sábado, 15 de abril de 2017

Crónica 73 [A Carga]

Ele orgulhava-se – sem bazófia, sem fazer gala disso – da força que tinha. No mercado, enchiam-lhe os maiores cestos de vime com bananas. Ajudava-se ao peso – de setenta, oitenta quilos – e, com a base do cesto como uma cunha a lhe trincar o lombo esquerdo, subia, correndo, os degraus até o andar superior. O patrão ficava contente: um dia elogiou-o dizendo – com um jeito trôpego – que era um bom burro de carga. O homem, de pequena estatura – pouco mais de metro e meio –, aceitou como pôde o elogio e viu-se dilatado nos seus brios.
Trabalhou no sector da banana – carregando, outrossim regando, cavando e mondando de joelhos a terra até as unhas começarem a sangrar. Andou depois nas obras, e o encarregado, que lhe apreciava a afoiteza, a desenvoltura e a força, nomeou-o responsável pela condução dos trabalhos nas suas ausências. O homem tanto vestia um pano de parede em tempo inédito como, para dar o exemplo aos serventes – apesar de a isso não estar obrigado –, carregava três sacos de cimento de uma só vez: um às costas, os outros à laia de braçados, cada saco cingido por cada braço.
De maneira que era assim a vida, desde a adolescência – trabalho, trabalho, trabalho. Nada havia de excepcional nisto. O homem, em menino, cresceu vendo pai, tios, irmãos e primos mais velhos – todos baixos, troncos secos; todos bois de força – acorrerem na maré baixa à praia e encherem sacas de areia molhada, que transportavam, à centena de quilos de cada vez, até aos sítios altos da freguesia. Viu isto – e outro tanto. E o que foi vendo, no que ao trabalho concerne, haveria de ser o seu destino – sem drama, sem fatalismo, sem consciência até.
[É bom de ver que estes homens são de molde a envelhecer cedo – de trabalho e de álcool. Amiúde são acometidos de uma trombose. Cedo entrevados e embrutecidos, com os ossos torcidos das cargas, tornam-se, naufragados a um canto da casa, trastes ébrios dedicados a massacrar e a condenar as almas dos familiares. Estes comportamentos também os foi observando o homem da nossa história – agora, todavia, com um certo pressentimento de desgraça.]
Com vinte e picos anos de idade, o homem juntou-se com uma mulher, após um namoro sumário e alegre. O neófito casal foi viver com a família dele. Foi dada autorização para levantar um piso sobre a casa paterna, que era um completo ninho onde coabitavam três gerações e inclusive parentes colaterais. O homem assentou blocos, armou cofragem e deitou, com familiares e amigos, a laje final. Esta tarefa, como se costuma dizer, deu vela – às quatro horas da manhã ainda um verdadeiro cordão humano passava, de braço em braço, baldes de massa.
Mas depressa a convivência se tornou um inferno. Entre pais, sogros, irmãos, cunhados começou um fluxo peçonhento de bilhardices e invejas, de rancores e ressentimentos. Rumores tépidos subiram a gritos. O patriarca, falho de discernimento, optou por culpar o casal recém-chegado – que entretanto tinha tido um bebé. Demente à força de aguardente e por falta de paciência e compreensão, numa noite o pai chamou o homem, o seu filho. Disse-lhe que, se no dia seguinte ele ainda ali estivesse, o mataria, assim como à mulher e ao filho, e cavaria um buraco na fazenda para os enterrar.
No dia seguinte já não estavam. Para o homem, esta carga foi a mais pesada que alguma vez teve de carregar. Uma carga que nunca poderia ser aliviada. Uma cruz.

[Crónica publicada no JM, 15-IV-2017, p. 2.]

sábado, 18 de março de 2017

Crónica 72 [O Rapaz]

No campo batido de chuteiras rotas e ajoujadas – um dos jogadores calçava-as assim, e eram as duas de diferentes qualidades –, o rapaz bolinava contra uma corrente agressiva com a bola, que rolava entre cá e lá, fazendo tabela entre os seus dois pés. Driblou este; confundiu aquele, que ficou para trás; e deixou sentado no chão aqueloutro – o qual, despeitado, desembestou em perseguição e, aproveitando o ressalto da bola até ao nível das cabeças, levantou a pata calçada aos queixos do rapaz. Efeito: sangue a cair de um furo na pele – dor a cair de uma ferida no orgulho.
Era um molho de ossos, o rapaz, e afligia-se por tal razão a mãe, as tias, a avó. Não havia maneira de criar corpo este púbere, a quem a mãe levantava a t-shirt – de nada valiam protestos envergonhados – para mostrar à vizinhança uma pele esticada e cava sobre uma rede de ossos que mais pareciam arame farpado ou espinhas que cortariam como facas de talho. Portanto: um trinca-espinhas – ou chupa-espinhas, como lhe chamava o pai, trocista –, das órbitas oculares até aos pés – que eram os instrumentos únicos que tinha para se afirmar, na escola, depois da escola, no clube, fosse onde fosse. Onde havia uma bola – onde havia quatro linhas e duas balizas, ainda que imaginárias – ele não era magro, não era fraco: era eficiente, admirado e odiado.
De pronto, porque a inveja e o ressentimento nunca dormem, e os métodos de meter alçapões e armadilhas no coração de outrem são infindáveis, os rivais, para além da violência, descobriram o ferrete do ridículo. Por isso passaram a chamá-lo “bailarina” – quando lhe chegava a bola aos pés e ele arrancava contra a baliza contrária, ou em qualquer outra ocasião, dentro ou fora de campo. Quando ouviu este apelido pela primeira vez, atrapalhou-se com a bola de catechu, levou uma canelada – o treinador não viu nada – e foi com a testa à terra. Virou-se, sentou-se e, com os olhos ensopados de raiva, mordeu os canhotos da mão direita. As gargalhadas duplas – pela alcunha; pela queda – ficaram, alarves, a lhe zunir nos ouvidos tapados.
Não havia forma de criar corpo – nem, com efeito, pêlos, na cara e no corpo. E por isso também era gozado, principalmente no balneário do clube. O rapaz explicou à mãe que tinha vergonha, que os outros, da mesma idade – na verdade, alguns mais velhos –, zombavam dele porque era um rato seco, um esqueleto bailarino, e agora uma galinha sem penas. De facto, começaram a multiplicar-lhe os apodos. A mãe, sempre aflita, afagou-lhe o cabelo sobre a testa e rogou-lhe que não desse troco. O pai, que soube pela mãe – não pelo rapaz, porque não havia, ainda não havia, essa relação entre pai e filho –, disse-lhe, categórico, que deixasse de ser um medricas e que começasse a dar uso aos punhos. Nada disto fazia sentido ao rapaz – porque sabia, perspicaz, que nada disto resolveria o problema.
No fim de um treino, no duche, os outros rapazes gargalharam, rotineiros, das características do rapaz – e ajuntaram comentários relativos à falta de pêlos púbicos e ao tamanho dos genitais. O chefe da turba atreveu-se, ademais, a pronunciar calúnias sobre a família do rapaz. Ele reagiu – com todo o seu corpo franzino. Efeito: levou uma malha; caindo no chão de tábuas molhadas do balneário, pontapearam-lhe as pernas – sobretudo as pernas.

[Crónica publicada no JM, 18-III-2017, p. 2.]

sábado, 4 de março de 2017

Crónica 71 [Aranhas]

Existem os animais domésticos que adoramos, que convidamos ao nosso convívio, a que chamamos família. E depois existem os outros – como, por exemplo, as aranhas. 
Nada sei sobre estes invertebrados, mas, numa noite de insónia, imperativa e indomável como uma aranha que nos invade a casa e o pensamento – como um abraço de oito patas –, sou levado a lavrar alguns farrapos de histórias – a acrescentar o meu pouco ao registo transitório do mundo.
Havia um menino que, em momentos de raiva e frustração, saía de casa e, no quintal, olhava para o alto e desfazia-se em brados e exclamações. Numa dessas acometidas, visou e culpou Jesus dos seus males – o mesmo Jesus que, diziam os adultos, chorava quando ele se portava mal. [Afinal, pensava e perguntava o menino: se o Jesus era tão bom e amigo das crianças, por que razão se sentia tão miserável?] Numa dessas acometidas, falava com o Messias e viu, reparando até que o silêncio lhe engoliu a garganta, uma aranha, suspensa numa névoa branca de fios. Era bicho hediondo e severo, do qual sentiu um abrupto medo. E foi um medo que se traduziu – como acontece com muitos medos – num certo fascínio, ou em magnetismo ou perplexidade. [A aranha seria, com grande probabilidade, uma aranha-maria, de seu nome comum.]
Uma menina estava a brincar no chão da sala-de-estar. Levantou-se, pequena, para abrir as duas janelas – era precisa luz para ver melhor os carrinhos. [Sim, esta menina brincava com carros – não havia ali bonecas carecas.] De uma das janelas brotou um aranhiço – talvez, de seu nome comum, uma aranha-das-patas-longas. [Nada de preocupante, nada que oferecesse ameaça, diria um adulto – afinal, não era nenhuma tarântula das Desertas.] A mãe, apressada e prestimosa, limpou a janela do intruso, e tentou sossegar a menina. A verdade, porém, é que nunca mais voltou a criança – rodaram os anos; a menina tornou-se mulher – a se aproximar. E ficava, por vezes, a fitar a janela – esta e outras janelas, nesta e noutras casas.
Um homem tinha, à janela do quarto de dormir, uma agave, de pouco menos de dois metros. Na planta, esticada de folha a folha a folha, estava a casa fiada de uma aranha. [Seria talvez uma aranha-das-tabaibeiras; enfim, não era uma tabaibeira o que se via, era uma agave – mas ao redor era o que se arranjava.] Ao fim do dia, o homem, antes de entrar à porta de casa, fumava mais um cigarro e deitava as cinzas na teia da aranha. Divertia-se, nesta brincadeira sem caução da idade, em ver a aranha, eficaz, saltar de pronto sobre a gota de cinzas e emaranhá-la como se fosse uma mosca ou outro insecto alado. Ao início a aranha fazia isto; depois, foi levando o seu tempo a agir e acabou por ficar imóvel, ignorando assim este logro servido pelo bípede galhardo. [Da parte do homem, não era só feita de folia esta interacção. Por vezes fixava, esgazeado, a aranha – e o pensamento fugia-lhe para outros lugares. Deve ser notado que este homem escreveu, sobre este episódio que estamos a narrar, um torpe poema desalinhavado.] Um outro dia, voltando do trabalho, reparou que jardineiros – uma horda de jardineiros, desordeiros e facínoras como hunos – haviam mondado o jardim à sua janela e cortado as folhas carnudas da agave, demolindo a casa da aranha. Pensou, melancólico, que não esteve ali para guardar e salvar o aracnídeo.

[Crónica publicada no JM, 04-III-2017, p. 2.]

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Crónica 70 [A Gata]

A gata apareceu um dia e ali ficou.
No início, estranhou-se a aparição felina. Sem demora, contudo, arranjaram-se recipientes para água e para os restos da mesa, que foram postos à porta da casa. A gata foi governando assim a sua vida – aparecendo; desaparecendo. Os mais novos da família passaram a dedicar-lhe afagos, o que valia repreensões da mãe, pensativa dos lugares onde o bicho andava quando não era visto. Mas até os adultos se renderam. Nesta convivência, foi transposto o umbral – e ao bicho acabou por ser consentida a entrada, tentada e insinuada, na habitação cálida e ruidosa de gente.
A gata veio a se mostrar agradecida e a oferecer tributos aos beneméritos. Era, íamos esquecendo de dizer, preta, com algumas malhas brancas – nada fora do usual, portanto. Mas intrigava os humanos o facto de este padrão cromático ser perturbado por umas manchas tintas que o felino por vezes apresentava no focinho. Uma cor tinta – ou um vermelho desfalecido. Com efeito. A resposta para este enigma trouxe clamores de nojo e de medo à casa. Um dia, no tapete que ficava fora da porta de entrada, a gata tinha deitado o seu primeiro produto de homenagem, ao lado do qual se sentou, orgulhosa, à espera do reconhecimento. Era uma ratazana, morta, esventrada – um bicho de dois palmos de mão adulta, fora a cauda. Um dos filhos viu, deu o alarme, a mãe gritou, a filha gritou, os filhos ficaram maravilhados pelas aptidões guerreiras do felino. Face aos ruídos, a gata, confusa, desconfiada, balançou várias vezes a cabeça. Depois fugiu, perante o clamor crescente.
Em todo o caso, não desistiu – e voltou a tentar, mas de um jeito mais incisivo. Na ocasião que se seguiu, outro rato, do mesmo tamanho, foi depositado dentro de casa – e a gata voltou a postar-se, altiva, expectante. Neste ensejo, teve de fugir de imediato – a acompanhar as exclamações de horror, um sapato quase a atingiu. Mal-agradecida família – diria com certeza a gata, se falasse.
Esta família, nos dias defesos de trabalho, dividia-se entre o sofá e os cadeirões coçados e ficava assim aninhada. Na pequena sala-de-estar estendia-se um cobertor que conseguia alcançar, aéreo, todas as pernas e todos os braços friorentos. Um dia a gata – sem os bigodes tingidos de escarlate – subiu para o cobertor. Foi enxotada. Voltou a saltar. À terceira ou quarta vez deixaram-na ficar.
Tendo sido permitida esta convivência mais estreita – e já perdoada pelas oferendas hediondas que trouxera –, a gata deitou-se, num domingo frio de Fevereiro, sobre o cobertor. Estava a família com a atenção presa num filme qualquer. O bicho começou a lamber-se de um modo vigoroso que um dos filhos, inocente, achou estranho. Ninguém mais notou, imersos que estavam na televisão. De repente, da sua goela saiu um grito pungente. A mãe, que já tinha notado que a gata andava mais gorda – estaria prenhe –, disse: “Ela vai ter os gatinhos agora!”
A família tirou o felino da sala e trouxe-o até à entrada. Ali puseram um trapo velho. Viram, com compaixão e assombro, surgir uns gatinhos – cinco tostões de felino, a tremer de vida – que a gata-mãe ia lambendo, entre sofrimento e cuidados.
Um ou dois anos depois, a gata deixou de aparecer. A família nunca lhe deu um nome – nunca sentiu essa necessidade.
[Esta história, que aqui fica a despropósito, veio-me à ideia quando alguém me disse algo que tange mais ou menos assim: orgulhosos, altivos, nómadas, caprichosos – há pessoas que se julgam como gatos; mas quando caem, não caem de pé.]

[Crónica publicada no JM, 18-II-2017, p. 2.]

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Crónica 69 [O Sangue]

Era um dia ofegante – de uma luminosidade baça e coada por um céu forrado. Era a escola primária, de portões franqueados, ou arrombados, ao fim-de-semana. Estava ele, e outros miúdos, a correr no espaço do recreio e no campo de futebol, na escola enfastiada durante a semana de aulas, e apetecida nos dias de descanso e férias. Por alguma razão inaudita, nesse dia estavam ali dois homens – os pais de dois dos companheiros de brincadeira.
A brincadeira era a apilhagem: uma prova de atletismo de escassos metros variáveis com barreiras – muros, pilares, vedações –, sem descanso ou preparação, num cenário de guerra furtiva. Eram todos contra todos, e todos presumíveis – e súbitos – inimigos, quando tocados por um braço alongado como um florete.
Também ele, a certa altura, sofreu uma estocada e se tornou perseguidor. Conseguiu roçar a camisa do amigo distraído que estava por perto, e irrompeu triunfante e orgulhoso em correria, olhando para trás. Quando virou a cabeça já era tarde – chocou contra uma aresta de um pilar de betão. O embate abriu-lhe a testa, que ficou assim dividida em duas partes iguais por uma fronteira cirúrgica e funda.
Não houve muito sangue – somente algum, no início. Rapidamente o sangue secou quase por completo, como se a lâmina da aresta tivesse, no mesmo golpe, cortado e cauterizado. Ele ficou atordoado, lacrimoso, e os primeiros sons que os ouvidos receberam, após o acidente, chegaram abafados.
Os dois adultos aproximaram-se e a ajuda que deram foi como segue: riram-se; disseram-lhe que fosse para casa – que ficava a uma distância de mais de três quilómetros; e ainda sugeriram que, para que o sangue não desse em escorrer pela cara, caminhasse de testa para o ar.
A mãe, quando o viu, quase enlouqueceu de espanto e dor. Chamou de imediato um táxi e levou-o ao hospital, maldizendo sempre os homens que, na escola, não tiveram a dignidade de levar uma criança ferida aos cuidados médicos.
[No hospital fizeram um bom trabalho de costura. Mal lhe ficou um farrapo de cicatriz.]
Anos depois – sete ou oito –, ele estava na mesma escola, no mesmo lugar, com alguns dos mesmos camaradas. [Olhava, furtivo, a espaços, para o pilar – quase sempre o fazia, estando ali.] Era uma noite de vento e ornada a luar. A competição – não uma brincadeira – que os ocupava era... uma qualquer, acompanhada da violência da idade. Um dos que por ali andava ofendia-o com apartes triturados entre dentes.
Justiceiro e farto – farto de dias e de semanas –, ele derrubou o ofensor, que foi sentir a frieza do chão de cimento. Ambos se alinharam para o duelo. Formou-se logo em círculo uma matilha sedenta que, nos poucos uivos perceptíveis que emitiu, previu uma vitória dele. O outro, que se sentiu despeitado e despejado de padrinhos, chegou também à conclusão que não tinha corpo para dar cobertura às dívidas que, em forma de insultos, lhe saíram da boca. Com cobardia, colocou uma chave na mão fechada, e só precisou de um golpe, entre as taponas que ia levando... Rasgou-lhe a palma da mão esquerda. Ele, golpeado e a sangrar, fez uma coisa singular naquela idade: esfregou o sangue na cara do oponente. Depois, foi-se embora, sem triunfo mas com orgulho, a gotejar um sangue que demorou a estancar. Em casa, a mãe ajudou-o a tratar da ferida – que deixou uma lembrança de cicatriz.
Por acidente, por distracção, por ataque, por defesa, por automutilação – quando sangramos, quem cuida de nós?
[E quem nos acode quando sangramos sem se ver – e sem o saber?]

[Crónica publicada no JM, 04-II-2017, p. 2.]

sábado, 21 de janeiro de 2017

Crónica 68 [Opções]

Homens e mulheres há que me falam; e, ainda que raros, tenho os meus momentos de bom – ou sofrível – ouvinte. [Faço o que posso.] Resolvi-me a registar algumas das vozes que tenho ouvido.
«É assim esta tristeza pasmada – a de quem encontra no chão uma borboleta morta. Percebes? Ou nos curvamos e, com dois dedos em pinça, tomamos a borboleta para a palma da mão – ou acometemos uma das asas com o bico do sapato.» Disse-me ela.
«Lembro-me, tinha eu sete ou oito anos, estava só em casa – e o telefone tocou. Era – claro – um telefone fixo, preto, pesado, com um disco que girava como uma matraca. Tocou e atendi. Ninguém respondeu. Voltou a tocar – atendi. Do outro lado, um homem de voz etilizada e envenenada disse que ia matar o meu pai. Ainda hoje, salto quando um telefone – fixo ou móvel – toca. Na verdade, ou esqueço-me disto – ou lembro-me. Ou deixo ficar – ou vigio o telemóvel.» Disse-me ele.
«Sei que ninguém... Sei que pouca gente percebe, mas gosto da sensação de leve torpor que o álcool me dá – após três ou quatro ou cinco copos engolidos. É isso que me faz chegar ao fim do dia. Por vezes o entorpecimento, sem eu dar conta, caminha veloz – de leve a pesado. Cada dia – em cada fim de dia que passa – fica mais pesado. Ou paro – ou continuo a tentar chegar, deste jeito, ao fim do dia. Ou paro – ou então, diz-me o médico, vou chegar mais depressa ao fim da vida.» Disse-me ela – e riu-se.
«E passou-se isto. Ele subiu as escadas e, de testa franzida e voz rouca, pediu, do lado de lá do portão, para falar comigo. Não respondi – abri o portão. Ele murmurou duas ou três palavras. Acho que ouvi: “Eu peço desculpa.” Dei-lhe um empurrão – bateu com as arcas na parede e ficou sentado no chão. Ele, o meu irmão, levantou-se e, com altivez forçada – ele que nunca teve nenhuma, eu sei disso, a mim não me engana –, disse-me mais três ou quatro palavras antes de se ir embora. Julguei ouvir algo como: “Um abraço. Bom Ano.” Parecia impossível. Das duas uma: ou eu perdoava – ou… Mas perdoar é que nunca.» Disse-me ele – com uma altivez que me pareceu ser postiça.
«A coisa está deste jeito – sempre esteve, aliás. Abro o caderno, olho para ele, fecho o caderno, volto a abrir. Também poderia ser uma página Word, imensa, pálida, a pulsar nos milhares de pixels do monitor. Abro a página – fecho a página. Vou a tropeçar até à cozinha. Nem a lista das tarefas do dia seguinte – e o dia seguinte chega sempre demasiado cedo – consigo pôr no papel. Não consigo escrever – eu, que sonho escrever. Sempre sonhei, aliás. Ou faço o que devia fazer – ou tenho medo de falhar. É uma tristeza.» Disse ela. Perguntei-lhe se essa tristeza poderia ser, como alguém me havia descrito antes, a de quem encontra no chão uma borboleta morta. Ela disse que não percebia – que isso não fazia sentido.
«Deixemo-nos de lamúrias – ou, o que parece diferente mas é o mesmo, de moralismos.» Disse-me ele – e continuou a lamentar-se.
Estarrecidas, estas pessoas falam assim comigo. Não tomam opções – deixam, ao contrário, que as opções as tomem a elas, como um assalto ou uma agressão inevitáveis. [Digo eu, que não pretendo ser de diferente igualha.] O ano ainda agora começou e parece ser afinal a mesma coisa. Ano novo – ano velho. 

[Crónica publicada no JM, 21-I-2017, p. 2.]

sábado, 7 de janeiro de 2017

Crónica 67 [Os Perigos]

O homem queimou a língua – não esperou que o milho cozido, a fumegar no prato fundo, amornasse. A mulher riu-se e disse que, com esta comida, era sempre a mesma coisa. [É a época da Festa; este prato não é típico da quadra, mas é predilecto.] O homem encolheu os ombros, com a boca – e as orelhas – a arder, e provou a espada com cebolada, também a fumegar. Queimou outra vez a língua.
Concluído o almoço – acompanhado de uma garrafa de vinho, não menos –, disse o homem: “Vou ali – já venho.” Abriu o portão e saltou os degraus até à estrada. Encostou-se a uma parede – acto que nele era inusitado –, levou à boca o último cigarro do maço e passou o polegar sobre a roda de pedra do isqueiro. Olhou durante dois ou três segundos para a chama. Abrigou a pequena labareda com a mão livre e incendiou o cigarro. O fumo da primeira baforada – assim como das seguintes – saiu-lhe pelas narinas. [A pequenada da família, maravilhada, dizia-lhe que ele parecia um dragão.]
Na estrada vinha um adolescente de bicicleta. Ao passar em frente da nossa personagem principal, a cremalheira da bicicleta saltou – como uma espoleta com vida própria, e caprichosa. O homem que fumava levantou a cabeça e ficou a olhar aquele mecanismo, que pareceu ficar interrompido no ar. Quando baixou os olhos, ainda viu o corpo do adolescente ser atirado – como uma massa de braços e pernas desengonçados e emaranhados – para uns arbustos que já há muito tempo não mereciam a atenção de um jardineiro. [Tudo ficou novamente em suspenso.] Depois, quando estava pronto a ir em auxílio – com certeza que o rapaz tinha partido a púcara –, o homem viu sair o projéctil humano descuidado que a vegetação tinha recebido. O rapaz deu alguns passos; não parecia ter ficado magoado; não aconchegava ou massajava qualquer parte do corpo; veio à estrada, tomou a bicicleta; mais adiante, levantou do chão a roda dentada avariada; sentou-se no tratuário. O homem mexeu o queixo quando os olhos de ambos se cruzaram; no fundo, perguntava: “Tudo OK?” O rapaz levantou o polegar da mão direita; logo ergueu-se e escoltou, pela estrada fora, a bicicleta magoada.
Um Toyota de cor rubra aproximava-se da encruzilhada desta história. A condutora, uma jovem mulher, vinha sozinha, risonha e falastrona com o telemóvel colado ao ouvido. [A mão livre tinha de dar conta do volante e das mudanças.] Um pombo desembestado e confuso passou em voo baixo e foi de encontro ao chuvento da janela da condutora. [Por pouco o bicho não fazia companhia à jovem, no interior do carro.] Este choque obrigou a suspensão da marcha. A mulher, agora abalada, levou algum tempo a tomar sentido de si. Reiniciou a jornada apenas para voltar a travar, alguns metros adiante, com estrépito: uma adolescente que fitava o telemóvel – Pokémons? Facebook? – havia se atirado sem cuidado do passeio para o caminho. [De novo, um tempo suspenso caiu sobre esta estrada.] A condutora e a adolescente – só lhes lembrou sorrir, a primeira com nervosismo, a segunda sem isso.
Passadas estas cenas, e acabando-se o cigarro – tudo o que fica narrado passou-se durante um cigarro, sorvido com sofreguidão –, o homem resolveu voltar a casa. [Tinha a boca seca.] Atirou o cigarro ainda aceso ao chão e subiu as escadas. Não tinha reparado que na parede onde se tinha encostado estava um sinal que proibia fazer lume. Por detrás da parede estava um tanque de gás que servia o prédio onde vivia.
[Contra os perigos que nos espiam – e são muitos –, qualquer vigilância é pouca. Bom Ano.]

[Crónica publicada no JM, 07-I-2017, p. 2.]

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Crónica 66 [O Menino]

Acordou o menino; esfregou com os canhotos da mão a pálpebra esquerda, fazendo deslocar do seu lugar passageiro uma ou duas ramelas. Abriu bem os olhos claros. [Também poderiam ser castanhos estes olhos.] Pressentiu alguém na cozinha e levantou-se. Os aromas que enchiam este apartamento – que, pelo contrário, poderia ser uma humilde choupana – fizeram-no atirar-se certeiro, com os pequenos pés a bater completos na tijoleira – ou no chão de terra batida –, à mãe que cozinhava. Parou diante da progenitora, aprumado como um pequeno soldado às ordens do oficial, de queixo subido em esquadria com a ponta do nariz. Parou – e sorriu. [À espera: de um afago; e de uma taça de Chocapic com leite morno – que bem poderia ser, ao invés, um pão ázimo, quente e achatado, coberto de mel.] A mãe elevou-o até ficarem ambos nariz contra nariz. [Depois abraçaram-se.]
No escritório do pai – que poderia igualmente ser uma oficina de carpinteiro –, ficava por detrás da porta entreaberta a olhar para o interior, para os gestos do homem que folheava um dossier – ou que manejava uma plaina sobre uma tábua. [Fosse como fosse, caíam ao chão, sempre, papéis mal agrafados ou aparas finas de madeira.] O menino vigiava, vinha eu dizendo, o pai; e este, sentindo-o, voltava-se já sabedor da traquinice. A criança voltava a recolher-se atrás da porta, deixando todavia entrever o seu pequeno semblante, que oscilava para a frente e para trás, ora descobrindo-se, ora ocultando-se. O pai erguia-se e dizia em voz alta: “Quem é que ‘tá aqui? Quem é?” [Isto poderia ser dito em português ou, vá lá, em aramaico.] O miúdo levava a mão à boca, para abafar o riso. O pai abria a porta e alçava aquele corpo franzino, de tez clara – ou morena –, até ficarem ambos nariz contra nariz. [Seguia-se um abraço.] Depois, o pai libertava alguns minutos do trabalho e construía, para a criança, a partir de sobras, uma fisga – ou um origami.
Na cidade, ou no meio do deserto poeirento, esta trindade – pai, mãe, filho – passeava após cumpridas as obrigações religiosas. [Num domingo, pois; ou num sábado.] Encontraram uma família vizinha, outra trindade – pai, mãe e filha –, a quem cumprimentaram e com quem desfiaram um cordial novelo de prosa. O menino reparou na menina, de cabeça baixa e com uma lágrima, como um losango, a escorrer-lhe pela bochecha rosada. [Era uma carinha de camacheira a da menina – poderia, de igual forma, ser uma carinha trigueira.] Os vizinhos disseram que havia feito birra e que com ela tinham ralhado. O menino, que ouviu isto de olhos arregalados e pregados nos pais, pois sabia que também ele fazia birras – por causa de um tubo de Smarties ou uma mão-cheia de tâmaras –, aproximou-se da menina. Baixou a cabeça – o que lhe era raro –, afagou a bochecha molhada e aí lhe deu um beijo. Levantaram ambos os rostos e sorriram.
Os adultos não tomaram sentido desta cena – como também não deram fé de que, logo, se afastou o menino em direcção a um homem sem-abrigo, de cara flagelada pelo álcool – que poderia, como um fac-símile, ser outrossim um leproso de andrajos manchados de cor tinta. O menino parou, a um metro e meio desta figura de mão içada em concha, de quem todos se afastavam, e estendeu a mão – alta. O pai, que acabou por ver, deu um salto e veio recolhê-lo.
Esta criança poderia existir na Madeira contemporânea – ou na Galileia de há cerca de dois mil anos.
[Na véspera do Dia, é esta a minha crónica. Feliz Natal.]

[Crónica publicada no JM, 24-XII-2016, p. 2.]

sábado, 10 de dezembro de 2016

Crónica 65 [Duas Histórias]

O veículo branco cruzava as águas negras do asfalto. Quase tudo, naquele caminho, naquela ruralidade, era noite. De longe à lonjura, alguns oásis luminosos surgiam – postes de luz que deixavam perceber melhor linhas ora descontínuas, ora contínuas, acácias, eucaliptos, novelos. Ali, não era a escuridão que constituía o intervalo da luz. Ao casal que viajava somente restava confiar nos faróis vagarosos para aclarar a vista e expurgar destas profundezas caóticas algum rumo. Iam, ele e ela, em sossego, conversando, maravilhados pelo negrume primordial. Andados alguns quilómetros, entraram numa curva apertada de ângulo e de visão – entre as várias em que a estrada era pródiga – e ele, o condutor, obrigou-se a parar a navegação. [Não houve travagens ou guinadas bruscas.] Em cima da curva, no meio do caminho, estava uma figura – um homem, vestido de um preto total; ao lado dele, um animal, um cão – também de um preto incessante. [Estes entes existiam porque tinham contornos – pouco mais. Outro carro teria abalroado esta parelha sem cuidado.] Nem maravilhados já, nem assustados ao princípio – ficaram os viajantes estranhados com a aparição. O homem descoberto, de flanco para o carro, olhou e arreganhou os dentes, que surgiram alvos à luz dos faróis. [Mais tarde, o casal ainda discutiu, por várias vezes, se aquele sorriso era sardónico ou complacente ou zombador.] Ele, o condutor, ainda abriu a janela e disse: “Chefe, cuidado com a curva.” Ela exigiu logo que a janela fosse fechada e que se fizessem ao remanescente da estrada. O vulto foi se afastando, devagar, para o cotovelo interno da curva.
O barco de pesca – um atuneiro – regressava com a exaustão a lhe ranger no cavername satisfeito de peixe. Era noite, e os homens do mar, afora as excepções necessárias, dormiam. Ali, naquele atlântico fora do tempo, não havia longe nem perto. A luz que havia vinha de dentro daquele viajante colectivo. E assim a proa ia andando – dividindo o caminho negro que ora se alterava, ora colaborava na jornada. Um velho pescador, a sofrer uma insónia súbita ou esperada, levantou-se do beliche, colocou o boné na calvície, e subiu das entranhas do barco até se descobrir ao ar salino. Postou-se a estibordo e fincou as mãos na borda do casco, com os contornos do castelo de proa nas suas costas como uma presença ensombrada. Assim ficou, durante vários minutos. Subiu, então, a borda, e começou a urinar no mar. Esta tarefa costumeira, enfim, não lhe ofereceu – nunca lhe tinha oferecido – perigo, mas a verdade é que uma oscilação maior do atuneiro precipitou-o ao mar. Ninguém havia dado conta. O homem não gritou. [De que lhe serviria?] E o barco continuou o regresso. Andadas poucas milhas, um dos companheiros subiu à popa e pôs-se a olhar, habituando os olhos às oscilações ténues entre as trevas do mar e o ocre da espuma das ondas. Guinou, com brusquidão, a cabeça e cerrou os olhos. Viu: um boné, quase indistinto, nas águas, que caminhava sobre a ressaca deixada pelo barco. [Tempos depois, ao pensar nestes acontecimentos, disse que lhe pareceu que o chapéu perseguia o barco.] Deu o alarme – homem ao mar. Toda a gente acordou – toda a gente se sobressaltou. Por mais que parecesse impossível – e parecia, ou era, segundos alguns –, no mar sem fim, ter sucesso na descoberta do companheiro caído, o barco inverteu a marcha. O pescador foi encontrado.
[Aqui ficam estas duas histórias – de viagem e vigília; de sorte e insólito.]

[Crónica publicada no JM, 10-XII-2016, p. 2.]

sábado, 26 de novembro de 2016

Crónica 64 [Na Camionete]

Vai esta camionete à cunha, cheia de gente, tristeza e cansaço, quase a desmanchar-se por caminhos esburacados, afunilados, íngremes. Vai pela Madeira rural adentro.
Um dos últimos passageiros a embarcar entalou-se à frente, de pé no corredor, perto do chofer. Olhou com desafio – com alguma malícia inócua, talvez – os restantes passageiros. Entre estes, alguns repararam e ficaram tementes, ou resignados – ali onde estavam nada poderiam fazer –, com o que viesse a acontecer. O homem jogou a nuca para trás – e inaugurou um fado magoado. Quem seguiu este concerto – quem não o fez olhou com melancolia, passados poucos segundos, através das janelas embaciadas – não pôde ter outra opinião: estava bem cantado, sim senhor. O condutor atirou uma repreensão – onde é que se já viu uma coisa destas? – mas o artista não se retraiu. Interrompeu a toada e os versos e ralhou de volta – não estava a maltratar ninguém, também ele tinha pagado bilhete, também ele tinha direito a estar ali.
Numa bancada do lado esquerdo, com três cadeiras, aí pelo meio das entranhas deste animal de seis rodas que rastejava, estava uma família – pai, mãe, um filho, outro filho. Estavam arrumados como podiam. O pai começou a instigar, em sussurro, um dos miúdos, o mais novo, a malhar no mais velho. “Vai, anda. Dá-lhe.” O miúdo jogou um soco – ou um beliscão; enfim, coisa ligeira – ao irmão e a mãe, que tomou ciência destas coisas, começou a brigar, em murmúrios, e a tentar civilizar estes homens futuros. O pai pousou as mãos sobre a barriga e olhou, com satisfação alarve, em redor.
Noutra bancada, agora do lado da epístola deste templo móvel – nesta cerimónia do fim do dia, perfumada, ao invés de incenso, com eflúvios corporais ferventes, frios, requentados –, via-se parte de outra família – uma mãe, um filho adolescente. A mãe pensava no jantar, na conta da luz, no trabalho – e sobretudo naquele filho de 15 anos, enorme quando ainda ontem dava três passos e caía, que ali estava, ombro com ombro, ao lado dela.
O filho já mal cabia na cadeira de estofo húmido e roto que lhe punha as pernas dormentes. Ia cabeceando, de sono, de aborrecimento, de pensamentos. Neste dia lembrava-se, por exemplo, do gato cor de ouro que encontrava sempre no passeio do caminho antes de chegar à escola, no centro da cidade. O passeio era ladeado de prédios altos – quem viveria naqueles blocos? – e pavimentado de remendos de cimento com manchas de humidade e pastilhas elásticas vetustas e fossilizadas. O gato, ele sabia-o, permanecia assim no meio desta rota diária em demanda de afagos e atenções, a que correspondia o jovem. Mas nesse dia, quando passou, o felino entoou um miado lancinante – um fado magoado, dir-se-ia. Ao lado do bicho, no recipiente onde os vizinhos lhe depositavam comida, muitas baratas se calcavam sobre o repasto.
Estava o adolescente nesta recordação quando um pé se lhe deslizou no piso escorregadio da camionete e foi parar na canela do vizinho da cadeira da frente. O homem, com uns trinta anos, virou-se desconfiado. O rapaz pediu desculpa. O homem esbofeteou-o. O rapaz, aturdido, ficou sem reacção. E mais agredido foi – uma segunda, uma terceira vez – quanto menos reacção teve. Alheados, ou fingidos, nenhum dos passageiros acudiu. Acudiu a mãe: encheu o punho e atirou-o como uma pedra às ventas do agressor. Este petrificou de espanto. Toda a camionete ficou suspensa. O homem afundou-se de vergonha na cadeira.
A camionete continuou a sua viagem.

[Crónica publicada no JM, 26-XI-2016, p. 2.]

domingo, 13 de novembro de 2016

Crónica 63 [O Que É um Homem?]

O homem, de braços pendentes e pernas oscilantes como um símio, chegava à casa – vazia e arrendada – pela tardinha. Antes de subir o lance de escadas que desembocava na porta de madeira de verniz estalado, lançava, roncando, uma mão à parede de crespo. [Poderia a parede ser de espinhos, ou ter lodo, ou o que fosse; não importava – aquelas mãos estavam dormentes.]
Metia a chave na fechadura como quem desfere um soco contra o abdómen da porta e empurrava-a com um pontapé. A porta batia como uma hecatombe terminal – um dia aquelas dobradiças teriam de ser substituídas – e este acto de violência dava-lhe satisfação. [Não muita – alguma.] Antes de se impelir para o interior, grunhia – ou berrava – duas ou três imprecações obscenas, jorradas com um fio de saliva peçonhenta, que chocariam quem assistisse a esta cena.
A porta ficava aberta para quem quisesse ouvir. Ele esperaria a mulher – que chegaria depois. Enquanto não chegava, havia pretextos para pôr ao lume – ou manter bem quente – um refogado ruidoso de alhos e bugalhos com aguardente em peça e vinho carrascão. Era porque ela se demorava – e o que andaria a fazer? Era porque ela – de certeza – estaria metida com outro homem. [Na verdade, estava a trabalhar – e trabalhava muito por uma recompensa magra.] Era porque o vizinho – um jovem que ocupava o piso superior e que tinha idade para ser filho dele – fazia ranger o soalho. [Na verdade, conduzia este vizinho a sua vida em paz, e os barulhos eram mínimos e a horas lícitas.] Era... muita coisa.
Um dia, farto de ouvir estas má-criações – e certo de que algumas, que empalideceriam até um carroceiro, lhe eram dirigidas –, o jovem bateu-lhe à porta e perguntou-lhe se era ele o alvo de tais palavras empestadas. A reacção do homem foi inesperada e desarmante. Ficou mudo, de garganta gaga e acanhada, e pôs-se a cabecear negativamente. Outras situações semelhantes – mais insultos; mais chamadas de atenção – vieram a surgir. E o homem meneava a cabeça, balbuciava, negava e chegava a invocar o amor de Deus em prol da sua inocência.
Enfim, aquele era um comportamento rápido numa lógica evolutiva e adaptativa – tanto estagiava na latrina como logo emudecia frouxamente e subia pressuroso aos céus. Era um bom exemplo de sobrevivência dos mais aptos – ou dos mais manhosos e cobardes.
O senhorio do prédio sabia destas coisas – ouvia-as, ao longe; e outros vizinhos reportavam-nas também. Um dia deu um aviso ao homem. [Se o aviso foi o primeiro ou o décimo, se foi bíblico ou pragmático, não se sabe.] Desde sempre que, quando emergia nas redondezas a figura do senhorio, o homem calava-se de imediato, enfiava-se como um rato na toca e enclausurava-se fechando a porta. Após o aviso, isto passou a acontecer de forma mais expedita, dobrando o homem ainda mais a cerviz.
A mulher ia chegando e sofrendo, sem diferença nos dias. Tentava desculpar a estirpe daquele traste que Deus se lhe havia deparado em casa. Para ela, as razões de tais posturas deviam tombar sem misericórdia sobre a cabeça dela. Era ela a culpada.
[Discutíamos, eu e um amigo, a pergunta que é o título desta crónica. [Na realidade, fui eu que encetei a discussão.] O meu amigo disse-me que há perguntas que são vãs, presumidas, escorregadias. De qualquer modo, acrescentou, poderia dizer algo – mas sem entrar, por falta de pachorra, nos domínios da filosofia. Assim, contou-me esta história.]

[Crónica publicada no JM, 12-XI-2016, p. 2.]

domingo, 30 de outubro de 2016

Crónica 62 [O Perfil Errado]

Este homem que agora vejo está no meio da casa dos vintes. [Na verdade, não sei se vejo, se recordo, se imagino. Não interessa.] Encontro-o à porta do centro de saúde, sentado como pode, de cabeça baixa e afunilada – esmagada – entre as mãos grossas. Quando ergue a testa pode ver-se que os olhos, com uma capa salina, latejam. Parecia pasmado – e, ao mesmo tempo, lúcido. Ele espera que a porta abra.
Este homem tem uma depressão. Sabe-o porque, quando acorda – ou quando se levanta da cama; há dias e dias que sofre de insónias –, lembra-se de todos os sonhos e pesadelos que teve. Sabe porque todos os pequenos erros – miuçalha, cisco – da sua vida ainda por viver caem-lhe sobre a cabeça com o lastro de trovões.
Soube-o, porque, num dia em que se lançou ao caminho rotineiro, a meio não conseguiu dar um passo mais. Pareceu-lhe que as pernas se infiltravam pela calçada e ganhavam raízes até à bacia. Pensou que só lhe restava esbracejar – coisa que não fez, por não ter força e por temer que também os braços petrificassem, aéreos, acima da cabeça.
De modo que aconchegou-se-lhe à cabeça pesada – como um lampejo insuspeito, contranatura – a ideia de que poderia, de que deveria, pedir ajuda. Não lhe apetecia muito falar. Mas resolveu-se a fazer alguma coisa.
Abriram as portas do centro de saúde – e ele, em conjunto com três velhotes, um homem, duas mulheres, entrou. [Olharam-no de diferentes jeitos – ele com curiosidade, elas com desdém e tristeza.] Esperou, deixou chegar a sua vez e, na secretaria, perguntaram-lhe o que queria. Ele disse que julgava saber que o centro de saúde oferecia consultas de psicólogo; e solicitava, assim, se possível, uma consulta.
As senhoras da secretaria olharam-no de cima a baixo – uma com indiferença, outra com espanto. Perguntaram-lhe se tinha médico de família. Ele disse que não. Disseram-lhe que deveria ter. Ele disse que compreendia, que estava certo – mas que não tinha. Acrescentaram que só este médico poderia enviá-lo à psicóloga. [Ele ficou calado.] Olharam-no com estranheza. Disseram-lhe, para alívio, que ele poderia falar com a enfermeira-chefe – e que ela, então, ajuizando, lhe poderia franquear as portas da psicóloga. Ele esperou.
A enfermeira olhou-o, de cima a baixo, com inquisição e alguma reprovação. Perguntou-lhe se ele estava desempregado. Ele disse que não. [“Graças a Deus.”] Perguntou-lhe se ele era alcoólico. Ele disse que não. [E pensou – “Nesta situação, quem me dera.”] A enfermeira olhou, de baixo a cima, agora com pena. E disse para ele esperar.
Quando a psicóloga chegou passava já das 09:30. A enfermeira-chefe informou-a de que havia um rapaz – ele – que pedia uma consulta. A doutora virou-se para o lado onde ele estava e deslizou a visão – da direita para a esquerda, da esquerda para a direita – como quem fixa a parede por detrás da cabeça dele. [Ele, confuso, olhou para trás.] Nunca o olhou nos olhos. Disse ela que estava à espera de um adolescente que estava com dúvidas – ou crises – vocacionais. [Ele olhou em redor – não viu ninguém à espera; mais confuso ficou.] Ela entrou no gabinete. [Ele esperou.] Passados minutos, ela saiu e olhou – com o mesmo jeito desfocado. Depois disse que, porventura, o adolescente esperado poderia ainda aparecer. E que, portanto, seria melhor que ele viesse noutro dia.
[Auxílio – seja qual for, pedi-lo e merecê-lo só é lícito a quem tem um perfil convencionado. Há perfis certos – e há perfis errados.]

[Crónica publicada no JM, 29-X-2016, p. 2.]

sábado, 15 de outubro de 2016

Crónica 61 [O Ocaso]

Entrou no hospital com um tumor na garganta.
Bem – entrou no hospital porque, pouco a pouco, os ataques de tosse subiram até parecer que lhe partiam as aduelas; porque cuspia sangue – cada vez mais sangue; e porque ficou, de súbito, com o esófago vedado – a saliva, cerca de dois litros que o corpo produz por dia, tinha de ser cuspida. [Por esta razão, já no hospital, a voz foi se lhe embargando até se tornar um gargarejo cavernoso.]
Exames foram feitos – e perdidos, e achados, e refeitos, e só tarde mereceram a atenção de um médico. Depois de os ver, o médico disse aos filhos: “Ele ‘tá frito.” Era um cancro.
Os filhos, entre o odor esterilizado e as paredes descoradas do hospital, ficaram aparvalhados por esta estocada inesperada – por saberem da doença e por só saberem, nesse momento, o quão grave era o estado do pai. Sentado na beira de uma mesa, o doutor responsável e um outro colega começaram a discutir os presumíveis tratamentos, os prováveis desfechos, as soluções.
Não havia solução. O homem ali ficou, no hospital, com uma dieta intravenosa e de morfina enquanto o cancro ia plantando metástases como minas no corpo. Durante pouco mais de um mês mudou várias vezes de quarto. Por fim, recolheu a um quarto de uma só cama – o quarto de isolamento.
Entre as visitas que apareceram, numa tarde o melhor amigo surgiu e ficou, de pé, de braços cruzados, num dos cantos do quarto, em silêncio cúmplice com o homem doente. Este não conseguia articular palavras audíveis; o visitante não disse nenhuma. Não eram precisas palavras – ali, estando as coisas como estavam, só estorvariam. Por fim, o amigo chamou o amigo doente, despediu-se e mostrou o punho com o polegar virado para o tecto. O homem com o tumor respondeu da mesma forma. 
Um dos filhos perguntou, no ocaso desta história, se o pai poderia dar uma volta rápida. Os médicos e os enfermeiros, com humanidade e face ao inevitável, anuíram – contanto que o passeio fosse mesmo curto. Foi reforçada a morfina ao homem e tirou-se-lhe o cateter. Uma enfermeira forneceu-lhe um pacote de açúcar para que, em caso de fraqueza, levasse alguns grãos aos lábios.
O filho levou-o, primeiro, à freguesia natal, no norte da Ilha. O homem percorreu de carro – não quis apear-se – o seu sítio e olhou uma derradeira vez para a infância e para a juventude.
Depois, quis ir ao local onde trabalhava, numa freguesia do sul da Ilha. Aí desceu da viatura e visitou a equipa que chefiava, que o recebeu com reconhecimento e desvelo. Olhou uma derradeira vez para a sua vida.
Tudo isto feito – percorrido todo este caminho –, no carro o homem levou à boca, de imediato e com fúria, o açúcar e começou a tossir com espasmos violentos. O filho pediu-lhe que tivesse calma, disse-lhe que daí a pouco estariam no hospital, e carregou no acelerador.
Quando o dia seguinte nasceu, o pai já não pertencia a este mundo.
Um outro filho, semanas volvidas, viu as coisas que o pai tinha deixado. Encontrou, desgarrado e solitário, um livro de contos policiais de Patricia Highsmith – O Álibi Perfeito. E depois deu de caras com um exame médico feito um ano antes de o pai entrar no hospital – exame que o pai porventura não leu, ou não soube compreender, e que não mostrou ao médico, e que o médico não exigiu que fosse mostrado. Perdida entre o dialecto técnico e especializado que o documento apresentava, o filho pôde ler esta coisa: “Suspeita de neoplasia.”

[Crónica publicada no JM, 15-X-2016, p. 2.]

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Crónica 60 [A Tertúlia]

Sempre que passo, de carro sobretudo, ali estão eles – sentados sob a copa da acácia, na berma da estrada, num lugar padrão do Funchal suburbano.
À falta de melhor palavra, posso dizer que compõem uma tertúlia. São homens, desocupados, alcoólicos – em cima do muro onde se sentam há quase sempre vinho tinto de pacote, do mais barato possível. [É curioso – são filhos de um Baco incompetente e bêbedo que só faz e bebe zurrapas, mas ficam assim sentados, de perna cruzada, com um ar de dignidade cerimonial. Um dia, um dos homens foi ao supermercado das redondezas – há um supermercado próximo, demasiado próximo para o bem deles – comprar um pacote de vinho e dois ou três papos-secos. As moedas miúdas e pretas que levava não eram suficientes. A funcionária do supermercado julgou que ele iria optar pelo pão. Não – com a costumada dignidade, o homem disse que deixaria o pão e que levaria, sim, o vinho.]
O núcleo duro deste grupo é composto por três homens. Na verdade, melhor será dizer que é composto por um homem. Os outros podem, provisoriamente, não comparecer – mas ele lá está, dia sim, dia sim senhor. [Lembro-me dele de há muitos anos, quando eu trabalhava nas obras durante as férias da universidade. Já nessa antiguidade ora ele vinha trabalhar, ora não se lhe tinha dado para isso. Explicaram-me na altura que dependia do que ele já havia emborcado antes de o patrão o apanhar, às 07:40, na berma do caminho.] Era magriço e todas as manhãs lacrimejava abundantemente. A pele era vermelhaça – tinta, na verdade –, como se ganhasse, por osmose, a cor do líquido que bebia com perseverança.
Outro participante tinha sofrido uma trombose que lhe afundara o lado esquerdo da cara. Por vezes, esta carne facial fendia – e ele bebia, dizendo que o vinho curava tudo.
O terceiro homem, de pele amarela, de dentes amarelos, de olhos amarelos, passava de vez em quando, contrariado e sem aviso aos colegas, uma estadia no Trapiche. Enfim, mais dia, menos dia, ele voltava.
Fora o trio, acontecia que outros homens – bêbados ou não, a maior parte das vezes não – iam passando, estacavam, sentavam-se e demoravam-se.
Não me parece surgir ali a violência que o álcool faz transpirar. [Pode ser difícil de acreditar, mas é verdade.] Os diálogos decorrem amenos, sobre tudo o que vem à mente. Se é para passar o tempo, há que enchê-lo de palavras, debruçadas sobre tudo – sobre nada. Emergem, claro, a par e passo, alguns comentários galhardos, uns chistes sem acrimónia, no seio desta tertúlia e entre ela e alguns passantes.
Numa tarde, um conhecido passou do outro lado da rua e mandou uma boca qualquer. Um dos tertulianos mostrou os dentes apagados e gritou: “Vê lá com’é que t’assoas!” O interlocutor riu e continuou a andar. [Por acaso, a uns vinte metros dali, um velho limpava o nariz com um lenço pardo. Ouviu, interrompeu o ronco e virou a cabeça para quem tinha berrado. Percebeu que não era com ele – afinal, pensou, aqueles homens nunca tinham feito mal a ninguém – e terminou o serviço, deixando um traço luzidio na pele glabra sob o nariz.]
Podemos imaginar alguém que chegasse a esta tertúlia e que perguntasse a estes homens: “Porquê aquela vida?” – “Por que não procurar tratamento?” – “A que lugar quereriam chegar, daquele jeito?” Se estes homens quisessem – ou soubessem – responder, diriam porventura que estas perguntas estão mal feitas. Ou, enfim, encolheriam os ombros e não diriam nada.

[Crónica publicada no JM, 01-X-2016, p. 2.]

sábado, 17 de setembro de 2016

Crónica 59 [A Noite]

Na cidade crescia a noite.
Um homem segurava contra a cara uma máquina fotográfica digital. [Estava há vários minutos de vigia.] No momento certo premiu o botão e fixou, dentro da memória da máquina, a fina orla incandescente que o sol derradeiro riscou no horizonte. [Poderia ser, esta orla, uma espada que um ferreiro intemporal batia e moldava até se tornar negra.] Retirou a lente dos olhos, baixou o aparelho – dir-se-ia que era, afinal, um binóculo –, esqueceu de pronto o que fixara e olhou na direcção da esplanada. [É assim este tempo – de olhos com filtros e memórias digitais.] Coçou um braço e cuspiu no chão. Afastou-se.
Estava completa a noite.
Numa mesa da esplanada um grupo de quatro velhos jogava às cartas. Um deles arremessou com rudeza uma carta contra a mesa de plástico e a carta deslizou veloz e caiu ao chão. Os outros olharam com reprovação para esta violação de uma norma não escrita do jogo. O funcionário da esplanada perguntou a este grupo se era preciso mais alguma coisa – mais um café, uma cerveja. Absorvidos – ou ignorando, apenas, esta interpelação –, nenhum dos velhos respondeu. O funcionário não insistiu e olhou com melancolia para a estrada, a ver se esta lhe devolvia mais clientes.
Dois homens chegaram, encostaram as barrigas ao balcão e aqui pousaram os cotovelos. Um deles contou acerca de uma altercação, de uma zaragata numa noite anterior – que ele tinha falado com um tipo que lhe devia duas ou três dezenas de euros, que o tipo havia dito que não se lembrava, que ele ameaçou que o faria cuspir em sangue o dinheiro, que o tipo havia perguntado se essa ameaça seria cumprida por um só homem ou por uma camarilha completa. Que, enfim, a ele lhe tinham subido os bofes. [De maxilar inferior saliente, fez um gesto ascendente, com a mão esquerda arqueada, desde o ventre até à garganta.] E que tinha largado uma batata nas ventas do tipo, arrancando-lhe uma golfada de sangue. [Ouvem-se muitas palavras desta estirpe nas noites deste Funchal – e são quase todas mentirosas. Se não o fossem, uma parcela demasiado grande dos funchalenses encararia o dia seguinte com talhos e nódoas na cara. Mas nunca vi tal coisa.]
Numa mesa, um homem corpulento – um gordo –, com ligeiro estrabismo, careca e barbudo, dedilhava com fúria o teclado de um portátil. [Escrevia e depois contava as palavras. Escrevia e contava. A noite não estava quente mas havia gotas de suor na testa e na careca deste homem.] Pediu um uísque com uma pedra de gelo. Olhou para uma mesa onde estavam um homem e uma mulher.
A mulher olhava para o homem, a reclamar algo – uma atenção, uma palavra, alguma coisa que pulverizasse o silêncio. O homem tinha o focinho metido na luz do ecrã do telemóvel. Havia nesta mulher uma tristeza de quem demorava o olhar sobre as coisas e as pessoas – de quem, após a demora, mudava os olhos com um vagar quase suspenso. Eram dela – e de tantos outros – uns olhos que fixam um ponto, não na lonjura, mas num espaço vazio cerca, por vezes a poucos palmos da cara. Era uma tristeza de lábios afundados – que já não conhece o soslaio, a sobrancelha levantada, a fronte enrugada do riso.
À noite, é assim este Funchal urbano e suburbano, este Funchal dormitório – antecâmara da urbe, antecâmara da vida. Como o vejo, é feito de fúria rangida e melancolia perplexa, de ecrãs luminosos e tempo raso, de cansaço e sonhos suspensos, de vida fermentada em álcool e em espera.

[Crónica publicada no JM, 17-IX-2016, p. 2.]

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Crónica 58 [Um Drama]

Ela chegou a casa de noite, cansada, combalida, com um recém-nascido nos braços. O marido tinha ido buscá-la ao hospital, já com uns vapores de álcool a emanarem das ventas mal-encaradas. Ela, para além de debilitada, ficou apreensiva, de mão inquieta sobre a testa.
A abertura da porta da casa – que rangeu da ferrugem nas missagras – revelou, à jovem mãe, uma cozinha onde, enquanto cumpriu a sua curta estadia no hospital, a loiça suja ficou empilhada quase até ao tecto. Do resto que viu não vale a pena falar. Daí a pouco, nessa noite, surgiram amigos do marido. Este ordenou à mulher que largasse o que estivesse a fazer e que viesse medir vinho. Depois, tomou o bebé varão e mostrou-o aos amigos sem muito cuidado e com gargalhadas troantes de felicidade temperada com bebida. Disse, várias vezes: “Vejam, parece um ratinho!”
A criança cresceu. Ao início era franzina, segurada nos temperos e destemperos da vida pela mãe desvelada. E desde o início que o menino foi observando a mãe – pequena, bonita, laboriosa e cansada – e o pai – um traste sem préstimo que não valia a baba ressequida que um caracol deixava no chão de cimento durante a noite.
O pai não resguardava a criança das má-criações – e da violência. Uma vez o menino – ainda mal tinha entrado na escola primária – viu a mãe ser atirada com um empurrão – teria sido um empurrão? – de um canto ao outro da sala. Correu e tentou, com o seu corpito, proteger a mãe.
Veio o divórcio – com ameaças, bilhardices, intromissões. Toda a gente virou-se contra a mulher: os amigos do casal, as amigas, as vizinhas. Que ele, o marido, era um bom trabalhador. [Não era – pouco antes da separação havia sido despedido por incúria e consumo de álcool.] Que punha em casa, na mesa, tudo o que era preciso. [Não punha – punha ela, enquanto ele gastava quase todo o salário na tasca do Sr. João.] Que era, afinal, um bom homem. [Enfim.]
A criança foi crescendo e, a despeito do que foi obrigada a ver, tornou-se vivaça e extrovertida, sempre sob a atenção da mãe.
Ao fim do dia, voltavam juntos para casa – a mãe com um ou dois sacos de compras que os seus diversos trabalhos de mulher-a-dias, mal remunerados e mal apreciados, pagavam. Na paragem de autocarros, o miúdo divertia os espectadores com tiradas galhardas e perspicazes. A mãe olhava, embevecida.
A criança tornou-se adolescente. O menino franzino que aquela mulher pequenina concebera havia sobejado. Começou a dar-se com más companhias e a ter – enlaçadas com um braço sobre o ombro e o pescoço – namoradas.
A criança tornou-se – a despeito do que teve de ver – um jovem inconveniente, de posturas gastas de adolescente, de palavras embaraçosas. [Uma frase não era frase se não contivesse um grão de vernáculo.] A mãe, pesarosa do que ia vendo, apreensiva – de mão inquieta sobre a testa –, chamava-lhe à atenção. Preocupava-se com a saúde do jovem e com as companhias dos cigarros – e Deus sabe do que mais. Exortava sempre, quando ele chegava a casa várias horas após ela – cada vez menos regressavam juntos no mesmo autocarro –, a que se alimentasse.
[Eu queria que esta história acabasse bem – mas não é possível.]
Da criança graciosa brotou um homem agressivo. Uma vez, com fumos de álcool a lhe saírem das beiças – para horror da mãe –, levantou-lhe a mão. [Assim ficou durante longos segundos, suspenso.] Baixou, manso, o braço. Depois, aparvalhado e a cambalear, foi para o quarto.

[Crónica publicada no JM, 03-IX-2016, p. 2.]

sábado, 27 de agosto de 2016

Crónica 57

o que é a maturidade?
[o que é a sabedoria dita pela boca de uma lontra que não tem um dique esculpido – à força de dentes amarelos – aonde voltar?]
é um quarto sem sombras – quer dizer – é um quarto com sombras – se não bem-vindas – pelo menos toleradas – amancebadas – se não toleradas – pelo menos sombras que são companhia
é um cofre de segredos que enterramos dentro da coxa – deitamos a chave fora porque não fechamos o ferrolho – e acordamos lembrando – com pânico – o lugar onde está o cofre – porque dói – e fica a carne envenenada de chumbo – o que está dentro é sabido – o que está dentro não nasce ou revive em palavras – não o pode fazer
assim é – se assim é – porque persistes em caminhar de candeia à frente das ventas como vestes desenrugadas?
porque vais e vens – e vais – e pões-te a rabiar como um cachorro – a ladrar para a tua própria coxa – para que todos os passantes – pequenos – parvos e compadecidos – parem – e fiquem – de mão no queixo suado em bica – a deitar nesse teu lombo danado a água que nunca há-de te lavar?
de que te falo eu?
neste momento nem eu sei – nem eu sei o que te diga
mas sei que não há horas para ti – para ti – que és da horda dos traidores multiplicados
porque não vês a hora parda de cansaço em que os coelhos saem das tocas – não vês – nem com o uísque – ou o vinho – ou a cerveja cujo estágio no frio dispensas – que levas à boca sôfrega
não vês a hora esguia em que os gatos afiam as unhas nos troncos das árvores [se as afiassem nas tuas patas malditas nem o sentirias]
não vês a hora devastada em que os lobos – que esperam por ti [e tu não sabes dessa espera] – saem de cabeça baixa dos covis – saem mecânicos – conformados com a necessidade de morte – prontos a serem lobos – e tu pronto a seres caça
não vês a hora em que as borboletas procuram uma sentinela – e fiam no fuso o equilíbrio da roda desbastada do mundo
não conheces a hora – lavada nos teus furores de animal – em que tosses – com fraqueza – após um orgasmo
nas horas – nessas horas – em quaisquer outras – sabes sempre o que fazer – e não sabes o que fazer
pensas que as conheces porque – segundo um segredo alardeado te revelou – jogaste damas com elas e tentaste armar uma pata de galo – não conseguiste e então tentaste anular as regras
mas as horas – assim indistintas – assim indizíveis – são-te uma clausura imposta pelo teu crânio nivelado – se elas não existissem continuavas a existir tu – que as cartografas com o teu astrolábio gretado – que delas falas no teu portulano de uma dimensão espelhada na tua cara
não sabes – e mesmo que soubesses – faltar-te-ia o cabrestante à boca do calhau para puxar o contrabando para terra firme
não sabes nada – não vales nada – e assim ficas – meu caro – salafrário – nessa tua cabotagem à vista constante de terra daltónica – nem horas – nem penhascos – ou baías – nem penhores – ou cizânias – nem caudas de ornitorrinco – ou dodós moídos em mandíbulas de porcos – nada
estou cansado – estou cansado de falar contigo – ficas aí – assim – sempre – parado – igual – na tua ablução mental – que não distingues de um vómito – que mete nojo ao animal para quem o nojo não existe
[um espelho foi traído por um prego indolente – e partiu-se no chão]
[alguém tropeçou – cortou-se – verteu sangue – mas não houve sobressalto – ouviu-se um rosnar manso por detrás de uma porta – ou vindo do outro lado de uma sombra]

sábado, 20 de agosto de 2016

Crónica 56 [Rescaldo]

Parecia-lhe que o pior – aquilo que ninguém imaginava acontecer: um inferno de fumo negro e casas como fornalhas – havia já passado. Mas, no dia seguinte, após um jantar leve, olhou – vigilante – pela janela, com os dedos da mão direita pousados sobre o lábio inferior. E viu: subiam, das entranhas de umas ruínas calcinadas, três ou quatro moradias acima na estrada, umas baforadas de fumo esbranquiçado. O monstro – aquele bocado do monstro – tinha ficado adormecido; e agora respirava, com pequenos haustos perversos, indiferentes à memória traumática.
Pediu à mulher que telefonasse a pedir ajuda e voou estrada acima. [Pareceu-lhe que o fumo começava a ficar mais negro. Entretanto, a noite aproximava-se. Que cores percebem os olhos, quando no dia anterior só se viu fumo preto e labaredas?] Encontrou pessoas das redondezas também alarmadas – pessoas que, antes, tinham sido seus vizinhos: vizinhos que não conhecia, cujos nomes não sabia, com quem nunca havia discutido a meteorologia ou os exacerbados preços dos alimentos nos supermercados. Vizinhos, na verdade, com quem tinha sido irmanado quando o lume tentou penetrar no coração da cidade. Ele e eles – nós de uma mesma rede que tentou suster o monstro. Missão cumprida – missão, porém, que agora voltava a reclamar esforços. O monstro – uma réplica dele, pelo menos – voltava a dar de si, contra a necessidade de descanso.
Quando entrou na quinta, na casa, nas ruínas – como poderia denominar aquilo? –, viu os escombros que, por dentro, incubavam o fumo. Escombros na noite – pedras, carvão e ferros que tornavam o chão uma paliçada. Se havia vidros, não os viu. Ele alcançou um homem que trazia um balde de água. Depois, uma outra vizinha ligou e passou-lhe, do outro lado da rua, uma mangueira. Começou a aspergir, sozinho, os escombros. O fumo, todavia, parecia se alimentar da água. [Que diabo será isto? – pensou ele.] Quando deu por si, ao seu lado estava um homem franzino, também disposto a ajudar. [Nunca tinha discutido com este vizinho a possibilidade de chuva em Outubro ou Novembro, o calor deste Agosto, a carestia de vida, os impostos que levavam couro e cabelo. Quando deu por si, estava a trabalhar lado a lado com este homem, como irmãos que não precisavam de muitas palavras para comunicar.]
O homem franzino começa a deitar as mãos ao entulho – como quem quer esventrar o monstro e descobrir, nas entranhas, a bílis incendiária. Nestas entranhas tinham permanecido bolsas de oxigénio e polímeros – e outros pastos para o fumo que subia. Ambos usaram as mãos como peneiras. Viraram pedras que ferviam – e queimaram-se. Desenterraram farrapos de carpetes e sacos de plástico – e molharam bem o que iam desenterrando. Evitaram os ferros enferrujados que os ameaçavam. Um deles arrancou uma barra de ferro e usou-a para levantar o entulho, enquanto o outro tentava afogar com a mangueira o que estava nas profundezas. Um avisou o outro para ter cuidado – poderia haver vidros no chão, à espera de mãos afoitas. [Havia, de facto – mas ninguém se cortou.] Afogaram enfim o atrevimento do fumo.
[Muito foi já dito e escrito. Neste momento, quaisquer palavras que eu possa ajuntar parecem-me descuidadas, frívolas, apócrifas. Por pouco, aliás, o desastre não me roubava esta crónica. É tempo de agir, de cuidar, de prevenir – e de agradecer. No rescaldo, este é o meu pequeno tributo aos heróis da minha terra.]

[Crónica publicada no JM, 20-VIII-2016, p. 2.]

sábado, 6 de agosto de 2016

Crónica 55 [Uma Infância]

Por causa deste Agosto que ferve, perguntei ao meu interlocutor – um homem com a minha idade, de barba preta e coçada – como tinha sido a infância dele. Boa? Má? Havia me recordado de uma crónica de José Saramago, sobre as férias da infância – «as únicas férias maravilhosas que já tivemos», «esses infinitos meses para os quais não havia projectos, porque então não os fazíamos e porque, mesmo antes de vividos, já eram realização.»
Porém, nem a lembrança desta referência literária nem uma qualquer boa intenção – penso que existiu, a intenção; e que seria boa – me salvaram da avaliação que da pergunta fez o meu interlocutor. Vi que ficou enfadado – ao início. Depois, os seus olhos vestiram uma capa vítrea de perplexidade – pelas memórias da infância que lhe começaram a assomar. E, com vagar, tocou ele uma melodia inexorável na harpa da voz.
Que tinha uma lembrança de quando ainda era bebé de berço. Que tinha a lembrança de uma jovem mulher, de cabelos de ouro, que o olhava do alto – para o berço. [Eu não disse nada.]
Que, passados uns anos, brincava um dia no chão, com um carrinho. Que de repente levantou a cabeça e olhou para a direita, para onde o sol estava. E que lhe advieram perguntas de um canto obscuro. “Porquê isto? Porquê o mundo? Porquê estes olhos, estas janelas? Porquê eu? Por que razão estou aqui? Porquê?” [Acrescentou que hoje tenta adormecer – que faz por adormecer, com ardor – estas perguntas. Calado – eu fiquei calado.]
Que um dia fitou o sol – e que o disco laranja toldou-se para um azul que pulsava. [Ele não usava óculos – nunca usou.] Que a sua professora primária perguntou à turma de que cor era o sol, e que ele – o melhor aluno, laureado com ênfase e regozijo – havia dito que era azul. Que a professora o havia increpado com ênfase e fúria. [Nada ripostei.]
Que ia até ao terraço da sua casa forrado de telas de alcatrão por causa das infiltrações. [No Agosto o alcatrão sobejava e ficava peganhento.] Que aí ficava – subia a uma nespereira raquítica e paciente, cujos ramos nunca partiram com o seu peso. Que olhava – olhava, sem tempo, a fímbria em que o mar se juntava à cor ocre do horizonte. [Assenti com a cabeça.]
Que o irmão lhe havia assinado a cara com um estralo, numa tarde quente de Agosto, perante os outros miúdos das vizinhanças. Que o seu destino tinha ficado escrito a partir desse momento.
Que gaguejava, que era zombado, que lhe teciam brincadeiras nas costas, que o empurravam e lhe espetaram pioneses nos braços. Que era sovado – à entrada da escola, dentro da escola, fora da escola. [Bullying – é assim que se diz, certo? Eu tossi. Continuei a ouvir.]
Que um dia, de noite, ao vir da casa de uns primos após um dia esquecido, viu ao longe três ou quatro miúdos que, para fugir do aborrecimento, de certeza que lhe iriam bater. Que, pressentindo essa intenção, partiu uma cana vieira e, dessa vez, se defendeu com uma coragem imperativa – correndo, depois, com abalo e suor o caminho íngreme até casa.
Hoje – disse-me ele – achava que grande parte da nossa felicidade estava no apaziguamento, ou no esquecimento, das memórias da infância. Apaziguar é difícil e carece de coragem – porque implica um confronto procurado, constante, um projecto de vida. Esquecer é impossível – porque envolve, na soberania da nossa vulnerabilidade, um confronto esporádico, de que se foge. A infância. Feliz? Infeliz? Ele hoje já não sabia dizer.
[E eu não disse nada – que poderia eu dizer?]

[Crónica publicada no JM, 06-VIII-2016, p. 2.]

sábado, 23 de julho de 2016

Crónica 54 [O Surdo-Mudo]

Aqui estava o menino.
Sentado, no fundo do palheiro, tremia do frio da noite, sobre a feiteira que havia servido de cama do gado. Limpou uma lágrima com a manga da camisola rota e viu, por entre as sombras, entrar no palheiro, a coxear, um cãozito – dorido, como ele –, que havia sido atropelado ou espancado por alguém. Viu – não ouviu. O cão dele se acercou e pousou a cabeça no colo. Era surdo-mudo o menino. Com a mão, sossegou o bicho, que cessou de ganir.
Era o único surdo-mudo entre os irmãos – entre toda a família. Os pais carregavam-no de trabalho, de sol a sol, e tratavam-no – assim ele o percebeu desde a mais tenra idade – de forma diferente. Por algum motivo supérfluo – e eram muitos os motivos –, apanhava, ora da mãe ora do pai, pancadarias que horrorizavam alguns dos vizinhos, pelos gritos guturais que lhe arrancavam. No fim de um dia assim, era sentenciado a pernoitar no palheiro, com um resto de pão de casa seco. A irmã mais velha, a única parente que dele se compadecia e que o acarinhava, levava-lhe mais alguma coisa para restabelecimento do corpo cansado e fulminado.
[Quando comecei a escrever esta história, quis que ela acabasse mal. Neste momento, não quero.]
Tinha por companhia os animais. Sossegava um cão temeroso ou raivoso com um simples toque da mão. Apanhava pombos e melros que dele não fugiam porque dele não tinham medo. [Quem isto visse diria que era um prodígio – que o mártir havia se tornado messias.]
Passaram os anos e giraram os estados da vida. O menino, agora homem, veio trabalhar para a cidade e aqui alugou um quarto. Um patrão que nele reconheceu valor para trabalhos manuais diversos, tomou-o sob a sua protecção e pagou-lhe justa e condignamente. [Os colegas da firma e os clientes ficavam maravilhados com as suas capacidades. Bastava-lhe colocar uma mão sobre um electrodoméstico avariado – uma máquina de lavar roupa, por exemplo – para diagnosticar e reverter a avaria.] Do vencimento exigiam-lhe os progenitores uma parcela, que ele de início pagou.
Os colegas apreciavam o quanto bastava a cordialidade – ainda que reservada – do homem. Porém, ficavam um pouco impressionados com a voracidade e a desconfiança – os olhos caninos, sempre de atalaia – com que comia, ao almoço, o que trazia na marmita. Uma colega de trabalho, que não era muda – e que percebeu, desvalorizando, estes jeitos –, apaixonou-se pelo seu ar de fragilidade digna – como o de um animal combalido que se erguia, após ser agredido, com um orgulho cabisbaixo. Foram viver juntos e casaram. As pessoas notavam, incrédulas, a cabal comunicação – sem voz, sem som – entre o homem e a mulher: os olhos e os corpos transmitiam e recebiam a informação e, para completar este perfeito circuito, aí estavam os movimentos silenciosos dos lábios e as mãos – sobretudo as mãos.
O amor dela fê-lo levantar os olhos e ter a coragem de cortar com o que o amarrava à casa dos pais. Na última vez que lá foi, o homem atirou às ventas do pai as últimas notas de dinheiro – a última porção do que ganhava. Deu um murro na mesa da sala e partiu-a. Limpou, à saída, os sapatos no tapete da entrada.
À noite, após a mulher – que estava, hoje, grávida de um menino – se ter deitado, e antes de também se recolher, o homem lançava a mão sobre uma das paredes da sala, a tomar o pulso ao lar. [O vizinho do andar superior deveria ter, pensava ele, algum problema na canalização. De resto, pensava ainda, está tudo bem.]
Aqui está o homem.

[Crónica publicada no JM, 23-VII-2016, p. 2.]

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Crónica 53

Explicação da página em branco: segura a duas mãos a picareta; levanta-a bem; deixa-a cair para trás. Explicação da picareta: corta as unhas; levanta a caneta em ângulo recto sobre o papel; afia bem o lápis; sobretudo, evita escrever a vermelho – há que evitar sugestões escusadas. Explicação do sangue: dissolve-o em água; bate-lhe sob a epiderme; há que mantê-lo fluido; há que fazer dele barragem. Explicação da barragem: há barcos, como homens, mal calafetados e sem matalotagem e marinhagem; estes barcos nem em rios navegam. Explicação do calafate: tapa bem os buracos da tua casa; encerra as entradas de lagartixas; fecha as saídas de oxigénio. Explicação da autarcia: se não começar pelos desejos, não começa por lado nenhum. Explicação do oxigénio: mistura-o a teu gosto; com fumo de cigarro, por exemplo; não o mantenhas demasiado puro. Explicação do cigarro: não há dias sem marcos, sem ritmos, sem balanços – sem pontos de entrada e de saída. Explicação do dia: pesa-o de acordo com os teus pesadelos. Explicação do pesadelo: se um peixe falar esperanto enquanto lança uma baforada de uma cigarrilha – tudo bem; se um homem comum tomar uma simples navalha e atacar, comum e simplesmente, alguém – tudo mal. Explicação da navalha: lembra-te do chavelha, quando a enterrava no bucho de alguém – “Guarda-me esta até amanhã”; usa-a marinada em metáfora; substitui-a por algo que fira e que cicatrize logo – uma memória, por exemplo. Explicação dos exemplos: tal como os factos, ou as folhas arrancadas das árvores, não vagueiam simplesmente por aí, à mão de colher. Explicação da colheita: um pão azedo, vindo da nossa eira, traz um conduto doce. Explicação da vindima: deita mais, ou menos, enxofre no vinho – como queiras; fizeste o vinho, terás de bebê-lo. Explicação do imperativo: bate o pé – na dança, na opinião, na perversidade; no que for, bate o pé – há gente que tem pés mais pesados do que os teus. Explicação da opinião: em caso de encurralamento, defende-te; depois, no rescaldo da refrega, não mintas a ti próprio – e penitencia-te. Segunda explicação das opiniões: ao contrário de factos e argumentos, ou ao avesso de grãos de trigo numa eira desempregada, estão simplesmente aí, à mão de semear. Terceira explicação da opinião: por vezes, ou sempre, estás – apenas e tão-só –, errado. Explicação do curral: deita, no meio dos encurralados, opiniões bastantes e terminantes; afasta-te e deixa cozer; volta quando estiver pronto a servir. Explicação da perversidade: veja-se, para melhor dilucidação, a explicação seguinte. Explicação da política: a arte de mudar de posição; a arte de mudar consoante a posição. Explicação da posição: contra factos e argumentos, há poder. Explicação do poder: subestima, sobrestima, defende, ataca – como quiseres; prepara-te para pagares pelos teus erros. Explicação do erro: quando saíres de casa mete um capuz na cabeça; óculos escuros também são úteis; anda rápido; foge à primeira oportunidade. Explicação da pressa: está quase terminada a crónica. Explicação da crónica: o sangue em coágulo dissolve-se em tinta preta. Explicação da tinta preta: uma folha em branco violada.

sábado, 9 de julho de 2016

Crónica 52 [Teatro dos Dias]

Sobe o pano. Várias imagens afloram à boca de cena do teatro dos dias – teatro de negativos, de sombras. Imagens assim.
Dois jovens, à mesa de café, debruçados sobre duas maquinetas – e uma poncha dividida e amendoins com casca –, comunicam através de trejeitos e dialecto tribais. Tribais – ou internacionais: se fosse outro o país, no hemisfério ocidental pelo menos, dir-se-ia que pouca diferença haveria. Gestos francos e língua franca – num mundo cada vez mais igual.
Uma mulher olha, com olhos de metal, para o comprimento da saia de outra. Ao olhar parece que se ouve, por entre os ruídos dos carros que passam na rua, uma lâmina a arrancar uma faísca de um escudo.
Um homem percorre a estrada sem tratuário – e tosse com estardalhaço. Ao fazê-lo, tenta acertar cada contração com um passo veemente da perna direita no asfalto.
Uma velhota, no lado contrário da estrada – também sem tratuário –, apoia-se, com lentidão, no braço de um homem que veste um colete sinalizador de verde florescente. O sol demora-se, a pique, nas alturas.
Um homem – um caminhante –, sempre de fato, percorre a cidade com um jornal enrolado debaixo do braço. Vi-o muitas vezes, nas suas deambulações, acompanhado – primeiro de dois outros homens, depois de um só. Por fim – hoje –, está só. Numa tarde, nos arrabaldes da cidade, vejo-o vociferar para o vazio, de olhos postos no céu, e agitar com impetuosidade os braços – com o jornal, agora, na mão à laia de arma.
Mais adiante, um homem franzino, num clímax de raiva, atira o telemóvel a uma parede de crespo. [Depois, a atenção fugiu-lhe para uma coluna de fumo que subia, e que gerava sirenes de carros de emergência. Um outro drama tinha lugar.]
Uma senhora, no passeio de uma rua, assusta-se com uma voz – de cólera, de desespero – que explodiu num carro que passou com velocidade.
Dois velhos recordam, à porta de uma clínica médica, uma bebida que há décadas era consumida em festas e arraiais: uísque à portuguesa, ou seja, aguardente de cana com ginger ale. Um deles pergunta: “Olha, e aquela coisa na Inglaterra? Votaram p’ra sair da Europa e agora os políticos que defendiam a saída ‘tão todos a saltar do barco como ratos?” Diz o outro: “Aquilo ainda vai ficar tudo em águas de bacalhau.” Isto dito, o primeiro homem tira do maço de tabaco um cigarro e acende-o. Diz o outro: “Ainda não largaste isso? Olha que ainda vai aumentar o preço e vai trazer imagens de gente doente.”
Um casal de namorados adolescentes – ele enorme, ela pequenina; ele o dobro do tamanho dela – pára no meio da praça. Ela furiosa, ele desesperado; ela a força, ele a fragilidade. Ela olha para a cara dele; ele olha para os ares. [Há uma coluna de fumo ao longe que se torna mais negra.]
Uma adolescente que vestia de preto e uma velhota andrajosa chocam à boca de uma esquina. [O telemóvel da jovem caiu ao chão. Não ficou danificado.] Espantadas, seguraram-se nos braços uma da outra – um choque, dir-se-ia, que se transformou num simulacro, ou numa intenção, de abraço.
Cai aqui o pano deste teatro.

[Crónica publicada no JM, 09-VII-2016, p. 2.]

sábado, 25 de junho de 2016

Crónica 51 [O Choque]

Era uma velhota.
Todos os dias postava-se à saída da esquina onde estava, no coração da cidade, o seu pardieiro a ameaçar ruína. Ficava, da manhã até à tardinha, de um jeito assim menineiro, como as crianças quando se escondem em brincadeira – por detrás de uma árvore, de um muro, na dobra da esquina, com a cabeça e parte do corpo a descoberto.
Tinha um sorriso que se diria de criança, também, expectante do que viesse a surgir na rua principal. Ia olhando, ora para a esquerda, ora para a direita. Não tinha vizinhos – na medida em que, na cidade, já não há vizinhos. Para ela olhavam os transeuntes e os moradores ao perto, mas era ela invisível e invisíveis eram eles.
O sorriso é que nunca dava tréguas, apesar dos andrajos que apresentavam, aqui e ali, nódoas e manchas de terra. As pessoas passavam mais ao largo quando a viam – não tanto pelas roupas e guedelha desgrenhada, mas pela cara aberta, como um sintoma de demência, como um silêncio que desarma.
Às vezes um ou outro passante, igualmente de idade provecta – como é óbvio –, dirigia-lhe uma ou outra palavra. Não respondia a velhota, nada dizia. Mas a uma pergunta respondeu, numa tarde. “‘Tá à espera de quem, senhora?” “‘Tou à espera da minha riqueza.”
Quer dizer, à espera do filho – o único filho que teve, emigrado há 40 anos, que nunca mandou notícias ou proventos. A espera e a saudade foram, no início, acompanhados de raiva estupefacta – isto é, da razão –, numa casa onde, sozinha, roía a velhota a fome e a privação. Hoje, havia saudade mas não a raiva – nem a razão.
Era uma adolescente.
Vivia, com a mãe, num T1 + 1, no 3.º andar do prédio que ficava defronte da esquina. O pai, de quem guardava boas lembranças, havia falecido há meia década. Amiúde, virava-se ele para a filha gorducha – ainda hoje ela era gorducha – e dizia: “Vem cá, minha batatinha inglesa!” E ria-se alto, perante a cara de indignação da menina, antes de arrematar: “Ah, minha riqueza.”
Era uma adolescente normal – numa idade onde não há normalidade. Detestava o seu corpo, aborrecia-lhe metade dos colegas da turma, tinha boas notas – que alcançava com enfado e recebia com ainda maior enfado –, trajava de cores fúnebres e na rua andava sempre de auscultadores nos ouvidos e olhos pregados no ecrã do telemóvel.
Não gostava muito da mãe, mulher deveras preocupada com as novelas e que não cumprimentava os vizinhos do prédio. Também a filha não cumprimentava. Ninguém cumprimentava ninguém – ninguém via ninguém.
A mãe dizia-lhe para deixar de ser tão séria e, sobretudo, para não andar constantemente com o nariz metido no telemóvel – o que, em boa verdade, era injusto. Quando não estava a trabalhar ou a ver novelas, também a mãe, dada qualquer oportunidade, não largava o aparelho. Ainda mais injusto era – afinal, a adolescente não consumia, no telemóvel, através das redes sociais, o tempo todo a enganar a solidão. Ao invés, lia, em formato digital, literatura oitocentista – um Camilo, por vezes, e autores ingleses românticos.
Ontem – se não me falha a memória, penso que foi ontem – andava na rua a adolescente, como habitual, com os olhos no ecrã do telemóvel. Aproximou-se da saída da esquina onde, como habitual, estava a velhota, que olhava para o lado contrário. Nenhuma delas deu conta da outra.
A velhota e a adolescente chocaram entre si.

[Crónica publicada no JM, 25-VI-2016, p. 2.]

domingo, 12 de junho de 2016

Crónica 50 [A Menina. A Rapariga]

Todas as manhãs, a partir dos seis aninhos de idade, era obrigada a menina a várias tarefas: preparar o café matinal da mãe; cozinhar a refeição que o pai comeria ao almoço; tratar dos irmãos mais novos.
No casebre, situado perto do centro da freguesia, viviam, na altura, os progenitores e cinco crianças. Ela, a mais velha, ainda veria brotarem da mãe mais cinco irmãos – todos vindos a este mundo à razão de um por ano. De todos cuidaria, de todos cuidava – dos novos, dos maduros.
Só depois dos trabalhos da manhã é que – e já depois de ver, à distância, que a janela da sala de aula havia sido escancarada pela professora – podia dar uma carreira até à escola.
Na volta da escola, esperavam-lhe outros trabalhos: o asseio do casebre; cuidar – sempre – dos mais novos; cozinhar; coser; buscar e carregar alimentos, como sacas de semilhas pelos caminhos e veredas da freguesia. [Cansada, encostava-se a um barranco para recuperar forças, com o volume sobre a cabeça; as forças permitiam-lhe carregar o peso, mas não levantá-lo.]
Assim eram os dias. Dependendo do humor e da dureza da mãe, ia sofrendo – assim como os irmãos, uns mais, outros menos; dependia da predilecção – umas malhas de rachar pedras ou vagas. Por vezes, com os primeiros raios de sol dizia a mãe que, no fim da tarde, iria a menina levar um pancume. Noutras alturas, não era preciso esperar muito. Ou o castigo era aplicado na hora, com os instrumentos disponíveis – nada mais havendo à mão, a própria mão bastava; ou somente depois de a supliciada ter tido tempo de, a mando da verduga, ir colher, junto à praia, o instrumento do suplício – uma vara de salgueiro.
[O salgueiro adora o sal da maresia; e de certeza que, se pudesse, protestaria ser desterrado do seu habitat com o intuito de ajudar a espalhar vergões temperados de sal sobre a pele de uma criança.]
Dias cheios – e que mal acabavam. Nas noites, a mãe, enquanto bordava, exigia que, para sua companhia, a menina lhe lesse uma história [Aprendia a menina rápido – tanto as primeiras letras como as agruras do mundo.] Mas a meio da leitura, o sono descia sobre o cansaço. A mãe, para despertar a menina, dava-lhe dedaladas na cabeça.
[Curioso o destino daquele dedal – tanto protegia um dedo como servia de aríete contra o crânio tenrinho de uma criança.]
Bem. A menina fez-se rapariga – fez-se adolescente. Falecido o pai, vem a família para a cidade. A mãe arranja-lhe trabalho – ou escravidão – em casa alheia – a casa de um chefe de família que era um empregado bancário somítico, com uma mulher madraça e enfatuada e duas filhas babosas que até tarde molharam os lençóis.
[Ela lavava todos os dias a mijeira dos lençóis. Fazia isto e mais na casa – do mais imundo ao mais pesado, sem horas contadas. Dias cheios, de facto.]
Passava fome. [Quem visse a beldade que era, com cabelos louros e olhos azuis, não o diria. Mas passava.] Apertando-se-lhe um dia a fome na barriga, viu-se obrigada a... Foi-lhe ordenado que levasse, ao cão da casa, um prato de milho cozido frio para alimento do animal. No curto caminho até à casota, e longe dos olhares da dona, a rapariga devorou o milho. Por azar, na volta, caiu-se-lhe o prato das mãos. Para o castigo não foi preciso um aviso prévio ou uma vara de salgueiro ou um dedal. A mão da patroa bastou.
Malditos dias, esses, que teimavam em não querer acabar – dias cheios em histórias incompletas, em casas vazias.

[Crónica publicada no JM, 11-VI-2016, p. 2.]

sábado, 28 de maio de 2016

Crónica 49 [O Velho]

O velho descia o cabeço – pernas lentas a pisar passadas íngremes – e caminhava até à tasca do sítio. Chegava e sentava-se numa cadeira de plástico à porta. Aí ficava um par de horas, por vezes mais, até partir para outro lado. O tasqueiro já sabia – nada queria o velho, nada pedia.
Os vizinhos entravam na tasca e iam cumprimentando ou entabulando conversa como quem atira palavras ao ar, à espera de que alguma fosse peneirada pelo velho. Este respondia com monossílabos, uma ou duas interjeições desfalecidas, um virar de cabeça. Um sobrinho, ou o mecânico do sítio, ou ainda um outro velho, ofereciam-lhe, de longe a longe, um copo pequeno de vinho seco. E ele aceitava, simplesmente.
O velho, em novo, casou-se com uma rapariga do sítio: olhares trocados no arraial da paróquia, num Agosto quente, antes de a girândola ser posta a rodar; conversas práticas entre as famílias; e, logo, os trapos, dele e dela, juntados.
Viveram alguns anos num humílimo fogo, de três quartinhos, chegado a um emaranhado de silvado que crescia a olhos vistos – e de onde brotavam lagartixas que vinham à cata de sol sobre as pedras negras. Foram poucos esses anos.
O velho, em novo, decalcou o destino dos que lhe antecederam. E assim foi levando uma vida pesada e vagarosa – feita, em parte, do possível, e em parte do esperado. Usava de deferência para com os senhores que viviam na vila. Trabalhava na fazenda, à jorna, e carregava areia e outras coisas. E bebia – antes, durante e depois.
A mulher, não – não copiou qualquer destino antigo. Tinha a lembrança do pai a agarrar nos cabelos da mãe – um grito reprimido, o coração violento. Não admitiu o possível. Contestou, calada, a vida esperada. Chegou a televisão, as revistas, o sonho de uma outra vida por detrás dos lombos da freguesia. Saiu um dia de casa, calada, abrupta, sem aviso. E não voltou.
O velho, ainda novo, ficou. E tornou-se velho. Não mais soube da mulher. Não houve divórcio. Não sabia, até, o que implicava um divórcio. Hoje, deambulava. Tinha: um par de botas de água; um quarto – um só quarto, os restantes haviam sido devorados por plantas e animais – onde se deitava numa enxerga; um bocado de terra, de herdeiros, de onde por enquanto tirava semilhas para o comer.
Quem o visse não poderia falar de resignação, raiva, tristeza, rancor, ressentimento, pasmo. Quem o visse diria que as suas expressões faciais eram iguais aos seus dias: não havia arrebatamento, mudança, fogo ou enxurrada. Dir-se-ia dele que era um enigma simples – um fóssil apanhado pela erosão.
Um dia viu, no caminho, a mulher – bem vestida, bem arranjada – passar dentro de um carro, em passeio. O que viu não parece ter merecido reacção. Talvez virasse a cabeça de forma mais aguda do que o habitual, mas é duvidoso.
Em todo o caso, nesse dia, o velho tresmalhou-se do trilho costumado. Levaram-no as pernas até onde as canas vieiras – e as canas-de-açúcar – mais silvavam ao vento. Levou-o a humidade salina que adubava os salgueiros na orla marítima. Passou assim pelo cemitério do centro da freguesia. Olhou como se desfocasse o olhar – ou talvez não olhasse. Continuou a caminhar – até outro dia.

[Crónica publicada no JM, 28-V-2016, p. 2.]

sábado, 14 de maio de 2016

Crónica 48 [O Espectro]

Chegou a casa, já madrugada adentro, e atirou-se, abatido, sobre a cama. O quarto de dormir era parte de um pardieiro que tinha acabado de alugar. [Uma janela na cozinha era a única entrada de luz. Fora esta divisão e o quarto de banho, todo o espaço era forrado de uma alcatifa que seria, com certeza, um viveiro de luxo para ácaros.] Era a primeira noite que ali pernoitava. Deitou-se de costas e adormeceu logo.
Acordou com um peso sobre as pernas. Saltou da cama, entre a escuridão, e precipitou-se a acender a luz do quarto. [Não tinha luz na mesa de cabeceira. Não tinha mesa de cabeceira.] Procurou em redor, de olhar acabrunhado, mas nada viu. Vagueou pelo apartamento que ainda mal conhecia e nada encontrou. Encolheu os ombros.
Na segunda noite, deitou-se, menos brusco, e adormeceu a entoar uma música de Bruce Springsteen, “The Ghost of Tom Joad”. [Talvez fosse a versão de estúdio ou a tocada ao vivo com a participação de Tom Morello, guitarrista dos Rage Against the Machine. Fosse como fosse, cantava: «The highway is alive tonight / Where it’s headed everybody knows».] Voltou a despertar com uma pressão sobre os pés. Com a luz de imediato acesa, não encontrou nada que lhe desvendasse o sucedido. Isto, pensou ele, é bem estranho.
O dia de trabalho seguinte foi extenuante e, após uma longa viagem na via rápida – tão longa que, a certa altura, parecia-lhe que não sabia para onde ia –, deitou-se de borco na cama. Não conseguia esquecer as duas noites anteriores. Virou o rosto para a direita e conseguiu enfim fechar os olhos, lembrando-se da “Canção dos Borracheiros” que um dia ouviu ser cantada pelo avô, que era do Porto da Cruz. Tornou a acontecer: um peso sobre os tornozelos – o salto da cama. Dessa vez a sua perscrutação foi feita com olhos esgazeados.
Na quarta noite, novamente o mesmo peso, a mesma pressão exercida – com uma diferença. Foi tal a agitação que caiu da cama e bateu com o nariz no chão alcatifado. O espirro que se seguiu só lhe agudizou a dor.
Na quinta noite, não conseguiu dormir. Pensou na sua descrença – característica da sua geração –, na sua recusa de superstições, no seu desprezo por histórias com pendor sobrenatural. Mas nesse momento pensava em ir à bruxa, em pedir à tia velha para lhe fumigar a casa com alecrim, em solicitar auxílio a um padre. Fosse como fosse, pensava, tudo era, mais do que estranho, aterrador. Não dormiu. E portanto, para maior desconcerto, não sentiu, nessa noite, nada sobre as pernas.
Na sexta noite, por mais que cismasse e se atemorizasse, o cansaço de várias noites mal dormidas não lhe permitiu uma insónia. Adormeceu a pensar na vida que levava – a alienação pelo trabalho, a falta de tempo para a sua humanidade. Matutou ainda, por qualquer razão, na chuva constante e na lama que encontrou antes de entrar em casa. Como se não bastasse, pensou, além de tudo isto só lhe faltava agora um fantasma – um espectro.
Acordou na madrugada. A razão foi a mesma. Levantou-se, mais melancólico do que assustado. Notou, logo, umas pequenas pegadas na alcatifa e no chão da cozinha. E viu – um gato. Ou melhor, uma gata – que, afinal, entrando pela janela da cozinha, tinha vindo nessa e nas noites prévias buscar um pouco de calor, um módico de conforto.
Acabou por adoptar o felino – ou o felino adoptou-o a ele. [O que é que isso interessa?] O que lhe causava inquietação acabou por lhe conceder algum consolo. É assim, por vezes, a vida.
Pôde descansar, finalmente, na sétima noite.

[Crónica publicada no JM, 14-V-2016, p. 2.]