava um sinal que proibia fazer lume. Por detrás da parede estava um tanque de gás que servia o prédio onde vivia.
[Contra os perigos que nos espiam – e são muitos –, qualquer vigilância é pouca. Bom Ano.]

[Crónica publicada no JM, 07-I-2017, p. 2.]

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Crónica 66 [O Menino]

Acordou o menino; esfregou com os canhotos da mão a pálpebra esquerda, fazendo deslocar do seu lugar passageiro uma ou duas ramelas. Abriu bem os olhos claros. [Também poderiam ser castanhos estes olhos.] Pressentiu alguém na cozinha e levantou-se. Os aromas que enchiam este apartamento – que, pelo contrário, poderia ser uma humilde choupana – fizeram-no atirar-se certeiro, com os pequenos pés a bater completos na tijoleira – ou no chão de terra batida –, à mãe que cozinhava. Parou diante da progenitora, aprumado como um pequeno soldado às ordens do oficial, de queixo subido em esquadria com a ponta do nariz. Parou – e sorriu. [À espera: de um afago; e de uma taça de Chocapic com leite morno – que bem poderia ser, ao invés, um pão ázimo, quente e achatado, coberto de mel.] A mãe elevou-o até ficarem ambos nariz contra nariz. [Depois abraçaram-se.]
No escritório do pai – que poderia igualmente ser uma oficina de carpinteiro –, ficava por detrás da porta entreaberta a olhar para o interior, para os gestos do homem que folheava um dossier – ou que manejava uma plaina sobre uma tábua. [Fosse como fosse, caíam ao chão, sempre, papéis mal agrafados ou aparas finas de madeira.] O menino vigiava, vinha eu dizendo, o pai; e este, sentindo-o, voltava-se já sabedor da traquinice. A criança voltava a recolher-se atrás da porta, deixando todavia entrever o seu pequeno semblante, que oscilava para a frente e para trás, ora descobrindo-se, ora ocultando-se. O pai erguia-se e dizia em voz alta: “Quem é que ‘tá aqui? Quem é?” [Isto poderia ser dito em português ou, vá lá, em aramaico.] O miúdo levava a mão à boca, para abafar o riso. O pai abria a porta e alçava aquele corpo franzino, de tez clara – ou morena –, até ficarem ambos nariz contra nariz. [Seguia-se um abraço.] Depois, o pai libertava alguns minutos do trabalho e construía, para a criança, a partir de sobras, uma fisga – ou um origami.
Na cidade, ou no meio do deserto poeirento, esta trindade – pai, mãe, filho – passeava após cumpridas as obrigações religiosas. [Num domingo, pois; ou num sábado.] Encontraram uma família vizinha, outra trindade – pai, mãe e filha –, a quem cumprimentaram e com quem desfiaram um cordial novelo de prosa. O menino reparou na menina, de cabeça baixa e com uma lágrima, como um losango, a escorrer-lhe pela bochecha rosada. [Era uma carinha de camacheira a da menina – poderia, de igual forma, ser uma carinha trigueira.] Os vizinhos disseram que havia feito birra e que com ela tinham ralhado. O menino, que ouviu isto de olhos arregalados e pregados nos pais, pois sabia que também ele fazia birras – por causa de um tubo de Smarties ou uma mão-cheia de tâmaras –, aproximou-se da menina. Baixou a cabeça – o que lhe era raro –, afagou a bochecha molhada e aí lhe deu um beijo. Levantaram ambos os rostos e sorriram.
Os adultos não tomaram sentido desta cena – como também não deram fé de que, logo, se afastou o menino em direcção a um homem sem-abrigo, de cara flagelada pelo álcool – que poderia, como um fac-símile, ser outrossim um leproso de andrajos manchados de cor tinta. O menino parou, a um metro e meio desta figura de mão içada em concha, de quem todos se afastavam, e estendeu a mão – alta. O pai, que acabou por ver, deu um salto e veio recolhê-lo.
Esta criança poderia existir na Madeira contemporânea – ou na Galileia de há cerca de dois mil anos.
[Na véspera do Dia, é esta a minha crónica. Feliz Natal.]

[Crónica publicada no JM, 24-XII-2016, p. 2.]

sábado, 10 de dezembro de 2016

Crónica 65 [Duas Histórias]

O veículo branco cruzava as águas negras do asfalto. Quase tudo, naquele caminho, naquela ruralidade, era noite. De longe à lonjura, alguns oásis luminosos surgiam – postes de luz que deixavam perceber melhor linhas ora descontínuas, ora contínuas, acácias, eucaliptos, novelos. Ali, não era a escuridão que constituía o intervalo da luz. Ao casal que viajava somente restava confiar nos faróis vagarosos para aclarar a vista e expurgar destas profundezas caóticas algum rumo. Iam, ele e ela, em sossego, conversando, maravilhados pelo negrume primordial. Andados alguns quilómetros, entraram numa curva apertada de ângulo e de visão – entre as várias em que a estrada era pródiga – e ele, o condutor, obrigou-se a parar a navegação. [Não houve travagens ou guinadas bruscas.] Em cima da curva, no meio do caminho, estava uma figura – um homem, vestido de um preto total; ao lado dele, um animal, um cão – também de um preto incessante. [Estes entes existiam porque tinham contornos – pouco mais. Outro carro teria abalroado esta parelha sem cuidado.] Nem maravilhados já, nem assustados ao princípio – ficaram os viajantes estranhados com a aparição. O homem descoberto, de flanco para o carro, olhou e arreganhou os dentes, que surgiram alvos à luz dos faróis. [Mais tarde, o casal ainda discutiu, por várias vezes, se aquele sorriso era sardónico ou complacente ou zombador.] Ele, o condutor, ainda abriu a janela e disse: “Chefe, cuidado com a curva.” Ela exigiu logo que a janela fosse fechada e que se fizessem ao remanescente da estrada. O vulto foi se afastando, devagar, para o cotovelo interno da curva.
O barco de pesca – um atuneiro – regressava com a exaustão a lhe ranger no cavername satisfeito de peixe. Era noite, e os homens do mar, afora as excepções necessárias, dormiam. Ali, naquele atlântico fora do tempo, não havia longe nem perto. A luz que havia vinha de dentro daquele viajante colectivo. E assim a proa ia andando – dividindo o caminho negro que ora se alterava, ora colaborava na jornada. Um velho pescador, a sofrer uma insónia súbita ou esperada, levantou-se do beliche, colocou o boné na calvície, e subiu das entranhas do barco até se descobrir ao ar salino. Postou-se a estibordo e fincou as mãos na borda do casco, com os contornos do castelo de proa nas suas costas como uma presença ensombrada. Assim ficou, durante vários minutos. Subiu, então, a borda, e começou a urinar no mar. Esta tarefa costumeira, enfim, não lhe ofereceu – nunca lhe tinha oferecido – perigo, mas a verdade é que uma oscilação maior do atuneiro precipitou-o ao mar. Ninguém havia dado conta. O homem não gritou. [De que lhe serviria?] E o barco continuou o regresso. Andadas poucas milhas, um dos companheiros subiu à popa e pôs-se a olhar, habituando os olhos às oscilações ténues entre as trevas do mar e o ocre da espuma das ondas. Guinou, com brusquidão, a cabeça e cerrou os olhos. Viu: um boné, quase indistinto, nas águas, que caminhava sobre a ressaca deixada pelo barco. [Tempos depois, ao pensar nestes acontecimentos, disse que lhe pareceu que o chapéu perseguia o barco.] Deu o alarme – homem ao mar. Toda a gente acordou – toda a gente se sobressaltou. Por mais que parecesse impossível – e parecia, ou era, segundos alguns –, no mar sem fim, ter sucesso na descoberta do companheiro caído, o barco inverteu a marcha. O pescador foi encontrado.
[Aqui ficam estas duas histórias – de viagem e vigília; de sorte e insólito.]

[Crónica publicada no JM, 10-XII-2016, p. 2.]

sábado, 26 de novembro de 2016

Crónica 64 [Na Camionete]

Vai esta camionete à cunha, cheia de gente, tristeza e cansaço, quase a desmanchar-se por caminhos esburacados, afunilados, íngremes. Vai pela Madeira rural adentro.
Um dos últimos passageiros a embarcar entalou-se à frente, de pé no corredor, perto do chofer. Olhou com desafio – com alguma malícia inócua, talvez – os restantes passageiros. Entre estes, alguns repararam e ficaram tementes, ou resignados – ali onde estavam nada poderiam fazer –, com o que viesse a acontecer. O homem jogou a nuca para trás – e inaugurou um fado magoado. Quem seguiu este concerto – quem não o fez olhou com melancolia, passados poucos segundos, através das janelas embaciadas – não pôde ter outra opinião: estava bem cantado, sim senhor. O condutor atirou uma repreensão – onde é que se já viu uma coisa destas? – mas o artista não se retraiu. Interrompeu a toada e os versos e ralhou de volta – não estava a maltratar ninguém, também ele tinha pagado bilhete, também ele tinha direito a estar ali.
Numa bancada do lado esquerdo, com três cadeiras, aí pelo meio das entranhas deste animal de seis rodas que rastejava, estava uma família – pai, mãe, um filho, outro filho. Estavam arrumados como podiam. O pai começou a instigar, em sussurro, um dos miúdos, o mais novo, a malhar no mais velho. “Vai, anda. Dá-lhe.” O miúdo jogou um soco – ou um beliscão; enfim, coisa ligeira – ao irmão e a mãe, que tomou ciência destas coisas, começou a brigar, em murmúrios, e a tentar civilizar estes homens futuros. O pai pousou as mãos sobre a barriga e olhou, com satisfação alarve, em redor.
Noutra bancada, agora do lado da epístola deste templo móvel – nesta cerimónia do fim do dia, perfumada, ao invés de incenso, com eflúvios corporais ferventes, frios, requentados –, via-se parte de outra família – uma mãe, um filho adolescente. A mãe pensava no jantar, na conta da luz, no trabalho – e sobretudo naquele filho de 15 anos, enorme quando ainda ontem dava três passos e caía, que ali estava, ombro com ombro, ao lado dela.
O filho já mal cabia na cadeira de estofo húmido e roto que lhe punha as pernas dormentes. Ia cabeceando, de sono, de aborrecimento, de pensamentos. Neste dia lembrava-se, por exemplo, do gato cor de ouro que encontrava sempre no passeio do caminho antes de chegar à escola, no centro da cidade. O passeio era ladeado de prédios altos – quem viveria naqueles blocos? – e pavimentado de remendos de cimento com manchas de humidade e pastilhas elásticas vetustas e fossilizadas. O gato, ele sabia-o, permanecia assim no meio desta rota diária em demanda de afagos e atenções, a que correspondia o jovem. Mas nesse dia, quando passou, o felino entoou um miado lancinante – um fado magoado, dir-se-ia. Ao lado do bicho, no recipiente onde os vizinhos lhe depositavam comida, muitas baratas se calcavam sobre o repasto.
Estava o adolescente nesta recordação quando um pé se lhe deslizou no piso escorregadio da camionete e foi parar na canela do vizinho da cadeira da frente. O homem, com uns trinta anos, virou-se desconfiado. O rapaz pediu desculpa. O homem esbofeteou-o. O rapaz, aturdido, ficou sem reacção. E mais agredido foi – uma segunda, uma terceira vez – quanto menos reacção teve. Alheados, ou fingidos, nenhum dos passageiros acudiu. Acudiu a mãe: encheu o punho e atirou-o como uma pedra às ventas do agressor. Este petrificou de espanto. Toda a camionete ficou suspensa. O homem afundou-se de vergonha na cadeira.
A camionete continuou a sua viagem.

[Crónica publicada no JM, 26-XI-2016, p. 2.]

domingo, 13 de novembro de 2016

Crónica 63 [O Que É um Homem?]

O homem, de braços pendentes e pernas oscilantes como um símio, chegava à casa – vazia e arrendada – pela tardinha. Antes de subir o lance de escadas que desembocava na porta de madeira de verniz estalado, lançava, roncando, uma mão à parede de crespo. [Poderia a parede ser de espinhos, ou ter lodo, ou o que fosse; não importava – aquelas mãos estavam dormentes.]
Metia a chave na fechadura como quem desfere um soco contra o abdómen da porta e empurrava-a com um pontapé. A porta batia como uma hecatombe terminal – um dia aquelas dobradiças teriam de ser substituídas – e este acto de violência dava-lhe satisfação. [Não muita – alguma.] Antes de se impelir para o interior, grunhia – ou berrava – duas ou três imprecações obscenas, jorradas com um fio de saliva peçonhenta, que chocariam quem assistisse a esta cena.
A porta ficava aberta para quem quisesse ouvir. Ele esperaria a mulher – que chegaria depois. Enquanto não chegava, havia pretextos para pôr ao lume – ou manter bem quente – um refogado ruidoso de alhos e bugalhos com aguardente em peça e vinho carrascão. Era porque ela se demorava – e o que andaria a fazer? Era porque ela – de certeza – estaria metida com outro homem. [Na verdade, estava a trabalhar – e trabalhava muito por uma recompensa magra.] Era porque o vizinho – um jovem que ocupava o piso superior e que tinha idade para ser filho dele – fazia ranger o soalho. [Na verdade, conduzia este vizinho a sua vida em paz, e os barulhos eram mínimos e a horas lícitas.] Era... muita coisa.
Um dia, farto de ouvir estas má-criações – e certo de que algumas, que empalideceriam até um carroceiro, lhe eram dirigidas –, o jovem bateu-lhe à porta e perguntou-lhe se era ele o alvo de tais palavras empestadas. A reacção do homem foi inesperada e desarmante. Ficou mudo, de garganta gaga e acanhada, e pôs-se a cabecear negativamente. Outras situações semelhantes – mais insultos; mais chamadas de atenção – vieram a surgir. E o homem meneava a cabeça, balbuciava, negava e chegava a invocar o amor de Deus em prol da sua inocência.
Enfim, aquele era um comportamento rápido numa lógica evolutiva e adaptativa – tanto estagiava na latrina como logo emudecia frouxamente e subia pressuroso aos céus. Era um bom exemplo de sobrevivência dos mais aptos – ou dos mais manhosos e cobardes.
O senhorio do prédio sabia destas coisas – ouvia-as, ao longe; e outros vizinhos reportavam-nas também. Um dia deu um aviso ao homem. [Se o aviso foi o primeiro ou o décimo, se foi bíblico ou pragmático, não se sabe.] Desde sempre que, quando emergia nas redondezas a figura do senhorio, o homem calava-se de imediato, enfiava-se como um rato na toca e enclausurava-se fechando a porta. Após o aviso, isto passou a acontecer de forma mais expedita, dobrando o homem ainda mais a cerviz.
A mulher ia chegando e sofrendo, sem diferença nos dias. Tentava desculpar a estirpe daquele traste que Deus se lhe havia deparado em casa. Para ela, as razões de tais posturas deviam tombar sem misericórdia sobre a cabeça dela. Era ela a culpada.
[Discutíamos, eu e um amigo, a pergunta que é o título desta crónica. [Na realidade, fui eu que encetei a discussão.] O meu amigo disse-me que há perguntas que são vãs, presumidas, escorregadias. De qualquer modo, acrescentou, poderia dizer algo – mas sem entrar, por falta de pachorra, nos domínios da filosofia. Assim, contou-me esta história.]

[Crónica publicada no JM, 12-XI-2016, p. 2.]

domingo, 30 de outubro de 2016

Crónica 62 [O Perfil Errado]

Este homem que agora vejo está no meio da casa dos vintes. [Na verdade, não sei se vejo, se recordo, se imagino. Não interessa.] Encontro-o à porta do centro de saúde, sentado como pode, de cabeça baixa e afunilada – esmagada – entre as mãos grossas. Quando ergue a testa pode ver-se que os olhos, com uma capa salina, latejam. Parecia pasmado – e, ao mesmo tempo, lúcido. Ele espera que a porta abra.
Este homem tem uma depressão. Sabe-o porque, quando acorda – ou quando se levanta da cama; há dias e dias que sofre de insónias –, lembra-se de todos os sonhos e pesadelos que teve. Sabe porque todos os pequenos erros – miuçalha, cisco – da sua vida ainda por viver caem-lhe sobre a cabeça com o lastro de trovões.
Soube-o, porque, num dia em que se lançou ao caminho rotineiro, a meio não conseguiu dar um passo mais. Pareceu-lhe que as pernas se infiltravam pela calçada e ganhavam raízes até à bacia. Pensou que só lhe restava esbracejar – coisa que não fez, por não ter força e por temer que também os braços petrificassem, aéreos, acima da cabeça.
De modo que aconchegou-se-lhe à cabeça pesada – como um lampejo insuspeito, contranatura – a ideia de que poderia, de que deveria, pedir ajuda. Não lhe apetecia muito falar. Mas resolveu-se a fazer alguma coisa.
Abriram as portas do centro de saúde – e ele, em conjunto com três velhotes, um homem, duas mulheres, entrou. [Olharam-no de diferentes jeitos – ele com curiosidade, elas com desdém e tristeza.] Esperou, deixou chegar a sua vez e, na secretaria, perguntaram-lhe o que queria. Ele disse que julgava saber que o centro de saúde oferecia consultas de psicólogo; e solicitava, assim, se possível, uma consulta.
As senhoras da secretaria olharam-no de cima a baixo – uma com indiferença, outra com espanto. Perguntaram-lhe se tinha médico de família. Ele disse que não. Disseram-lhe que deveria ter. Ele disse que compreendia, que estava certo – mas que não tinha. Acrescentaram que só este médico poderia enviá-lo à psicóloga. [Ele ficou calado.] Olharam-no com estranheza. Disseram-lhe, para alívio, que ele poderia falar com a enfermeira-chefe – e que ela, então, ajuizando, lhe poderia franquear as portas da psicóloga. Ele esperou.
A enfermeira olhou-o, de cima a baixo, com inquisição e alguma reprovação. Perguntou-lhe se ele estava desempregado. Ele disse que não. [“Graças a Deus.”] Perguntou-lhe se ele era alcoólico. Ele disse que não. [E pensou – “Nesta situação, quem me dera.”] A enfermeira olhou, de baixo a cima, agora com pena. E disse para ele esperar.
Quando a psicóloga chegou passava já das 09:30. A enfermeira-chefe informou-a de que havia um rapaz – ele – que pedia uma consulta. A doutora virou-se para o lado onde ele estava e deslizou a visão – da direita para a esquerda, da esquerda para a direita – como quem fixa a parede por detrás da cabeça dele. [Ele, confuso, olhou para trás.] Nunca o olhou nos olhos. Disse ela que estava à espera de um adolescente que estava com dúvidas – ou crises – vocacionais. [Ele olhou em redor – não viu ninguém à espera; mais confuso ficou.] Ela entrou no gabinete. [Ele esperou.] Passados minutos, ela saiu e olhou – com o mesmo jeito desfocado. Depois disse que, porventura, o adolescente esperado poderia ainda aparecer. E que, portanto, seria melhor que ele viesse noutro dia.
[Auxílio – seja qual for, pedi-lo e merecê-lo só é lícito a quem tem um perfil convencionado. Há perfis certos – e há perfis errados.]

[Crónica publicada no JM, 29-X-2016, p. 2.]

sábado, 15 de outubro de 2016

Crónica 61 [O Ocaso]

Entrou no hospital com um tumor na garganta.
Bem – entrou no hospital porque, pouco a pouco, os ataques de tosse subiram até parecer que lhe partiam as aduelas; porque cuspia sangue – cada vez mais sangue; e porque ficou, de súbito, com o esófago vedado – a saliva, cerca de dois litros que o corpo produz por dia, tinha de ser cuspida. [Por esta razão, já no hospital, a voz foi se lhe embargando até se tornar um gargarejo cavernoso.]
Exames foram feitos – e perdidos, e achados, e refeitos, e só tarde mereceram a atenção de um médico. Depois de os ver, o médico disse aos filhos: “Ele ‘tá frito.” Era um cancro.
Os filhos, entre o odor esterilizado e as paredes descoradas do hospital, ficaram aparvalhados por esta estocada inesperada – por saberem da doença e por só saberem, nesse momento, o quão grave era o estado do pai. Sentado na beira de uma mesa, o doutor responsável e um outro colega começaram a discutir os presumíveis tratamentos, os prováveis desfechos, as soluções.
Não havia solução. O homem ali ficou, no hospital, com uma dieta intravenosa e de morfina enquanto o cancro ia plantando metástases como minas no corpo. Durante pouco mais de um mês mudou várias vezes de quarto. Por fim, recolheu a um quarto de uma só cama – o quarto de isolamento.
Entre as visitas que apareceram, numa tarde o melhor amigo surgiu e ficou, de pé, de braços cruzados, num dos cantos do quarto, em silêncio cúmplice com o homem doente. Este não conseguia articular palavras audíveis; o visitante não disse nenhuma. Não eram precisas palavras – ali, estando as coisas como estavam, só estorvariam. Por fim, o amigo chamou o amigo doente, despediu-se e mostrou o punho com o polegar virado para o tecto. O homem com o tumor respondeu da mesma forma. 
Um dos filhos perguntou, no ocaso desta história, se o pai poderia dar uma volta rápida. Os médicos e os enfermeiros, com humanidade e face ao inevitável, anuíram – contanto que o passeio fosse mesmo curto. Foi reforçada a morfina ao homem e tirou-se-lhe o cateter. Uma enfermeira forneceu-lhe um pacote de açúcar para que, em caso de fraqueza, levasse alguns grãos aos lábios.
O filho levou-o, primeiro, à freguesia natal, no norte da Ilha. O homem percorreu de carro – não quis apear-se – o seu sítio e olhou uma derradeira vez para a infância e para a juventude.
Depois, quis ir ao local onde trabalhava, numa freguesia do sul da Ilha. Aí desceu da viatura e visitou a equipa que chefiava, que o recebeu com reconhecimento e desvelo. Olhou uma derradeira vez para a sua vida.
Tudo isto feito – percorrido todo este caminho –, no carro o homem levou à boca, de imediato e com fúria, o açúcar e começou a tossir com espasmos violentos. O filho pediu-lhe que tivesse calma, disse-lhe que daí a pouco estariam no hospital, e carregou no acelerador.
Quando o dia seguinte nasceu, o pai já não pertencia a este mundo.
Um outro filho, semanas volvidas, viu as coisas que o pai tinha deixado. Encontrou, desgarrado e solitário, um livro de contos policiais de Patricia Highsmith – O Álibi Perfeito. E depois deu de caras com um exame médico feito um ano antes de o pai entrar no hospital – exame que o pai porventura não leu, ou não soube compreender, e que não mostrou ao médico, e que o médico não exigiu que fosse mostrado. Perdida entre o dialecto técnico e especializado que o documento apresentava, o filho pôde ler esta coisa: “Suspeita de neoplasia.”

[Crónica publicada no JM, 15-X-2016, p. 2.]

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Crónica 60 [A Tertúlia]

Sempre que passo, de carro sobretudo, ali estão eles – sentados sob a copa da acácia, na berma da estrada, num lugar padrão do Funchal suburbano.
À falta de melhor palavra, posso dizer que compõem uma tertúlia. São homens, desocupados, alcoólicos – em cima do muro onde se sentam há quase sempre vinho tinto de pacote, do mais barato possível. [É curioso – são filhos de um Baco incompetente e bêbedo que só faz e bebe zurrapas, mas ficam assim sentados, de perna cruzada, com um ar de dignidade cerimonial. Um dia, um dos homens foi ao supermercado das redondezas – há um supermercado próximo, demasiado próximo para o bem deles – comprar um pacote de vinho e dois ou três papos-secos. As moedas miúdas e pretas que levava não eram suficientes. A funcionária do supermercado julgou que ele iria optar pelo pão. Não – com a costumada dignidade, o homem disse que deixaria o pão e que levaria, sim, o vinho.]
O núcleo duro deste grupo é composto por três homens. Na verdade, melhor será dizer que é composto por um homem. Os outros podem, provisoriamente, não comparecer – mas ele lá está, dia sim, dia sim senhor. [Lembro-me dele de há muitos anos, quando eu trabalhava nas obras durante as férias da universidade. Já nessa antiguidade ora ele vinha trabalhar, ora não se lhe tinha dado para isso. Explicaram-me na altura que dependia do que ele já havia emborcado antes de o patrão o apanhar, às 07:40, na berma do caminho.] Era magriço e todas as manhãs lacrimejava abundantemente. A pele era vermelhaça – tinta, na verdade –, como se ganhasse, por osmose, a cor do líquido que bebia com perseverança.
Outro participante tinha sofrido uma trombose que lhe afundara o lado esquerdo da cara. Por vezes, esta carne facial fendia – e ele bebia, dizendo que o vinho curava tudo.
O terceiro homem, de pele amarela, de dentes amarelos, de olhos amarelos, passava de vez em quando, contrariado e sem aviso aos colegas, uma estadia no Trapiche. Enfim, mais dia, menos dia, ele voltava.
Fora o trio, acontecia que outros homens – bêbados ou não, a maior parte das vezes não – iam passando, estacavam, sentavam-se e demoravam-se.
Não me parece surgir ali a violência que o álcool faz transpirar. [Pode ser difícil de acreditar, mas é verdade.] Os diálogos decorrem amenos, sobre tudo o que vem à mente. Se é para passar o tempo, há que enchê-lo de palavras, debruçadas sobre tudo – sobre nada. Emergem, claro, a par e passo, alguns comentários galhardos, uns chistes sem acrimónia, no seio desta tertúlia e entre ela e alguns passantes.
Numa tarde, um conhecido passou do outro lado da rua e mandou uma boca qualquer. Um dos tertulianos mostrou os dentes apagados e gritou: “Vê lá com’é que t’assoas!” O interlocutor riu e continuou a andar. [Por acaso, a uns vinte metros dali, um velho limpava o nariz com um lenço pardo. Ouviu, interrompeu o ronco e virou a cabeça para quem tinha berrado. Percebeu que não era com ele – afinal, pensou, aqueles homens nunca tinham feito mal a ninguém – e terminou o serviço, deixando um traço luzidio na pele glabra sob o nariz.]
Podemos imaginar alguém que chegasse a esta tertúlia e que perguntasse a estes homens: “Porquê aquela vida?” – “Por que não procurar tratamento?” – “A que lugar quereriam chegar, daquele jeito?” Se estes homens quisessem – ou soubessem – responder, diriam porventura que estas perguntas estão mal feitas. Ou, enfim, encolheriam os ombros e não diriam nada.

[Crónica publicada no JM, 01-X-2016, p. 2.]

sábado, 17 de setembro de 2016

Crónica 59 [A Noite]

Na cidade crescia a noite.
Um homem segurava contra a cara uma máquina fotográfica digital. [Estava há vários minutos de vigia.] No momento certo premiu o botão e fixou, dentro da memória da máquina, a fina orla incandescente que o sol derradeiro riscou no horizonte. [Poderia ser, esta orla, uma espada que um ferreiro intemporal batia e moldava até se tornar negra.] Retirou a lente dos olhos, baixou o aparelho – dir-se-ia que era, afinal, um binóculo –, esqueceu de pronto o que fixara e olhou na direcção da esplanada. [É assim este tempo – de olhos com filtros e memórias digitais.] Coçou um braço e cuspiu no chão. Afastou-se.
Estava completa a noite.
Numa mesa da esplanada um grupo de quatro velhos jogava às cartas. Um deles arremessou com rudeza uma carta contra a mesa de plástico e a carta deslizou veloz e caiu ao chão. Os outros olharam com reprovação para esta violação de uma norma não escrita do jogo. O funcionário da esplanada perguntou a este grupo se era preciso mais alguma coisa – mais um café, uma cerveja. Absorvidos – ou ignorando, apenas, esta interpelação –, nenhum dos velhos respondeu. O funcionário não insistiu e olhou com melancolia para a estrada, a ver se esta lhe devolvia mais clientes.
Dois homens chegaram, encostaram as barrigas ao balcão e aqui pousaram os cotovelos. Um deles contou acerca de uma altercação, de uma zaragata numa noite anterior – que ele tinha falado com um tipo que lhe devia duas ou três dezenas de euros, que o tipo havia dito que não se lembrava, que ele ameaçou que o faria cuspir em sangue o dinheiro, que o tipo havia perguntado se essa ameaça seria cumprida por um só homem ou por uma camarilha completa. Que, enfim, a ele lhe tinham subido os bofes. [De maxilar inferior saliente, fez um gesto ascendente, com a mão esquerda arqueada, desde o ventre até à garganta.] E que tinha largado uma batata nas ventas do tipo, arrancando-lhe uma golfada de sangue. [Ouvem-se muitas palavras desta estirpe nas noites deste Funchal – e são quase todas mentirosas. Se não o fossem, uma parcela demasiado grande dos funchalenses encararia o dia seguinte com talhos e nódoas na cara. Mas nunca vi tal coisa.]
Numa mesa, um homem corpulento – um gordo –, com ligeiro estrabismo, careca e barbudo, dedilhava com fúria o teclado de um portátil. [Escrevia e depois contava as palavras. Escrevia e contava. A noite não estava quente mas havia gotas de suor na testa e na careca deste homem.] Pediu um uísque com uma pedra de gelo. Olhou para uma mesa onde estavam um homem e uma mulher.
A mulher olhava para o homem, a reclamar algo – uma atenção, uma palavra, alguma coisa que pulverizasse o silêncio. O homem tinha o focinho metido na luz do ecrã do telemóvel. Havia nesta mulher uma tristeza de quem demorava o olhar sobre as coisas e as pessoas – de quem, após a demora, mudava os olhos com um vagar quase suspenso. Eram dela – e de tantos outros – uns olhos que fixam um ponto, não na lonjura, mas num espaço vazio cerca, por vezes a poucos palmos da cara. Era uma tristeza de lábios afundados – que já não conhece o soslaio, a sobrancelha levantada, a fronte enrugada do riso.
À noite, é assim este Funchal urbano e suburbano, este Funchal dormitório – antecâmara da urbe, antecâmara da vida. Como o vejo, é feito de fúria rangida e melancolia perplexa, de ecrãs luminosos e tempo raso, de cansaço e sonhos suspensos, de vida fermentada em álcool e em espera.

[Crónica publicada no JM, 17-IX-2016, p. 2.]

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Crónica 58 [Um Drama]

Ela chegou a casa de noite, cansada, combalida, com um recém-nascido nos braços. O marido tinha ido buscá-la ao hospital, já com uns vapores de álcool a emanarem das ventas mal-encaradas. Ela, para além de debilitada, ficou apreensiva, de mão inquieta sobre a testa.
A abertura da porta da casa – que rangeu da ferrugem nas missagras – revelou, à jovem mãe, uma cozinha onde, enquanto cumpriu a sua curta estadia no hospital, a loiça suja ficou empilhada quase até ao tecto. Do resto que viu não vale a pena falar. Daí a pouco, nessa noite, surgiram amigos do marido. Este ordenou à mulher que largasse o que estivesse a fazer e que viesse medir vinho. Depois, tomou o bebé varão e mostrou-o aos amigos sem muito cuidado e com gargalhadas troantes de felicidade temperada com bebida. Disse, várias vezes: “Vejam, parece um ratinho!”
A criança cresceu. Ao início era franzina, segurada nos temperos e destemperos da vida pela mãe desvelada. E desde o início que o menino foi observando a mãe – pequena, bonita, laboriosa e cansada – e o pai – um traste sem préstimo que não valia a baba ressequida que um caracol deixava no chão de cimento durante a noite.
O pai não resguardava a criança das má-criações – e da violência. Uma vez o menino – ainda mal tinha entrado na escola primária – viu a mãe ser atirada com um empurrão – teria sido um empurrão? – de um canto ao outro da sala. Correu e tentou, com o seu corpito, proteger a mãe.
Veio o divórcio – com ameaças, bilhardices, intromissões. Toda a gente virou-se contra a mulher: os amigos do casal, as amigas, as vizinhas. Que ele, o marido, era um bom trabalhador. [Não era – pouco antes da separação havia sido despedido por incúria e consumo de álcool.] Que punha em casa, na mesa, tudo o que era preciso. [Não punha – punha ela, enquanto ele gastava quase todo o salário na tasca do Sr. João.] Que era, afinal, um bom homem. [Enfim.]
A criança foi crescendo e, a despeito do que foi obrigada a ver, tornou-se vivaça e extrovertida, sempre sob a atenção da mãe.
Ao fim do dia, voltavam juntos para casa – a mãe com um ou dois sacos de compras que os seus diversos trabalhos de mulher-a-dias, mal remunerados e mal apreciados, pagavam. Na paragem de autocarros, o miúdo divertia os espectadores com tiradas galhardas e perspicazes. A mãe olhava, embevecida.
A criança tornou-se adolescente. O menino franzino que aquela mulher pequenina concebera havia sobejado. Começou a dar-se com más companhias e a ter – enlaçadas com um braço sobre o ombro e o pescoço – namoradas.
A criança tornou-se – a despeito do que teve de ver – um jovem inconveniente, de posturas gastas de adolescente, de palavras embaraçosas. [Uma frase não era frase se não contivesse um grão de vernáculo.] A mãe, pesarosa do que ia vendo, apreensiva – de mão inquieta sobre a testa –, chamava-lhe à atenção. Preocupava-se com a saúde do jovem e com as companhias dos cigarros – e Deus sabe do que mais. Exortava sempre, quando ele chegava a casa várias horas após ela – cada vez menos regressavam juntos no mesmo autocarro –, a que se alimentasse.
[Eu queria que esta história acabasse bem – mas não é possível.]
Da criança graciosa brotou um homem agressivo. Uma vez, com fumos de álcool a lhe saírem das beiças – para horror da mãe –, levantou-lhe a mão. [Assim ficou durante longos segundos, suspenso.] Baixou, manso, o braço. Depois, aparvalhado e a cambalear, foi para o quarto.

[Crónica publicada no JM, 03-IX-2016, p. 2.]

sábado, 27 de agosto de 2016

Crónica 57

o que é a maturidade?
[o que é a sabedoria dita pela boca de uma lontra que não tem um dique esculpido – à força de dentes amarelos – aonde voltar?]
é um quarto sem sombras – quer dizer – é um quarto com sombras – se não bem-vindas – pelo menos toleradas – amancebadas – se não toleradas – pelo menos sombras que são companhia
é um cofre de segredos que enterramos dentro da coxa – deitamos a chave fora porque não fechamos o ferrolho – e acordamos lembrando – com pânico – o lugar onde está o cofre – porque dói – e fica a carne envenenada de chumbo – o que está dentro é sabido – o que está dentro não nasce ou revive em palavras – não o pode fazer
assim é – se assim é – porque persistes em caminhar de candeia à frente das ventas como vestes desenrugadas?
porque vais e vens – e vais – e pões-te a rabiar como um cachorro – a ladrar para a tua própria coxa – para que todos os passantes – pequenos – parvos e compadecidos – parem – e fiquem – de mão no queixo suado em bica – a deitar nesse teu lombo danado a água que nunca há-de te lavar?
de que te falo eu?
neste momento nem eu sei – nem eu sei o que te diga
mas sei que não há horas para ti – para ti – que és da horda dos traidores multiplicados
porque não vês a hora parda de cansaço em que os coelhos saem das tocas – não vês – nem com o uísque – ou o vinho – ou a cerveja cujo estágio no frio dispensas – que levas à boca sôfrega
não vês a hora esguia em que os gatos afiam as unhas nos troncos das árvores [se as afiassem nas tuas patas malditas nem o sentirias]
não vês a hora devastada em que os lobos – que esperam por ti [e tu não sabes dessa espera] – saem de cabeça baixa dos covis – saem mecânicos – conformados com a necessidade de morte – prontos a serem lobos – e tu pronto a seres caça
não vês a hora em que as borboletas procuram uma sentinela – e fiam no fuso o equilíbrio da roda desbastada do mundo
não conheces a hora – lavada nos teus furores de animal – em que tosses – com fraqueza – após um orgasmo
nas horas – nessas horas – em quaisquer outras – sabes sempre o que fazer – e não sabes o que fazer
pensas que as conheces porque – segundo um segredo alardeado te revelou – jogaste damas com elas e tentaste armar uma pata de galo – não conseguiste e então tentaste anular as regras
mas as horas – assim indistintas – assim indizíveis – são-te uma clausura imposta pelo teu crânio nivelado – se elas não existissem continuavas a existir tu – que as cartografas com o teu astrolábio gretado – que delas falas no teu portulano de uma dimensão espelhada na tua cara
não sabes – e mesmo que soubesses – faltar-te-ia o cabrestante à boca do calhau para puxar o contrabando para terra firme
não sabes nada – não vales nada – e assim ficas – meu caro – salafrário – nessa tua cabotagem à vista constante de terra daltónica – nem horas – nem penhascos – ou baías – nem penhores – ou cizânias – nem caudas de ornitorrinco – ou dodós moídos em mandíbulas de porcos – nada
estou cansado – estou cansado de falar contigo – ficas aí – assim – sempre – parado – igual – na tua ablução mental – que não distingues de um vómito – que mete nojo ao animal para quem o nojo não existe
[um espelho foi traído por um prego indolente – e partiu-se no chão]
[alguém tropeçou – cortou-se – verteu sangue – mas não houve sobressalto – ouviu-se um rosnar manso por detrás de uma porta – ou vindo do outro lado de uma sombra]

sábado, 20 de agosto de 2016

Crónica 56 [Rescaldo]

Parecia-lhe que o pior – aquilo que ninguém imaginava acontecer: um inferno de fumo negro e casas como fornalhas – havia já passado. Mas, no dia seguinte, após um jantar leve, olhou – vigilante – pela janela, com os dedos da mão direita pousados sobre o lábio inferior. E viu: subiam, das entranhas de umas ruínas calcinadas, três ou quatro moradias acima na estrada, umas baforadas de fumo esbranquiçado. O monstro – aquele bocado do monstro – tinha ficado adormecido; e agora respirava, com pequenos haustos perversos, indiferentes à memória traumática.
Pediu à mulher que telefonasse a pedir ajuda e voou estrada acima. [Pareceu-lhe que o fumo começava a ficar mais negro. Entretanto, a noite aproximava-se. Que cores percebem os olhos, quando no dia anterior só se viu fumo preto e labaredas?] Encontrou pessoas das redondezas também alarmadas – pessoas que, antes, tinham sido seus vizinhos: vizinhos que não conhecia, cujos nomes não sabia, com quem nunca havia discutido a meteorologia ou os exacerbados preços dos alimentos nos supermercados. Vizinhos, na verdade, com quem tinha sido irmanado quando o lume tentou penetrar no coração da cidade. Ele e eles – nós de uma mesma rede que tentou suster o monstro. Missão cumprida – missão, porém, que agora voltava a reclamar esforços. O monstro – uma réplica dele, pelo menos – voltava a dar de si, contra a necessidade de descanso.
Quando entrou na quinta, na casa, nas ruínas – como poderia denominar aquilo? –, viu os escombros que, por dentro, incubavam o fumo. Escombros na noite – pedras, carvão e ferros que tornavam o chão uma paliçada. Se havia vidros, não os viu. Ele alcançou um homem que trazia um balde de água. Depois, uma outra vizinha ligou e passou-lhe, do outro lado da rua, uma mangueira. Começou a aspergir, sozinho, os escombros. O fumo, todavia, parecia se alimentar da água. [Que diabo será isto? – pensou ele.] Quando deu por si, ao seu lado estava um homem franzino, também disposto a ajudar. [Nunca tinha discutido com este vizinho a possibilidade de chuva em Outubro ou Novembro, o calor deste Agosto, a carestia de vida, os impostos que levavam couro e cabelo. Quando deu por si, estava a trabalhar lado a lado com este homem, como irmãos que não precisavam de muitas palavras para comunicar.]
O homem franzino começa a deitar as mãos ao entulho – como quem quer esventrar o monstro e descobrir, nas entranhas, a bílis incendiária. Nestas entranhas tinham permanecido bolsas de oxigénio e polímeros – e outros pastos para o fumo que subia. Ambos usaram as mãos como peneiras. Viraram pedras que ferviam – e queimaram-se. Desenterraram farrapos de carpetes e sacos de plástico – e molharam bem o que iam desenterrando. Evitaram os ferros enferrujados que os ameaçavam. Um deles arrancou uma barra de ferro e usou-a para levantar o entulho, enquanto o outro tentava afogar com a mangueira o que estava nas profundezas. Um avisou o outro para ter cuidado – poderia haver vidros no chão, à espera de mãos afoitas. [Havia, de facto – mas ninguém se cortou.] Afogaram enfim o atrevimento do fumo.
[Muito foi já dito e escrito. Neste momento, quaisquer palavras que eu possa ajuntar parecem-me descuidadas, frívolas, apócrifas. Por pouco, aliás, o desastre não me roubava esta crónica. É tempo de agir, de cuidar, de prevenir – e de agradecer. No rescaldo, este é o meu pequeno tributo aos heróis da minha terra.]

[Crónica publicada no JM, 20-VIII-2016, p. 2.]

sábado, 6 de agosto de 2016

Crónica 55 [Uma Infância]

Por causa deste Agosto que ferve, perguntei ao meu interlocutor – um homem com a minha idade, de barba preta e coçada – como tinha sido a infância dele. Boa? Má? Havia me recordado de uma crónica de José Saramago, sobre as férias da infância – «as únicas férias maravilhosas que já tivemos», «esses infinitos meses para os quais não havia projectos, porque então não os fazíamos e porque, mesmo antes de vividos, já eram realização.»
Porém, nem a lembrança desta referência literária nem uma qualquer boa intenção – penso que existiu, a intenção; e que seria boa – me salvaram da avaliação que da pergunta fez o meu interlocutor. Vi que ficou enfadado – ao início. Depois, os seus olhos vestiram uma capa vítrea de perplexidade – pelas memórias da infância que lhe começaram a assomar. E, com vagar, tocou ele uma melodia inexorável na harpa da voz.
Que tinha uma lembrança de quando ainda era bebé de berço. Que tinha a lembrança de uma jovem mulher, de cabelos de ouro, que o olhava do alto – para o berço. [Eu não disse nada.]
Que, passados uns anos, brincava um dia no chão, com um carrinho. Que de repente levantou a cabeça e olhou para a direita, para onde o sol estava. E que lhe advieram perguntas de um canto obscuro. “Porquê isto? Porquê o mundo? Porquê estes olhos, estas janelas? Porquê eu? Por que razão estou aqui? Porquê?” [Acrescentou que hoje tenta adormecer – que faz por adormecer, com ardor – estas perguntas. Calado – eu fiquei calado.]
Que um dia fitou o sol – e que o disco laranja toldou-se para um azul que pulsava. [Ele não usava óculos – nunca usou.] Que a sua professora primária perguntou à turma de que cor era o sol, e que ele – o melhor aluno, laureado com ênfase e regozijo – havia dito que era azul. Que a professora o havia increpado com ênfase e fúria. [Nada ripostei.]
Que ia até ao terraço da sua casa forrado de telas de alcatrão por causa das infiltrações. [No Agosto o alcatrão sobejava e ficava peganhento.] Que aí ficava – subia a uma nespereira raquítica e paciente, cujos ramos nunca partiram com o seu peso. Que olhava – olhava, sem tempo, a fímbria em que o mar se juntava à cor ocre do horizonte. [Assenti com a cabeça.]
Que o irmão lhe havia assinado a cara com um estralo, numa tarde quente de Agosto, perante os outros miúdos das vizinhanças. Que o seu destino tinha ficado escrito a partir desse momento.
Que gaguejava, que era zombado, que lhe teciam brincadeiras nas costas, que o empurravam e lhe espetaram pioneses nos braços. Que era sovado – à entrada da escola, dentro da escola, fora da escola. [Bullying – é assim que se diz, certo? Eu tossi. Continuei a ouvir.]
Que um dia, de noite, ao vir da casa de uns primos após um dia esquecido, viu ao longe três ou quatro miúdos que, para fugir do aborrecimento, de certeza que lhe iriam bater. Que, pressentindo essa intenção, partiu uma cana vieira e, dessa vez, se defendeu com uma coragem imperativa – correndo, depois, com abalo e suor o caminho íngreme até casa.
Hoje – disse-me ele – achava que grande parte da nossa felicidade estava no apaziguamento, ou no esquecimento, das memórias da infância. Apaziguar é difícil e carece de coragem – porque implica um confronto procurado, constante, um projecto de vida. Esquecer é impossível – porque envolve, na soberania da nossa vulnerabilidade, um confronto esporádico, de que se foge. A infância. Feliz? Infeliz? Ele hoje já não sabia dizer.
[E eu não disse nada – que poderia eu dizer?]

[Crónica publicada no JM, 06-VIII-2016, p. 2.]

sábado, 23 de julho de 2016

Crónica 54 [O Surdo-Mudo]

Aqui estava o menino.
Sentado, no fundo do palheiro, tremia do frio da noite, sobre a feiteira que havia servido de cama do gado. Limpou uma lágrima com a manga da camisola rota e viu, por entre as sombras, entrar no palheiro, a coxear, um cãozito – dorido, como ele –, que havia sido atropelado ou espancado por alguém. Viu – não ouviu. O cão dele se acercou e pousou a cabeça no colo. Era surdo-mudo o menino. Com a mão, sossegou o bicho, que cessou de ganir.
Era o único surdo-mudo entre os irmãos – entre toda a família. Os pais carregavam-no de trabalho, de sol a sol, e tratavam-no – assim ele o percebeu desde a mais tenra idade – de forma diferente. Por algum motivo supérfluo – e eram muitos os motivos –, apanhava, ora da mãe ora do pai, pancadarias que horrorizavam alguns dos vizinhos, pelos gritos guturais que lhe arrancavam. No fim de um dia assim, era sentenciado a pernoitar no palheiro, com um resto de pão de casa seco. A irmã mais velha, a única parente que dele se compadecia e que o acarinhava, levava-lhe mais alguma coisa para restabelecimento do corpo cansado e fulminado.
[Quando comecei a escrever esta história, quis que ela acabasse mal. Neste momento, não quero.]
Tinha por companhia os animais. Sossegava um cão temeroso ou raivoso com um simples toque da mão. Apanhava pombos e melros que dele não fugiam porque dele não tinham medo. [Quem isto visse diria que era um prodígio – que o mártir havia se tornado messias.]
Passaram os anos e giraram os estados da vida. O menino, agora homem, veio trabalhar para a cidade e aqui alugou um quarto. Um patrão que nele reconheceu valor para trabalhos manuais diversos, tomou-o sob a sua protecção e pagou-lhe justa e condignamente. [Os colegas da firma e os clientes ficavam maravilhados com as suas capacidades. Bastava-lhe colocar uma mão sobre um electrodoméstico avariado – uma máquina de lavar roupa, por exemplo – para diagnosticar e reverter a avaria.] Do vencimento exigiam-lhe os progenitores uma parcela, que ele de início pagou.
Os colegas apreciavam o quanto bastava a cordialidade – ainda que reservada – do homem. Porém, ficavam um pouco impressionados com a voracidade e a desconfiança – os olhos caninos, sempre de atalaia – com que comia, ao almoço, o que trazia na marmita. Uma colega de trabalho, que não era muda – e que percebeu, desvalorizando, estes jeitos –, apaixonou-se pelo seu ar de fragilidade digna – como o de um animal combalido que se erguia, após ser agredido, com um orgulho cabisbaixo. Foram viver juntos e casaram. As pessoas notavam, incrédulas, a cabal comunicação – sem voz, sem som – entre o homem e a mulher: os olhos e os corpos transmitiam e recebiam a informação e, para completar este perfeito circuito, aí estavam os movimentos silenciosos dos lábios e as mãos – sobretudo as mãos.
O amor dela fê-lo levantar os olhos e ter a coragem de cortar com o que o amarrava à casa dos pais. Na última vez que lá foi, o homem atirou às ventas do pai as últimas notas de dinheiro – a última porção do que ganhava. Deu um murro na mesa da sala e partiu-a. Limpou, à saída, os sapatos no tapete da entrada.
À noite, após a mulher – que estava, hoje, grávida de um menino – se ter deitado, e antes de também se recolher, o homem lançava a mão sobre uma das paredes da sala, a tomar o pulso ao lar. [O vizinho do andar superior deveria ter, pensava ele, algum problema na canalização. De resto, pensava ainda, está tudo bem.]
Aqui está o homem.

[Crónica publicada no JM, 23-VII-2016, p. 2.]